Vereador de MG é indiciado após vender doláres e entregar R$ 400 mil em espécie a pedido de Euclydes Pettersen, diz PF

O parlamentar do Vale do Jequitinhonha recebeu R$ 3 milhões e repassou parte ao deputado e ao presidente da Conafer
O deputado federal Euclydes Pettersen (Republicanos-MG) na tribuna da Câmara dos Deputados.
O deputado federal Euclydes Pettersen, o vereador do interior de Minas e outras 46 pessoas foram indiciadas pela Polícia Federal (PF) na última sexta-feira (10). Foto: Republicanos na Câmara/Divulgação

O vereador Marcelo de Oliveira Silva (PMN), de São Félix de Minas, no Vale do Jequitinhonha, vendeu dólares e entregou R$ 400 mil em dinheiro vivo a pedido do deputado federal licenciado Euclydes Pettersen (Republicanos-MG), segundo depoimento do próprio parlamentar municipal à Polícia Federal (PF). O vereador foi indiciado por lavagem de capitais.

“O ponto mais grave de sua declaração é afirmação de MARCELO que, a pedido do Deputado Federal EUCLYDES PETTERSEN, vendeu dólares e entregou R$ 400.000,00 em dinheiro vivo em um endereço indicado por EUCLYDES em Governador Valadares/MG”, diz trecho do relatório da PF ao qual O Fator teve acesso.

Como garantia da operação, o vereador recebeu um cheque, datado de 18 de março de 2023, da Confederação Nacional dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Familiares (Conafer), assinado por Carlos Roberto Lopes, presidente da entidade, e por Tiago Abraão Ferreira Lopes, vice-presidente e irmão do presidente.

O cheque nunca foi compensado. Ele e outros documentos foram entregues por Marcelo à Polícia Federal e integram o relatório final do inquérito, enviado na última sexta-feira (10) ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), relator do caso. A investigação foi conduzida no âmbito da Operação Sem Desconto.

Marcelo é apontado nos documentos da PF como um “duto de passagens de recursos” do esquema de lavagem de dinheiro ligado à fraude bilionária contra aposentados e pensionistas do INSS, que tem entre as participantes a Conafer e a Associação dos Aposentados do Brasil (AAB).

O relatório também afirma que o vereador atuou na intermediação do contato de membros da organização criminosa com assessores de Euclydes. O parlamentar, vale lembrar, também foi indiciado, mas por mais crimes: por organização criminosa, lavagem de capitais e corrupção passiva pela PF. Ele, contudo, nega as acusações.

R$ 3 milhões movimentados

Segundo a apuração dos agentes, o vereador mineiro movimentou cerca de R$ 3 milhões em transações com empresas de fachada usadas para ocultar a origem do dinheiro desviado dos descontos previdenciários.

Entre elas estão a Santos Consultoria, a Agropecuária PKST, a IBC Prudente, também identificada como Papelaria PKST, e a To Hire Cars, locadora usada para registrar carros de luxo, todas de Presidente Prudente, no interior de São Paulo, além da Impacto Serviço de Apoio Adm, da Cifrão Tecnologia e da Solution Serviços, todas de Brasília (DF).

Nessa quantia milionária, o vereador recebeu R$ 100 mil diretamente da Conafer em julho de 2023 e R$ 120 mil da AAB em agosto de 2024. Parte do dinheiro seguiu para dentro do próprio esquema por meio da triangulação.

Ele teria enviado R$ 105 mil para a Agropecuária e Mineração Lagoa Alta, empresa do presidente da Conafer, Carlos Roberto Ferreira Lopes localizada mesma cidade do vereador, e que conta com 3.200 habitantes, segundo o IBGE.

Outros R$ 408 mil, por meio de 25 transações, foram para a conta de Vinícius Ramos da Cruz, presidente do Instituto Terra e Trabalho (ITT), organização que também aparece na investigação por ter recebido e desviado emendas parlamentares.

Ramos da Cruz, inclusive, é cunhado do presidente da Conafer e padrinho de casamento de Marcelo. Esses laços de compadrio, inclusive, são usado pela PF para provar a relação de extrema confiança entre eles.

