Incursionei-me por três dias em Vila Rica. Diferentemente de passear – ofício de turistas distraídos que apenas deslocam o corpo e colecionam imagens para exibicionismo vazio nas redes – incursionar, em qualquer localidade do uni-verso – união na diversidade – é ser deslocado por dentro. E Vila Rica desloca. Não pede licença. Entra pelos olhos, pelo fôlego curto, pelos becos de pedra onde ainda há o respiro da Inconfidência e as sombras densas do barroco. Esconde, por trás daquelas janelas coloniais, paixões miúdas. Janelas que quiçá teimam em representar os próprios viventes, guardando desejos encobertos, pequenas conspirações da alma e uma ansiedade de liberdade que não se extinguiu com os séculos.
Vila Rica é a inspiração que guarda o ouro da alma. Mas a cidade também atende por Ouro Preto. E quando assume esse outro nome, parece perguntar, no abismo da Curva dos Ventos, quais serão os seus próximos teres. Porque ouro foi o que ela teve. Depois, pedra. O esquecimento veio depois. Tombamento, mais tarde. Agora, o que lhe resta ter, e o que lhe custa, em vidas, a falta do ser?
Estar ali é constatar o drama humano impregnado nas pedras e lembrar a pequenez de nossas aflições modernas diante dos séculos. Incursionar é movimentar-se para dentro de si e da localidade, deixando a consciência ser invadida pelo sentir intenso e permitindo que o sentimento flua levemente, sem defesa.
O outono dava às pedras uma luz branda de memória de ouro. Foi dentro desse quadro que me foi dita a dura estatística: alta incidência de suicídio entre os jovens na poética Curva dos Ventos. Um abismo agora pontuado por placas metálicas de advertência – a tentativa desesperada do sistema de segurar a vida por um letreiro, quando o afeto já despencou.
Quando questionei um morador, a resposta veio seca: “Aqui sempre vivemos cercados de boas relações humanas, de bons colégios, boas assistências médicas. Mas nada disso está bastando”. Ouro Preto tem escolas, universidade, patrimônio e pedra lavrada. Mas ter – todos sabem – não é habitar. Não é ser, não. A cidade se olha no espelho dos séculos, vê Vila Rica e se assusta, questionando o que falta se tudo se tem.
Foi então que conheci o Professor Adriano. Simpatia rara, presença natural e com uma ousadia séria, inspirado em Harvard, implantou nos bancos do Instituto Federal uma disciplina chamada Felicidade. Chamo-o de Mestre das Vidas por lembrar Rubem Alves, para quem o mestre nasce da exuberância e se torna um “Pastor de Alegrias”. Ensinar Felicidade num mundo treinado para desempenho é quase uma insubordinação. É dizer aos jovens que existir não pode ser apenas cumprir metas e sorrir para fotografias; é lembrar que há uma vida por baixo da vida aparente.
Noutro momento, a pergunta do morador retornou: “Por que se utilizar de anabolizantes, se as ladeiras fazem este papel?”. A frase ficou comigo. Subia as ladeiras e o corpo pedia fôlego, enquanto a pedra explicava tudo com o esforço e a gravidade como mestra. A cidade exige do corpo aquilo que também exige da alma: presença. Humildade. E uma certa resistência que não se explica.
Na ladeira do Pilar, um cheiro de gordura de fogão a lenha me seguiu por três quadras. Mas o mundo lá fora, o de 2026, não quer ladeiras. Quer planícies de código, portas sem maçaneta e bancos sem rosto. Quer que um homem de noventa anos peça ao neto para desbloquear a própria aposentadoria diante de uma tela que não fala, não olha, não espera e não cede. Quem construiu este país com as mãos tornou-se estrangeiro dentro da casa que ergueu. Chamam isso de modernidade. Eu chamo de portão fechado — tem um letreiro luminoso piscando “bem-vindo”, mas a maçaneta é falsa. E chamam isso de progresso.
As janelas coloniais me olhavam. Quantos idosos, ali dentro, não estariam diante de uma tela que lhes nega acesso com silenciosa indiferença, dizendo apenas “erro, tente novamente”? O velho tenta, chama o filho ou o vizinho e sofre uma humilhação que ninguém contabiliza, por precisar de intérprete para acessar o próprio direito.
A Curva dos Ventos não engole apenas quem chega ao extremo da encosta e da desesperança vivencial. Também varre, devagar, o velho para a invisibilidade da sala. Um some de uma vez. O outro vai sumindo — em parcelas que ninguém assina. Ouro Preto se pergunta sobre seus próximos teres. Vila Rica, não. Vila Rica é.
O Professor Adriano pareceu recusar a mediação fria que substitui o encontro. Reinstituir o rosto, a pausa e a escuta é o antídoto. As ladeiras fazem este papel. A Felicidade também. Donas “Emílias”, “Conceições”, “Marias” e tantas outras existem em janelas e becos com a mão calejada diante de uma tela muda. Faltou ao mundo a delicadeza de não as expulsar pela porta digital.
Deixei Vila Rica com o outono avançando nas serras e ouvindo, no vento, a pergunta do morador. Eu já sabia que a indagação não era sobre músculos, mas sobre a alma. Por que buscar atalhos artificiais quando ladeiras nos devolvem ao corpo e por que preferir o portal ao rosto?
Deixar velhos para trás não é evolução. Talvez seja apenas egoísmo com senha forte. E Vila Rica, que não responde depressa, continua lá: com suas pedras, suas janelas, seus mortos, seus jovens, seus velhos, suas ladeiras e sua terrível misericórdia.
O vento ainda pergunta. E Vila Rica se escuta. Se sobe, quando pode. Mas o que ela faz, sobretudo, é se incursionar — se é que isso se diz assim. E depois fica. Fica quieta.
Vila Rica, outono de 2026.