O segredo do talvez

Sabedoria silenciosa além da certeza fácil
Cão observa paisagem
A vida entrega as coisas aos poucos, fora de ordem, e muitas vezes o que parecia central vira lateral, e o que era detalhe ocupa o centro sem pedir licença. Foto: Pixabay

Nos campos distantes da China morava um velho que tinha um cavalo. Só um. Um dia o cavalo fugiu e os vizinhos vieram em bando: que desgraça, que tragédia, como você vai arar a terra agora? O velho olhou para o pasto vazio e disse: talvez.

O cavalo voltou dias depois, trazendo com ele mais uns seis ou sete cavalos selvagens. Os vizinhos voltaram em bando: que sorte, que fortuna, você está rico! O velho olhou para o pasto cheio e disse: talvez.

Aí o filho dele foi domar um dos cavalos novos, caiu e quebrou a perna. Os vizinhos fizeram o de sempre: que tragédia, seu único filho aleijado, quem vai cuidar de você na velhice? O velho olhou para o filho de cama e disse: talvez.

Veio a guerra, o exército passou recrutando os jovens da aldeia. O filho do velho, com a perna quebrada, ficou. Os vizinhos perderam seus filhos. Foram até ele e disseram: que bênção, o seu foi poupado. Ele olhou para o chão e disse: talvez.

Essa história eu ouvi há muitos anos, contada sem pretensão de filosofia, quase como quem conta um causo de roça. Achei bonita, guardei, mas não entendi nada. Fui entender muito depois, numa fase em que tudo o que eu achava que era certo começou a desmoronar. Um amor acabou e eu cravei: fracasso. Um trabalho que eu queria muito não veio e eu sentenciei: não sou bom o bastante.

Uma pessoa querida sumiu da minha vida e eu decretei abandono. Só que aquele amor que acabou me deixou livre para conhecer alguém que eu nem sabia que existia. O trabalho que não veio me obrigou a procurar outra coisa, e a outra coisa era o que eu realmente queria fazer. A pessoa que sumiu deixou um vazio que, com o tempo, foi ocupado por gente que tinha mais a ver comigo.

Isso não é autoajuda. É só o que acontece quando a gente para de bater o martelo antes da hora. E eu não parava. Continuo não parando. Outro dia mesmo me peguei sentenciando uma situação que mal tinha começado, e uma pessoa amiga me olhou e disse: você já fechou o livro e a história ainda está na página três. Os vizinhos do velho chinês somos nós, todo santo dia, com pressa de preencher o campo do veredito antes do fim do expediente.

Outro dia li uma reportagem sobre Robert Oppenheimer. Era uma matéria que tentava explicar o físico por meio das suas manias, como se uma vida se revelasse pelos seus cantos mais fotografáveis. Lia o Bhagavad Gita em sânscrito, recitava John Donne, bebia martinis demais, esquecia de comer, dormia três horas por noite. “Crenças bizarras”, dizia o título. “Hábitos excêntricos.” Fiquei um tempo com aquilo na cabeça, não por causa dos adjetivos, mas por causa de uma cena que a reportagem mencionava de passagem. A cena do teste da primeira bomba atômica, no deserto de Alamogordo.

O cogumelo subiu diante de uma dezena de cientistas que trabalharam naquilo durante anos. Uns aplaudiram. Outros choraram. E Oppenheimer, que estudava sânscrito havia décadas, disse uma frase que aprendeu no Gita: “Eu me tornei a morte, o destruidor de mundos.” Não era uma legenda para a posteridade. Dizem que ele sussurrou aquilo, quase para si mesmo. Mas a frase ficou, e ficou para sempre. Porque era uma sentença. Porque ele mesmo se definiu ali, numa tarde de julho, diante de uma luz que ninguém nunca tinha visto.

Passei uma manhã pensando nisso. Não na frase em si, que é bela e terrível, mas no gesto de escolher justo uma frase que o definia. Ele podia ter dito qualquer coisa. Podia ter ficado em silêncio. Mas escolheu uma sentença que era também um veredito. E carregou aquilo até o fim. Anos depois, quando já era uma figura pública controversa, perseguida pelo governo, humilhada em audiências, alguém perguntou se ele se arrependia. Ele não respondeu sim nem não. Disse apenas que os físicos tinham conhecido o pecado. A palavra é forte. Não foi “erro”, não foi “equívoco”. Foi “pecado”. Uma palavra que fecha a porta, que não admite recurso.

Não sei se ele morreu sem se perdoar. Dizem que sim, mas ninguém pode garantir o que se passa no fundo de outra pessoa. O que sei é que ele passou a vida inteira amarrado a um julgamento que ele mesmo emitiu. E que esse julgamento talvez fosse mais pesado do que a própria bomba.

O velho chinês, que nunca leu o Gita, olhou uma vida inteira para o pasto vazio, para o pasto cheio, para o filho na cama, para o filho salvo da guerra, e sempre disse a mesma coisa. Talvez. Não era sabedoria de livro. Era uma espécie de confiança de que as coisas ainda não tinham acabado de acontecer. Uma desconfiança íntima de que o sentido não se entrega na primeira página, nem na segunda, nem na última, porque talvez não exista última página.

A gente não sabe esperar. Eu não sei. Você provavelmente também não. A gente quer saber agora se valeu a pena, se foi bom, se somos capazes, se fomos justos ou injustos. E a vida não opera nesse regime. A vida entrega as coisas aos poucos, fora de ordem, e muitas vezes o que parecia central vira lateral, e o que era detalhe ocupa o centro sem pedir licença. O filho quebrou a perna antes de a guerra chegar. O cogumelo subiu antes de Oppenheimer ter tempo de escolher outra frase. A ordem das coisas nunca é a que a gente imagina.

Da próxima vez que um cavalo sumir ou um cavalo voltar ou você esquecer algo em algum lugar e alguém levar sem te devolver, pare um pouco. Olhe para o pasto. E experimente não dar nome. Não resolve nada, eu sei. Mas ajuda a não atropelar a história antes de ela chegar ao fim. Se é que existe fim. O tempo, enquanto isso, vai fazendo o que sempre fez.

Jorge Berg é desembargador do Tribunal Regional do Trabalho da 3ª Região, Conselheiro Benemérito do Clube Atlético Mineiro e Adido Consular Cultural de Luxemburgo em Minas Gerais.

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