“Vereador de São Félix de Minas/MG, MARCELO DE OLIVEIRA atuou no escoamento de receitas ilícitas. Recebeu vultosos valores que somaram mais de R$ 3 milhões de empresas de fachada (como SANTOS CONSULTORIA, PAPELARIA PKST, TO HIRE CARS e IMPACTO), da CONAFER e da AAB, direcionando esses ativos em favor da AGROPECUÁRIA LAGOA ALTA de CARLOS ROBERTO do deputado EUCLYDES PETTERSEN”.

Euclydes Pettersen, o vereador Marcelo de Oliveira Silva e outras 46 pessoas, inclusive as que foram citadas nessa reportagem, foram indiciadas pela PF na última sexta-feira (10) no âmbito desse inquérito. Os documentos agora estão sob análise de Mendonça.

O que o vereador disse à PF

Ouvido pela PF, Marcelo de Oliveira Silva apresentou duas justificativas para o recebimento dos valores. A primeira foi o aluguel de um caminhão à Agropecuária Lagoa Alta, por R$ 50 mil mensais, a partir de outubro de 2023. A segunda foram empréstimos sucessivos ao presidente da Conafer, que teriam lhe causado um prejuízo de R$ 2 milhões.

“MARCELO afirma que é padrinho de casamento de VINÍCIUS RAMOS e que os milhões que transitaram em suas contas seriam referentes a duas origens lícitas: o aluguel de um caminhão (carreta) para a AGROPECUÁRIA LAGOA ALTA (empresa de CARLOS LOPES) a partir de outubro de 2023, no valor de R$ 50.000,00 mensais; e empréstimos sucessivos feitos a CARLOS, o que teria lhe gerado um prejuízo de R$ 2.000.000,00, tendo em vista os valores não recebidos”.

Os investigadores, contudo, rejeitaram a versão. Os registros bancários mostram que o vereador já recebia valores das mesmas empresas antes da data em que alega ter iniciado o suposto aluguel, e o volume total, que ultrapassa R$ 3 milhões, é descrito no relatório como desproporcional a um contrato informal de locação ou a empréstimos pessoais.

“MARCELO DE OLIVEIRA foi ouvido sobre os fatos e tentou justificar o recebimento de milhões de reais em sua conta. Contudo, suas declarações mostraram ainda mais o modus operandi da lavagem de dinheiro e o seu possível papel como operador de repasses físicos a políticos”, ressaltou a PF.

Outro lado

Procurado por O Fator na data do indiciamento, Euclydes disse não ter participação nos fatos apurados pela operação Operação Sem Desconto e acresentou que nunca indicou ninguém para cargo no INSS.

Ainda segundo o deputado federal, que está licenciado do mandato, o indiciamento é um ato unilateral da autoridade policial que encerra a investigação, mas não dá início a um processo judicial.

“Suas conclusões foram formadas sem contraditório e sem que ainda se tenha examinado uma única linha da defesa. Não há denúncia, não há ação penal, não há julgamento. Minha defesa se manifestará nos autos, onde a versão da investigação será confrontada com documentos. Sigo trabalhando no exercício do mandato”, afirmou.

A reportagem não conseguiu contato com o vereador Marcelo de Oliveira Silva. O espaço segue aberto.

Fransciny Ferreira é jornalista, com especialização no setor público e em gestão de imagem. Atua na cobertura política, com experiência em redações, assessoria de imprensa e marketing digital. Foi editora-chefe de O Tempo em Brasília, assessora da Presidência do Senado e liderou estratégias de PR no setor farmacêutico. Sugestões de pautas para: [email protected]

Lucas Ragazzi é jornalista investigativo com foco em política. Integrou o Núcleo de Jornalismo Investigativo da TV Globo e tem passagem pelo jornal O Tempo, onde cobriu o Congresso Nacional e comandou a coluna Minas na Esplanada, direto de Brasília, e pela Itatiaia. É autor do livro-reportagem “Brumadinho: a engenharia de um crime”.

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