“Dias ensolarados, noites frias e solo seco.” Murillo Regina diz a frase como quem resume uma vida inteira. Brinca que gostaria de vê-la escrita em sua lápide. Mas, mais do que epitáfio, ela é uma descoberta. Nela cabem o clima do Sul de Minas, a inteligência do café, a pesquisa pública da Epamig, a reinvenção da videira e uma das contribuições mais originais do Brasil ao mundo do vinho.
Murillo de Albuquerque Regina nasceu em Varginha, no Sul de Minas, região marcada pela cultura cafeeira, pela altitude e por uma relação profunda entre trabalho rural e paisagem. Passou a infância em fazendas de café. Antes de estudar a videira, aprendeu a observar o campo: a maturação lenta, a influência do clima, o valor das mãos que plantam e a delicada relação entre planta, tempo e território. “Desde muito novo entendi que minha paixão era pelo campo, por criar ou por plantar”, recorda.
A escolha pela agronomia veio dessa origem. Formou-se pela Escola Superior de Agricultura e Ciências de Machado, em 1983. Ainda jovem, encantou-se pelas ciências hortícolas: fruticultura, olericultura, floricultura. A fruticultura despertou nele uma percepção social: a fruta valoriza o trabalhador. Diferentemente das grandes culturas mecanizadas, o cultivo de frutas exige mão, olhar, poda, enxertia, desbrota, cuidado. Exige gente que sabe fazer. E quem sabe fazer deve ser reconhecido.
A chegada à Epamig, em Caldas, deu a essa vocação um destino institucional. A estação experimental trabalhava com fruticultura de modo amplo, mas uma viagem mudaria sua vida. Em 1986, Murillo foi à Espanha para uma especialização em viticultura e enologia. Viveu em Madri, percorreu regiões vinícolas, conheceu tradições, técnicas e paisagens. Ao voltar, comunicou à presidência da Epamig uma decisão que hoje soa quase como uma frase literária: “Eu não sou mais o agrônomo da fruticultura. Eu mergulhei meu diploma numa taça de vinho.”
A frase revela um rito de passagem. O vinho deixou de ser apenas uma cultura agrícola e passou a ser uma visão de mundo. Depois viriam o mestrado e o doutorado em Viticultura e Enologia na Université de Bordeaux II, na França, concluídos em 1990 e 1993, além de estudos avançados em fisiologia de plantas cultivadas, adaptação, propagação e manejo da videira. Sua formação europeia deu densidade científica ao olhar. Mas o gesto decisivo foi mineiro: em vez de copiar a Europa, Murillo passou a perguntar o que Minas tinha de próprio a oferecer.
A resposta estava no inverno.
Durante muito tempo, no Sudeste brasileiro, a videira seguia o ciclo tradicional: era podada em agosto e colhida em janeiro ou fevereiro, justamente no período das chuvas. A planta amadurecia em condições adversas para a elaboração de vinhos finos. Murillo percebeu que talvez o problema não fosse a falta de vocação do território, mas o calendário. Se entre maio e agosto Minas oferecia dias ensolarados, noites frias e solo seco, era preciso conduzir a videira para amadurecer nesse período.
Nascia a lógica da dupla poda: reeducar o ciclo da planta por meio da poda. Em vez de podar em agosto para colher em janeiro, podar em janeiro para colher em agosto. Tecnicamente, trata-se de inverter o ciclo produtivo da videira para que a maturação ocorra no inverno, com menor incidência de chuvas, melhor sanidade das uvas e maior equilíbrio para vinhos de qualidade.
Mas a dupla poda não nasceu como mágica. Nasceu como pesquisa, tentativa, erro, observação e persistência. A Epamig foi decisiva. A antiga vinícola da Estação Experimental de Caldas foi recuperada e transformada em base incubadora de empresas: um espaço capaz de apoiar produtores, testar vinificações, formar confiança e transformar hipótese científica em garrafa.
