Advogado de atingidos de Mariana na Justiça inglesa tinha contrato anual de R$ 58 milhões

Em testemunho enviado a juiz, diretora do Pogust Goodhead conta como foi negociação para reduzir valores
O rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, matou 19 pessoas e gerou um dano ambiental ainda incalculável.
O rompimento da barragem de Fundão matou 19 pessoas e gerou dano ambiental incalculável. Foto: Agência Brasil

Em maio deste ano, a diretora de Operações do Pogust Goodhead, Lynn Wong, se reuniu com três advogados para discutir os honorários pagos a eles em troca de seus trabalhos na ação sobre a tragédia de Mariana na Justiça inglesa. No centro da conversa, estavam contratos anteriormente firmados que somavam milhões de libras esterlinas, incluindo um individual no valor de £ 8,75 milhões (R$ 58,5 milhões).

Os detalhes das negociações constam em um testemunho de Wong à Corte de Londres em 1º de setembro, em meio à disputa de escritórios de advocacia sobre quem terá o direito de defender os 438 mil atingidos – audiências sobre o caso acontecem nesta segunda-feira (5) e na terça-feira (6).

De acordo com Wong, em maio, durante as negociações em torno do financiamento da causa, o escritório chegou à conclusão que os valores pagos a três advogados seniores eram “exorbitantes e insustentáveis”.

Segundo ela, os honorários advocatícios totais, se fossem mantidos, significariam um quarto de todo o orçamento do escritório para a segunda fase do julgamento, prevista para abril de 2027.

Tais honorários haviam sido firmados em março sob condução de um dos sócios do próprio Pogust Goodhead, apesar de, conforme Wong, o Conselho de Administração do escritório não ter participado das tratativas. O montante também não teria sido aprovado pela Gramercy, gestora americana que financia os trabalhos.

Os contratos assinados em março foram considerados extraordinários, principalmente para um dos advogados. Neste caso, conta Wong, o profissional, entre 7 de abril de 2026 e 6 de abril 2027, receberia honorários líquidos de £ 6,75 milhões, divididos em nove parcelas de £ 637,5 mil e três de £ 337,5 mil. Além disso, outros £ 2,1 milhões seriam pagos como honorários referentes à participação do advogado nas audiências do caso.

No depoimento à Justiça, Wong afirma que, ao conversar com o sócio do escritório responsável por ter conduzido os contratos, foi avisada de que os advogados contratados pela BHP vinham recebendo valores semelhantes.

Ainda assim, o conselho do Pogust Goodhead optou por tentar renegociar os valores em uma reunião em 27 de maio.

“Durante a reunião, discutiu-se o orçamento para o litígio de Mariana e, em nome do Conselho, pedi aos advogados que reconsiderassem seus honorário, visto que já haviam sido extremamente bem remunerados ao longo de vários anos, enquanto nossos clientes aguardavam há mais de uma década por uma indenização”, disse Wong à Justiça.

A reunião, conta a diretora, acabou com os advogados pedindo uma contraoferta por parte do escritório.

Dias depois, o Pogust Goodhead teria oferecido a dois dos três advogados a possibilidade de manter os valores previamente acordados, desde que 75% da quantia fossem pagos após a conclusão do caso. A proposta foi oferecida inclusive ao advogado que receberia £ 8,75 milhões.

Ambos os advogados, no entanto, recusaram a proposta e comunicaram que, em meio ao impasse, deixariam a causa no final de junho. O terceiro profissional, que também recebeu uma oferta em seguida, também pediu para sair do caso, mas ao final, conta Wong, precisou cumprir o contrato que mantinha com o escritório até agosto.

No testemunho enviado à Justiça, Wong diz que, diante do contexto, “há uma necessidade urgente de contratar uma nova equipe de advogados”. Segundo ela, uma nova equipe de advogados seniores já foi selecionada e está pronta para iniciar os trabalhos imediatamente, aguardando apenas a resolução da disputa entre os escritórios de advocacia.

PG não quis se manifestar

Ao Pogust Goodhead, O Fator questionou os motivos que levaram o escritório a renegociar contratos que ele mesmo havia firmado poucos meses antes – inclusive quando Wong já estava na firma.

A reportagem também questionou o valor que o escritório considera justo como honorários a serem pagos à equipe jurídica sênior e qual é o valor acordado com os novos contratados.

O Pogust Goodhead, no entanto, não respondeu a nenhuma das perguntas.

Formado em jornalismo pela PUC Minas, Pedro Lovisi trabalhou nas redações do jornal Estado de Minas e da Rádio Itatiaia. Nos últimos cinco anos, foi repórter da Folha de S.Paulo, onde se destacou pela cobertura econômica de setores ligados à transição energética, principalmente energia e mineração. Também é mestre em Governança Global e Formulação de Políticas Internacionais pela PUC SP, onde estudou instrumentos orçamentários para cidades mineradoras de Minas Gerais.

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