A Vitrine do vazio: sobre a alma que tenta comprar o que só o afeto preenche

A recompensa não é aplauso. Ninguém entrega placa pra quem descobriu o ponto exato de dizer “chega”
Foto: Dreamstime / Ilustração

Começa pequeno, quase sem avisar. Um desejo bobo. Uma coisinha que promete tapar aquele vazio a incomodar que a gente nem sabe direito onde fica, mas sente. Depois outra. E outra. Quando a gente vê, a alma já virou depósito e o peito, vitrine. E o pior: a gente continua achando que a próxima aquisição vai, enfim, resolver.

Não tem nada de errado em querer as coisas. O problema começa quando a gente acredita, de verdade, que as coisas vão dar conta do que falta. Posse e identidade misturadas na mesma panela, aí mora a enganação mais antiga do mundo, mais velha que o dinheiro, mais esperta que qualquer vendedor. De repente você acorda numa madrugada qualquer, olha em volta, tem tudo o que um dia desejou, e sente um incômodo esquisito: virou funcionário das suas próprias conquistas. Cada troféu quer limpeza. Cada bem exige cuidado, seguro, atenção. Cada vitória alcançada cochicha no seu ouvido: prova de novo que você merece estar aqui. Prova mais uma vez. Não dorme não.

O excesso cobra um preço e não manda fatura. Vai descontando aos poucos, no sono, no humor, naquela sensação difusa de que algo está errado mesmo estando tudo certo. Paracelso já dizia que a dose faz o veneno, e a frase vale para quase tudo na vida. Dinheiro não adoece ninguém; o que adoece é o jeito que a gente se relaciona com ele, a dependência muda, o medo de abrir a mão. Cargo não pesa; o que pesa é o pavor de perder, é a identidade inteira pendurada numa placa na porta. Os sábios repetem a pergunta, e os apressados fingem que não ouviram: o que dentro de mim ainda grita por “mais” se “basta” já resolve? O que está tão errado no suficiente?

Quem junta coisa por medo do vazio descobre, meio tarde, que o vazio nunca esteve lá fora. Esteve aqui dentro o tempo todo, quietinho, esperando ser visto. E nada lá fora resolve o que está aqui. Carro zerado, aumento, saldo gordo, a viagem dos sonhos, o apartamento impecável, tudo isso ocupa, mas não preenche. Não é a mesma coisa. Ocupar é uma operação de espaço. Preencher é uma operação de sentido. A mobília ocupa a sala. Só o afeto preenche. Só o encontro preenche. Só o que é genuíno e não exige nota fiscal preenche. O resto é cenário.

Nos textos antigos, chamavam essa armadilha de Torre de Vãos. Você vai subindo, empilhando título, papel, certificado, conquista atrás de conquista, com a certeza de que o sentido da vida está lá no alto, no último andar, na vista panorâmica. Só que no topo o ar é rarefeito, o vento é gelado e a paisagem não responde nada. E a pergunta que você enterrou no térreo, antes mesmo do primeiro degrau, sobe junto com você, intacta, silenciosa, paciente: eu sou amado apesar do que eu sou? Alguém me suporta sem o brilho dos troféus? A criança que só queria colo e recebeu um troféu aprendeu cedo demais a trocar afeto por aplauso. Decorou a lição errada e passou a vida inteira tentando merecer o que nunca dependeu de merecimento: amor assim, sem condição, sem nota de corte, sem contrato de prestação de serviços afetivos.

Tem uma guerra silenciosa e constante dentro da gente. De um lado, a fome que não sossega, o desejo que nunca diz chega, mais, mais, mais, como se houvesse um buraco negro no centro do peito. Do outro, a cabeça que quer controle absoluto de tudo,calcula cada passo, antecipa cada erro, sofre antes da hora, planeja o incontrolável. Resultado: um cansaço que não tem explicação médica. Não é físico, embora pese nos ombros. É cansaço de existir, de sustentar personagem, de manter a vitrine impecável enquanto o estoque está vazio. A alma apanhando no meio do tiroteio, sem licença pra pedir um minuto de paz, uma folga, um silêncio.

Sair disso não exige largar tudo e ir morar no mato. Não se trata de abrir mão do que se construiu, de virar ermitão, de demonizar o mundo material. É sobre mudar a forma de se relacionar com o que se tem. Olhar pra coisa e conseguir dizer: isso aqui não me define. Isso aqui é só isso aqui. Possuir sem ser possuído. Habilidade rara, quase impossível de dominar por completo, mas não de todo inalcançável — como aprender a respirar embaixo d’água ou a manter o equilíbrio em terreno movediço.

Possuir sem ser possuído exige uma soberania que loja nenhuma vende, que currículo nenhum comprova. É reinar sobre si mesmo, e não sobre os outros. Olhar pro extrato do banco sem deixar que ele dite seu humor do dia. Olhar pro cargo sem entregar a ele as chaves da sua paz. Olhar pro espelho e reconhecer quem está ali, sem precisar de medalha nenhuma pendurada no peito, sem biografia anexa, sem currículo colado na testa. Só você e você. Pelado de narrativas.

As perguntas que soltam a gente são sempre chatas de fazer. Incomodam. Cutucam. Desarrumam. Que prova idiota eu ainda estou sustentando? Pra quem eu ainda estou me explicando? Que história eu continuo obedecendo só por medo do silêncio que viria depois? Onde dá pra trocar rigidez por critério hoje, agora, neste exato instante? Quem evita essas perguntas fica girando na roda, acumulando e acumulando, até o dia em que a roda quebra — e ela sempre quebra. Quem encara, mesmo sem resposta pronta, com a coragem de quem tateia no escuro, já pisou fora da gaiola. Já começou.

A recompensa não é aplauso. Ninguém entrega placa pra quem descobriu o ponto exato de dizer “chega”. Nenhuma rede social vai validar sua sobriedade de consumo. A recompensa é mais simples, e por isso mesmo mais rara, mais preciosa: apoiar a cabeça no travesseiro com a paz de quem não negociou a própria essência por bugiganga brilhante. É saber-se dono de si, e não colecionador de cacarecos de luxo que ficam todos aí, acumulando poeira e perdendo o valor, quando a cortina baixar e o espetáculo terminar. Porque termina. Sempre termina.

Maturidade não é ponto de chegada. Não tem placa, não tem linha de corte, não tem cerimônia de formatura. É um jeito de andar. É o passo, não o destino. Felicidade não gruda nas coisas. Não se anexa a objetos. É o silêncio que a gente aprende a escutar do lado de dentro enquanto, por um acaso breve e cheio de luz, ainda se está respirando. E enquanto se respira, ainda há tempo. Tempo de parar de subir a torre, descer os degraus devagar, um por um, sentindo o chão sob os pés, e encontrar lá embaixo, firme, à espera, aquilo que a gente nunca deveria ter largado: a própria respiração. A própria vida. O que sempre bastou.

Se é por aí, por que não começar agora?

Jorge Berg é desembargador do Tribunal Regional do Trabalho da 3ª Região, Conselheiro Benemérito do Clube Atlético Mineiro e Adido Consular Cultural de Luxemburgo em Minas Gerais.

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