A ausência do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em Minas Gerais começou a provocar incômodo entre integrantes do PT no estado. Em meio à indefinição sobre o palanque ao governo do estado e ao vácuo deixado pela desistência de Rodrigo Pacheco (PSB), dirigentes da legenda passaram a cobrar uma participação mais direta do presidente na reorganização política mineira.
Segundo maior colégio eleitoral do país, Minas recebeu Lula apenas duas vezes em 2026. A última visita aconteceu em março, durante agendas em Betim e Sete Lagoas, na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH). Desde então, o presidente não voltou ao estado, enquanto o PT atravessa uma crise de articulação que deixou a legenda sem candidato definido ao Palácio Tiradentes e sem consenso sobre qual caminho seguir.
O contraste chama atenção dentro do partido porque, no mesmo período de 2022, Lula manteve presença intensa em Minas. Ainda na pré-campanha, passou três dias no estado entre 9 e 11 de maio, com agendas em Belo Horizonte, Contagem e Juiz de Fora, numa mobilização tratada pelo PT como estratégica para consolidar alianças e fortalecer o movimento nacional da campanha.
Nos meses seguintes, Minas se transformaria em uma das prioridades centrais da campanha presidencial. Lula voltou ao estado diversas vezes durante a disputa eleitoral e intensificou agendas no interior mineiro e na RMBH na reta final da eleição, diante da avaliação de que o estado seria decisivo para o resultado nacional.
Agora, quatro anos depois, a percepção de parte do PT é oposta. Integrantes da legenda afirmam reservadamente que a ausência de Lula ampliou a sensação de desorganização interna justamente no momento em que o partido perdeu seu principal plano para Minas.
Durante meses, a estratégia construída pelo entorno do presidente esteve concentrada na tentativa de convencer Rodrigo Pacheco a disputar o governo do estado. Quando o senador desistiu da candidatura, o PT foi obrigado a reabrir praticamente do zero as negociações para definir quem representará o campo governista em Minas.
Mandando recados
Mesmo com a distância física, Lula já sinalizou a dirigentes do partido que sua preferência é por uma candidatura petista na cabeça da chapa em Minas. A posição passou a orientar parte das discussões internas após a saída de Pacheco do cenário, mas ainda não foi suficiente para pacificar as divergências sobre qual nome teria viabilidade eleitoral e capacidade de unificar as diferentes correntes da legenda.
O desgaste foi tão grande que o próprio presidente nacional do PT, Edinho Silva, admitiu publicamente que a desistência de Pacheco criou um problema para o partido. Desde então, dirigentes estaduais passaram a defender mais protagonismo do diretório mineiro e a reclamar, nos bastidores, da condução das negociações a partir de Brasília.
O incômodo, porém, não começou com a desistência de Pacheco. Integrantes da legenda relatam que já havia desconforto entre setores do PT mineiro com a centralização das decisões pela direção nacional e pelo entorno de Lula. A avaliação de parte dos dirigentes é de que as principais definições sobre a sucessão estadual ficaram concentradas na cúpula nacional, reduzindo a margem de atuação das lideranças locais justamente no estado considerado estratégico para o projeto de reeleição do presidente.
O PT chegou a sondar o deputado federal Reginaldo Lopes e a ex-prefeita de Contagem, Marília Campos, sobre a disposição de disputar o governo. No entanto, ambos resistem à ideia. Diante disso, passou a ganhar força o nome de Sandra Goulart, ex-reitora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Na cota externa de possibilidades, são mencionados Gabriel Azevedo (MDB) e Alexandre Kalil (PDT), mas nenhum deles conseguiu, até aqui, se consolidar como solução consensual.
Contraste
Enquanto o PT tenta reorganizar seu projeto mineiro, adversários ampliam presença no estado. Ronaldo Caiado intensificou agendas em Minas nas últimas semanas e cumpre agendas no estado nesta semana. Já Flávio Bolsonaro desembarca em Belo Horizonte nesta segunda-feira (1º) para compromissos políticos e articulações eleitorais. Ao mesmo tempo, Romeu Zema (Novo) mantém uma agenda permanente pelo interior e transformou o próprio governo em vitrine política.
É justamente essa comparação que passou a alimentar o desconforto dentro do PT. A percepção que se instalou em setores do partido é a de que Minas ficou em segundo plano nas prioridades políticas do presidente.