O milagre que cabe num encontro

Estátua de Dom Quixote
empre volto a Dom Quixote. Ele via gigantes onde havia moinhos e insistia em acreditar que o mundo podia ser maior do que parecia. Foto: Pixabay

Há uma frase que carrego comigo sem saber de onde veio: o outro é a longa mão do universo. Gosto dela porque não pede fé. Pede atenção. Talvez seja isso que mais nos falte: perceber que a vida dos outros continua acontecendo enquanto estamos ocupados com a nossa.

Aconteceu numa tarde de engarrafamento na Avenida Bias Fortes, em Belo Horizonte, na parte mais íngreme. O sol batia forte, desses que fazem o asfalto brilhar e o ar tremer sobre o capô. Eu havia buscado meu filho Gabriel na Escola do Sebrae. Ele ia no banco do carona. Estávamos parados havia tempo, ouvindo os motores ao redor e esperando um sinal que parecia não abrir nunca.

De repente, Gabriel abriu a porta e saiu. Antes que eu entendesse, já estava atrás de um carrinho de recicláveis, ajudando um senhor a vencer a subida. Fiquei olhando pelo vidro, sem saber como proceder, se me preocupava ou se tentava entender. O carrinho estava carregado de papelão, latas e sacolas, tudo empilhado de um jeito que parecia impossível de equilibrar. O homem avançava devagar, o corpo inclinado para a frente, como quem conhece bem uma rampa que não perdoa.

Meu primeiro impulso foi ver uma forma de ajudar com aquele esforço, mas seria impossível pelo engarrafamento. O trânsito podia andar, algum motorista podia perder a paciência, havia carros por todos os lados. Enquanto essas preocupações me atravessavam a cabeça, Gabriel empurrava o carrinho, passo a passo, durante metade daquela subida. O senhor seguia à frente, concentrado no esforço. Gabriel ajudava empurrando na parte de trás, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Depois voltou, sentou-se e fechou a porta. Seguimos.

Fomos em silêncio até em casa. Não sei o que se passava na cabeça dele. Sei o que se passava na minha. A gente passa a vida ensinando os filhos a serem prudentes, a evitar riscos, a não se meter onde não foi chamado. E então o filho faz justamente aquilo que recomendamos evitar, mas por uma razão que nos desarma. Eu estava preocupado e orgulhoso ao mesmo tempo. Perguntei a mim mesmo se teria notado aquele homem caso Gabriel não saísse do carro. Talvez continuasse olhando para o sinal. A ladeira estava diante de nós dois, mas só um percebeu que alguém precisava de ajuda. Fiquei com a estranha sensação de que eu conhecia as regras daquele trânsito, enquanto ele enxergava uma necessidade que não aparecia em regra alguma.

Mais tarde, Gabriel foi treinar na academia como se nada tivesse acontecido. Eu fiquei na cozinha, com um café na mão, olhando pela janela sem ver nada. Poderia ter perguntado por que ele fez aquilo. Não perguntei. Havia ali uma lição que eu não sabia como agradecer. Era dele, e ele nem sabia que estava dando. Continuo pensando nisso meses depois.

É esse o milagre que me interessa. Não o das procissões, embora esses tenham seu lugar no coração de quem crê. Penso naquele que acontece sem anúncio, quando alguém percebe a dificuldade de outro e decide fazer alguma coisa. O peso do carrinho não desapareceu. Mas, por um trecho do caminho, passou a ser dividido.

Sempre volto a Dom Quixote. Ele via gigantes onde havia moinhos e insistia em acreditar que o mundo podia ser maior do que parecia. Também amou Dulcineia antes de qualquer correspondência. Havia uma mulher real por trás daquele nome, mas o cavaleiro a revestiu de um amor que primeiro existiu dentro dele. Penso nisso porque muitos dos encontros que transformam nossa vida começam assim: como a esperança de algo que ainda não aconteceu. Antes de se tornar gesto, o amor também pode nascer como sonho.

Sancho seguia ao lado de Dom Quixote. Conhecia a fome, o cansaço e a dureza dos caminhos. Não via o mundo com os mesmos olhos do cavaleiro, mas continuava com ele. Gosto dessa amizade porque nenhum precisava tornar-se igual ao outro para caminhar junto. Eram diferentes, e havia lugar para ambos. É uma ideia simples, mas difícil de praticar quando cada um acredita que sua maneira de olhar é a única possível. Talvez o universo seja isso que a palavra parece sugerir quando a escuto devagar: o uno na diversidade. Não a obrigação de pensarmos da mesma maneira, mas a possibilidade de reconhecermos uns aos outros como parte de uma mesma vida.

Sei que é um sonho grande. Gostaria de ver as pessoas vivendo assim, compreendendo que a diferença não torna ninguém estranho ao mundo. Nem sempre conseguimos. Às vezes mal percebemos quem está ao nosso lado. Mas o sonho deixa de ser apenas sonho quando alguém lhe dá as mãos, mesmo sem saber que o está realizando.

Gabriel não pensou em Dulcineia, em Sancho ou em qualquer filosofia. Viu um homem diante de uma ladeira difícil e foi ajudá-lo. Foi só isso. E, para mim, foi muito. Naquele instante, dois desconhecidos partilharam um esforço sem precisar dividir opiniões, histórias ou destinos.

O trânsito continuou. O senhor prosseguiu com seu trabalho. Não sei se percebeu quem o ajudava, nem se se lembra daquele dia. Sei apenas que, durante metade da subida, não esteve sozinho. Gabriel retomou a própria rotina. Eu também, mas guardei o que vi. Há acontecimentos que passam depressa demais para se tornarem conversa e, mesmo assim, permanecem conosco.

Talvez o milagre não seja ver o sonho inteiro realizado. Talvez seja surpreender, no meio de uma tarde comum, um pequeno pedaço dele acontecendo diante dos nossos olhos. Sem fanfarra. Sem registro. Com um carrinho pesado, duas pessoas numa ladeira e a longa mão do universo passando por ali.

Jorge Berg é desembargador do Tribunal Regional do Trabalho da 3ª Região, Conselheiro Benemérito do Clube Atlético Mineiro e Adido Consular Cultural de Luxemburgo em Minas Gerais.

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