Murillo gosta de dizer que uma ideia de pesquisa pode virar projeto, o projeto pode virar artigo, e o artigo pode “ir para a poeira de uma biblioteca ou pode ir para a garrafa”. Essa frase talvez seja uma das melhores sínteses de sua trajetória. Quando a ciência vai para a garrafa, chega ao lavrador, ao produtor, ao enólogo, ao restaurante, ao hotel, ao turista, à cidade. Vira trabalho, renda, autoestima e desenvolvimento.
Em 2001, ao lado de Marcos Arruda, Patrick Arsicaud e Thibaud Salettes, Murillo fundou a Vinícola Estrada Real, hoje conhecida também pela marca Primeira Estrada. A vinícola foi pioneira na implementação da dupla poda e se tornou uma espécie de biografia engarrafada dessa descoberta. Ali, o pesquisador atravessou a porteira. A técnica ganhou vinhedo, rótulo, mercado, memória e experiência sensorial.
Há cenas que resumem vidas inteiras. Uma delas envolve Luiz Henrique, o Dedé, da Casa Geraldo, em Andradas. Ele procurou a Epamig para comprar mudas de bordô. Murillo, em vez de lhe entregar apenas um artigo científico, abriu uma garrafa. Dedé provou e perguntou se era vinho francês. Murillo respondeu: “Não, é mineiro.” O produtor saiu dali não com mudas de bordô, mas com mudas de Syrah.
Anos depois, essa aposta ajudaria a projetar Minas no cenário internacional. Em 2026, no Decanter World Wine Awards, o Brasil alcançou seu melhor desempenho, com 221 medalhas. Desse total, 78 foram para vinhos de colheita de inverno elaborados a partir da tecnologia de dupla poda validada pela Epamig. Entre os destaques brasileiros estiveram vinhos mineiros da Casa Geraldo, de Andradas, premiados com ouro. O que começou como hipótese científica chegou ao reconhecimento mundial.
Murillo, porém, recusa o lugar de herói solitário. “É preciso todo mundo para fazer uma região vitícola nova”, afirma. Pesquisador, lavrador, produtor, enólogo, empresário, garrafa, rótulo, restaurante, hotel, turismo, poder público: tudo faz parte da cadeia. A dupla poda tem um nome central, mas é uma construção coletiva.
Essa consciência também orientou sua atuação institucional. Murillo foi presidente da Associação Nacional dos Produtores de Vinho de Inverno, a Anprovin, entre 2016 e 2023, e coordenou o grupo de trabalho para obtenção da Indicação de Procedência Vinhos de Inverno do Sul de Minas. Reconhecida em 2025 pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial, a IP tornou-se marco de proteção, reputação e identidade para uma nova tipologia da vitivinicultura brasileira.
Há ainda uma dimensão familiar e afetiva em sua história. O rótulo Gran Via 38, da Primeira Estrada, nasceu de uma memória. Em 1986, quando foi estudar na Espanha, Murillo se hospedou na Gran Via, em Madri, no número 38. Décadas depois, voltou ao endereço com o filho, Pedro Olavo. A lembrança virou vinho. A biografia virou garrafa. O tempo encontrou seu rótulo.
Murillo Regina é, portanto, mais do que o pesquisador que adaptou, validou e difundiu a dupla poda no Brasil. É um intérprete da paisagem mineira. Alguém que nasceu no café, escolheu a fruticultura, formou-se na Europa, retornou a Minas e compreendeu que o inverno guardava uma vocação ainda não revelada.
A dupla poda reeducou a videira. Mas, antes disso, Murillo educou o olhar. Mostrou que inovação verdadeira não nasce contra o território, mas da escuta profunda de suas condições. Mostrou que ciência pública pode transformar paisagens, economias e destinos. E provou que uma ideia, quando amadurece no tempo certo, pode sair da estação experimental, atravessar a garrafa e mudar a história de um lugar.
Em Minas, o vinho amadurece no inverno. Na vida de Murillo Regina, amadureceu também uma ideia luminosa: desenvolvimento acontece quando conhecimento, gente e território caminham juntos.