A física dos encontros

Homens escalam montanha
As relações não exigem que sejamos iguais, mas precisam de alguma possibilidade de encontro. Não precisamos pensar da mesma maneira ou desejar as mesmas coisas. Precisamos, porém, de alguma disposição para escutar, acolher e reconhecer que existe um universo inteiro dentro daquele que está diante de nós. Foto: Pixabay

Algumas pessoas fazem de tudo para serem percebidas: aumentam o volume da voz, repetem o discurso, mandam sinais de fumaça, acendem os faróis em plena luz do dia. E nada. Do outro lado, o silêncio despretensioso continua sentado no sofá, tomando café, como se absolutamente nada tivesse acontecido.

É que a vida, além de misteriosa, tem lá suas leis. Mas parece que algumas delas foram escritas com uma pitada de ironia divina. Na Física, existe um fenômeno chamado “ressonância”. Acontece quando um sistema é estimulado numa frequência que combina com a nossa frequência natural. E o interessante é que a vibração aumenta, a energia é transferida com mais eficiência, e aquilo que parecia imóvel começa a se mover.

Uma taça de cristal pode vibrar intensamente quando recebe um som na frequência adequada. Porém, não adianta fazer um escândalo diante de qualquer taça e esperar que ela vibre. O cristal não se impressiona com a nossa insistência. Ele responde à frequência certa. Com gente, embora a ciência não explique tudo, a metáfora funciona muito bem.

Há pessoas que falam a mesma língua, mas não se entendem. Dividem a mesma mesa, a mesma casa, mas habitam universos completamente diferentes. Uma fala de sentimentos, a outra responde com números. Enquanto uma oferece o coração, a outra pede a nota fiscal. Uma enxerga poesia no pôr do sol e a outra reclama que está ficando escuro.

Isso porque cada pessoa habita uma frequência própria. Somos feitos das experiências que vivemos, das dores que carregamos, dos medos que ainda nos governam e dos sonhos que nos mantêm acordados. Tudo isso altera o modo como enxergarmos o mundo, como notamos o outro e como interpretamos seus gestos.

A proximidade física não garante encontro, a convivência não denota intimidade e o tempo, por si só, não é capaz de produzir sintonia. Estar perto é uma questão de distância. Estar em sintonia é que é a verdadeira ressonância.

Uma das grandes ilusões humanas é pensar que se explicarmos melhor, se tivermos mais paciência, se fizermos mais um esforço, conseguiremos fazer o outro vibrar na nossa frequência. Mas ninguém muda de estação por obrigação. E não há argumento capaz de fazer florescer no coração de alguém uma sensibilidade que ainda não encontrou espaço para nascer.

As relações não exigem que sejamos iguais, mas precisam de alguma possibilidade de encontro. Não precisamos pensar da mesma maneira ou desejar as mesmas coisas. Precisamos, porém, de alguma disposição para escutar, acolher e reconhecer que existe um universo inteiro dentro daquele que está diante de nós.

Assim como não precisamos ser música para todos os ouvidos. Precisamos apenas encontrar aqueles em que a nossa música desperte alguma sensação, já que a vida acaba sendo uma grande experiência de acústica da alma.

E, quando isso acontece, não é preciso gritar, não é preciso convencer, não é preciso transformar o afeto numa campanha publicitária com insistentes chamadas comerciais. A presença encontra lugar e o silêncio também conversa.

Porque a verdadeira sintonia não exige que aumentemos o volume da nossa música, mas espera que encontremos quem tenha ouvidos para a nossa melodia. Ela acontece quando o outro, naturalmente, está na mesma estação. Afinal, é a ressonância que faz duas almas, mesmo distantes, descobrirem que já estavam cantando a mesma canção.

Escritora. Observadora comportamental. Bacharel em Direito.

A física dos encontros

Leia também:

A física dos encontros

Walkiria La Roche, a arte de permanecer

Prefeitura de Brumadinho recorre ao STJ para liberar auxílio da Vale aos atingidos

Veja os Stories em @OFatorOficial. Acesse