Tenente-coronel reformado da PMMG vira réu no STF por agredir policiais e invadir Congresso no 8 de janeiro

Vídeos gravados pelo próprio militar e uma denúncia anônima levaram o aposentado da Zona da Mata mineira a virar réu
Antônio Carlos de Freitas aparece em vídeo
Antônio Carlos de Freitas aparece em vídeo exibindo bastão tomado de policial militar em frente ao Palácio do Planalto durante os ataques de 8 de janeiro de 2023. Foto: PF/Reprodução

Um tenente-coronel reformado da Polícia Militar de Minas Gerais (PMMG) e morador de Visconde do Rio Branco, na Zona da Mata, que entrou em confronto corporal com policiais, tomou à força um bastão operacional de um militar e invadiu o Congresso Nacional durante os ataques de 8 de janeiro de 2023 em Brasília virou réu no Supremo Tribunal Federal (STF).

A Primeira Turma do STF recebeu, por unanimidade, a denúncia contra Antônio Carlos de Freitas. O acórdão do julgamento, em que ele responde por associação criminosa com violência, abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado, dano qualificado ao patrimônio público e crime ambiental qualificado, foi publicado nesta quinta-feira (14), quando também foi instaurada a ação penal.

O caso começou com uma denúncia anônima registrada na plataforma do governo federal, em agosto de 2025. O denunciante relatou que Freitas havia participado dos atos, agredido policiais e subtraído equipamentos, e que havia gravações feitas pelo próprio militar nas redes sociais. A Polícia Federal (PF) apurou o caso e confirmou, em novembro de 2025, a veracidade das informações.

Segundo o relatório final da PF, o aposentado viajou de Minas Gerais para Brasília no início de janeiro de 2023 e, na tarde do dia 8, se dirigiu à Esplanada dos Ministérios. Conforme os autos, o investigado “participou ativamente dos atos de 8 de janeiro, entrou em conflito direto com policiais que atuavam no local” e foi alvejado por pelo menos duas vezes pela PMDF com bala de borracha.

Mas, mesmo assim, “ainda tomou de um militar um bastão operacional” e, em seguida, subiu a rampa lateral do Congresso Nacional. De lá, ele registrou várias imagens que foram anexadas ao processo. Em uma delas, usando óculos de proteção e máscara facial, fala que levou três tiros na perna e comemora que saiu com um bastão da PM na mão.

Em outra gravação, ele mostra pessoas na frente do Palácio do Planalto atirando pedras e paus em direção às forças de segurança, entoando gritos de “o Brasil é nosso”. Na ocasião, a PF alega que ele também incentivou os invasores, gritando: “Ninguém tem permissão para recuar, em cima”.

O material foi compartilhado em um grupo de WhatsApp. Uma perícia de comparação facial foi realizada pelo Setor Técnico-Científico da Superintendência Regional da PF no Distrito Federal para atestar, com o índice máximo da escala adotada pelo órgão, que a pessoa nas imagens é Freitas.

“A identificação ocorreu a partir de relato encaminhado à Polícia Federal, que comunicou a sua participação na tentativa de golpe, tendo atuado em confronto com as forças de segurança. Foram anexados ao expediente três arquivos de vídeo em que ele aparece em meio à multidão, de camisa amarela e boné amarelo, enrolado em uma bandeira do Brasil, registrando e comemorando a invasão e a depredação da sede dos Três Poderes”, diz trecho do relatório.

A versão do investigado

Convocado a prestar declarações em setembro de 2025, o tenente-coronel reformado admitiu ter estado em Brasília no dia 8 de janeiro e ter participado de passeata, mas negou confronto direto com os policiais. Disse que foi atingido por projétil enquanto socorria uma vítima e que o bastão exibido nas imagens pertencia a outro manifestante, que ele pediu emprestado apenas para filmar.

Afirmou ainda ter participado dos atos “apenas de curioso” e como “expectador”. A defesa dele também argumentou que as gravações foram enviadas por engano a um grupo de WhatsApp, quando Freitas pretendia mandá-las apenas para a esposa, e que ele as apagou assim que percebeu o erro. A advogada disse ainda que a divulgação do material seria inconstitucional, por violar o sigilo das comunicações.

A PF, contudo, não aceitou essa versão. No relatório final, o delegado classificou a narrativa como “absolutamente quimérica” e destacou que o mineiro foi alvejado por munição menos letal ao menos duas vezes pela PM do Distrito Federal e, ainda assim, prosseguiu nos atos.

A condição de policial militar reformado foi apontada ainda no texto como fator agravante. “É importante salientar que a reprovabilidade da conduta é muitíssimo acima da média de outros participantes dos eventos de 8 de janeiro de 2023. Como tal, era esperado um comportamento mais ordeiro, mais sereno e menos badernista”, registra o relatório.

A manobra da defesa no STF

A Procuradoria-Geral da República (PGR) ofereceu a denúncia em 29 de janeiro e o policial aposentado foi notificado pessoalmente em 12 de fevereiro, mas não apresentou resposta no prazo legal. Mesmo assim, às vésperas do julgamento, a defesa tentou retirar o caso de pauta, alegando “flagrante nulidade absoluta” por suposta violação ao direito de defesa.

O ministro Alexandre de Moraes indeferiu o pedido, classificando-o de “absolutamente impertinente”. Na decisão, o relator destacou que o próprio réu deixou o prazo transcorrer sem se manifestar e que não há nulidade sem prejuízo demonstrado, princípio consagrado no Código de Processo Penal e na jurisprudência do STF.

O voto de Moraes

Em julgamento no último mês, Moraes afirmou que a conduta do mineiro “revela-se gravíssima” e que há provas suficientes de sua participação ativa nos ataques de 8 de janeiro. O relator destacou que o caso tem conexão direta com investigações mais amplas em curso no STF sobre financiadores, instigadores e autoridades públicas envolvidas, incluindo parlamentares com foro privilegiado.

“Não existirá um Estado Democrático de Direito sem que haja Poderes de Estado, independentes e harmônicos entre si”, escreveu no voto, ao justificar a gravidade das imputações. O entendimento dele foi seguido por Cármen Lúcia, Cristiano Zanin e Flávio Dino. Agora, o colegiado irá decidir se ele vai ser condenado.

Fransciny Ferreira é jornalista, com especialização no setor público e em gestão de imagem. Atua na cobertura política, com experiência em redações, assessoria de imprensa e marketing digital. Foi editora-chefe de O Tempo em Brasília, assessora da Presidência do Senado e liderou estratégias de PR no setor farmacêutico. Sugestões de pautas para: [email protected]

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