Governo federal deverá zerar alíquota do Imposto Seletivo para bens minerais

Ministério da Fazenda sinalizou que não cobrará tributo até que imbróglio seja resolvido no ano que vem
Planta da Vale
Operações da Vale de minério de ferro Foto: Vale/Divulgação

O Ministério da Fazenda deverá zerar a alíquota do Imposto Seletivo (IS) para bens minerais, incluindo o minério de ferro, ao menos nos primeiros meses de 2027. O Fator apurou que a sinalização foi feita pela equipe da pasta durante reunião com entidades setoriais na semana passada.

Trata-se de um alívio financeiro para as grandes mineradoras de ferro, como Vale, CSN e Anglo American, que a partir do início do ano que vem já estariam sujeitas a uma alíquota de até 0,25% sobre o valor de referência do minério de ferro comercializado por elas.

De acordo com estudo feito no ano passado pelo Cedeplar e a Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas e Administrativas (Ipead), ambos ligados à UFMG, o imposto custaria, ao todo, cerca de R$ 383 milhões por ano às empresas.

O valor é igual a um quarto dos R$ 1,53 bilhões calculados pelas entidades a partir da alíquota de 1%, presente na emenda constitucional que instalou a Reforma Tributária – uma lei complementar posterior fixou um teto de 0,25%.

Imbróglio sobre alíquotas e prazo

O Imposto Seletivo, criado pela Reforma Tributária, incide sobre veículos, embarcações, aeronaves, produtos fumígenos, bebidas alcoólicas e/ou açucaradas, bens minerais, loterias e jogos de apostas.

As alíquotas a serem aplicadas a esses produtos precisam ser definidas por meio de lei ordinária ou medida provisória. A questão ainda não foi encaminhada ao Congresso pelo governo federal, o que atrasa a cobrança do tributo. Isso porque a legislação brasileira define que um imposto só pode ser cobrado ao menos depois de 90 dias de sua criação – além disso, para que a cobrança seja aplicada no ano que vem, as alíquotas precisam ser definidas ainda neste ano.

Enquanto não há definição dos índices, o governo deve enviar ao Congresso uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) para manter a cobrança do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) sobre os produtos industrializados – a Reforma Tributária zerou a alíquota da maior parte desses itens.

No caso da mineração, no entanto, o IPI não incide sobre o minério de ferro, que não é considerado um produto industrial. Dessa forma, as mineradoras ficarão, por tempo ainda indeterminado, imunes ao aumento da carga de impostos.

Provável disputa

O Fator questionou o Ministério da Fazenda sobre quando a pasta pretende fixar as alíquotas do Imposto Seletivo para os bens minerais, mas a pasta se limitou a dizer que “a discussão sobre o Imposto Seletivo no âmbito do Congresso Nacional, bem como os detalhes da proposta, ocorrerá no momento oportuno”.

Em nota, afirmou que a intenção do governo é garantir previsibilidade e segurança jurídica para 2027. “A pedido da Confederação Nacional da Indústria (CNI), o Ministério recebeu representantes dos setores impactados pelo Imposto Seletivo, com o objetivo de ouvir suas preocupações e avaliar cenários para os próximos passos”, diz.

Advogados que defendem as grandes mineradoras pontuam que independentemente de quando a cobrança começar, a incidência será levada ao Supremo Tribunal Federal (STF). As empresas apontam incostitucionaliodade do imposto, que segundo elas, ao incidir sobre produtos negociados com outros países (como o minério de ferro), configura um imposto de exportação. Além disso, as empresas defendem que o IS, ao taxar bens primários, contribui para a cumulatividade dos impostos, em direção contrária ao princiípio de não-cumulatividade da Reforma Tributária.

Pesa ainda sobre o tema os resultados das eleições presidenciais marcadas para o próximo domingo (25). O candidato Flávio Bolsonaro (PL) já indicou que pretende alterar alguns pontos da Reforma Tributária, inclusive do Imposto Seletivo.

Formado em jornalismo pela PUC Minas, Pedro Lovisi trabalhou nas redações do jornal Estado de Minas e da Rádio Itatiaia. Nos últimos cinco anos, foi repórter da Folha de S.Paulo, onde se destacou pela cobertura econômica de setores ligados à transição energética, principalmente energia e mineração. Também é mestre em Governança Global e Formulação de Políticas Internacionais pela PUC SP, onde estudou instrumentos orçamentários para cidades mineradoras de Minas Gerais.

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