Quem decide a eleição em Minas

Cleitinho Azevedo foi eleito governador. Foto: Redes Sociais

Mais uma vez, a eleição para governador de Minas Gerais foi decidida pelo interior. Não é uma questão de interpretação política, mas de matemática eleitoral. O estado tem 853 cidades e mais de 16 milhões de eleitores. A capital, Belo Horizonte, concentra aproximadamente 1,9 milhão, ou 12% do eleitorado. Mesmo considerando a Região Metropolitana de BH, a concentração é de 28%. Isso significa que mais de 70% dos eleitores estão fora desse eixo.

A comparação com outros estados ajuda a dimensionar a característica específica. A Região Metropolitana do Recife, por exemplo, reúne 42% do eleitorado de Pernambuco; a de Fortaleza, aproximadamente 44% do Ceará; a de São Paulo, mais de 40% do eleitorado paulista; e a do Rio de Janeiro, mais de 50% do eleitorado fluminense. O que mostra que Minas tem uma distribuição territorial muito mais descentralizada e não dependente da capital.

Em pesquisas qualitativas, por várias vezes vi e ouvi, em cidades não muito distantes de BH, como Barbacena, Ipatinga ou Varginha, pessoas com mais de 50 anos de vida e que nunca sequer tinham ido à capital. Porque Minas não é um estado em que tudo converge para um mesmo centro. O interior possui polos regionais que estruturam a vida econômica e social de suas áreas de influência. Um morador de Campina Verde, no Triângulo, recorre a Uberlândia, distante a 150 km, para realizar um exame médico mais complexo, em vez de percorrer 660 km até a capital.   Essa lógica se repete em todas as demais regiões do estado. O eleitor que define, portanto, não vive a realidade do Anel Viário, muito menos da Avenida do Contorno. Tem outras referências e demandas.

Atualmente, 560 dos municípios mineiros — 66% do total — tem menos de 10 mil eleitores. São cidades onde a política mantém uma relação próxima com a vida cotidiana: o eleitor conhece o prefeito, encontra o vereador, sabe onde fica a farmácia popular, acompanha as condições das estradas e sente na pele os efeitos das decisões do poder público. Essa proximidade não significa simplicidade no sentido de atraso ou falta de informação, pelo contrário. Significa pragmatismo e uma vivência direta com os problemas. Há, portanto, diferença fundamental entre visitar e viver o interior. E isso se reflete nas eleições.

Durante muitos anos, entretanto, as campanhas ao governo foram pensadas a partir da capital. Os principais partidos e agências concentravam em BH seus centros de decisão e, por consequência, candidaturas e narrativas eram construídas na capital para depois serem levadas ao restante do estado. A presença do interior se limitava, no máximo, à escolha de um vice de outra região. O problema é que não se trata apenas da origem do candidato, mas de onde se pensa a política: em um estado cuja maioria do eleitorado vive fora da capital, a contradição territorial compromete a conexão com quem, de fato, decide.

Até 2018, as disputas pelo governo estiveram, em sua maioria, associadas a lideranças com forte ligação com a política da capital, ou mesmo nacional, e que o interior tinha que aceitar de bom grado. Havia a demanda, mas não existia oferta. A eleição de Romeu Zema mudou essa lógica. Um candidato de Araxá, identificado com o interior, surpreendeu a todos quando chegou ao governo falando a linguagem de quem estava fora do eixo belo-horizontino. Na bolha política, alguns o apontavam pejorativamente como “capiau”. Não entendiam que era esse o maior trunfo da imagem que o emergiu e, depois, o reelegeu em 2022, vencendo no primeiro turno. Mais do que o resultado numérico, sua narrativa consolidou uma forma de comunicação política que tinha, até então, o interior como componente central de identificação e pertencimento, a oferta correta.

Em 2026, a estratégia reapareceu de maneira ainda mais explícita na composição da disputa estadual. Entre os principais candidatos ao governo, apenas Cleitinho e seu vice, apresentavam histórias diretamente identificadas com o interior: o governador eleito, natural de Divinópolis, e Falcão, ex-prefeito de Patos de Minas. Os demais concorrentes tinham suas trajetórias políticas originadas em Belo Horizonte.

Alguns ainda tentaram se apresentar como “do interior” durante a campanha, recorrendo a trajes e dizeres típicos, ou a estereótipos associados à vida rural. Mas pertencimento não se fabrica. Quando esses elementos aparecem apenas no período eleitoral, são percebidos como encenação. O mineiro que mora fora da capital — a maioria — não quer um candidato que visite sua cidade. A demanda é por alguém que conheça aquela realidade, entende sua vida e não está ali apenas por causa de voto.

Afinal, Minas ainda pode ter a política organizada na capital. Mas suas eleições gerais são decididas por um eleitor que, pela terceira vez consecutiva, decidiu em seu favor, contrariando diagnósticos de quem o enxerga com desdém e mero interesse eleitoral. Compreender essa diferença é decifrar a lógica da campanha mineira, onde antes de falar com o interior, é preciso entender e atender quem vive nele.

Baiano de Salvador, é economista, jornalista, Mestre em Comunicação e Sociedade pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Mestre em Políticas Públicas pela Universidade de Brasília (UnB), pós-graduado em Gestão Pública pela Escola Nacional de Administração Pública (ENAP), especialista em Comunicação Política pela Asociación Civil Estudios Populares de Argentina (ACEP), com aprimoramentos em estratégia política na The Graduate School of Political Management (George Washington University). Trabalhou na Presidência da República durante dois mandatos e participa há mais de 20 anos nos níveis estratégicos de campanhas eleitorais e planejamentos de comunicação legislativa e governamental em todo o Brasil. As recentes de maior sucesso foram as eleições à presidência da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (FIEMG) e as duas vitórias ao Governo de Minas, coordenando a campanha do governador Romeu Zema, que em 2018 saiu de 2% de intenções para 72% de votos. E em 2022, novamente com a coordenação da STRATTEGY, venceu a reeleição ainda no 1º turno. Vencedor de premiações nacionais e internacionais que destacaram os trabalhos desenvolvidos pelos resultados alcançados com originalidade, criatividade e diferenciação na comunicação política, eleitoral e governamental.

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