Em minha última coluna, ao escrever sobre coragem, apresentei a etimologia da palavra “enfrentar”, que tem origem no latim frons (testa, rosto ou a parte da frente) e significa colocar-se face a face. Recebi uma mensagem de uma amiga que me disse ter ficado especialmente tocada por esse trecho do texto. Alguns dias antes, fiquei fascinada por outras palavras ao descobrir que as favoritas de Guimarães Rosa eram “alegria”, “alma”, “primavera”, “querência”, “floresta”, “sota-vento”, “dar”, “rutilar”, “saudade” e “vaga-lume”. A lista é apresentada na belíssima biografia do escritor de Leonencio Nossa.
Parei para pensar quais eram as minhas favoritas e aqui compartilho algumas: dengo, biruta, chamego, suculento e estopim. Talvez haja outras. Nunca fiz um exercício muito profundo sobre as palavras de que mais gosto, apesar de sempre ter sido muito encantada pelo bom uso que o homem pode dar a elas em poesias, discursos, contos e toda espécie de história.
Mas a reflexão que me move aqui é pensar no que significa pertencer a uma espécie que deu nome ao que sente. Alguém, em algum momento, precisou de uma palavra para o aperto de sentir falta, e então nós herdamos “saudade”, que vem do latim solitas, solidão. Outra etimologia que me comove é a da palavra “emoção”, que vem de emovere, mover para fora. Emocionar-se é ser tirado do lugar.
Penso nisso agora que convivemos com máquinas que também escrevem. Em uma breve explicação sobre como modelos generativos como o ChatGPT funcionam, meu marido me explica que “a inteligência artificial prevê o token mais provável”. Ele segue dizendo que um token pode ser uma palavra, parte de uma palavra ou até um sinal de pontuação. Bom, parece que ela faz isso bem. Mas ela escreve “saudade” sem nunca ter esperado ninguém, porque a máquina escolhe a palavra mais provável, e nós escolhemos a que dói, a que alegra, a que lembra alguém…
Talvez por isso minha amiga tenha se emocionado com a etimologia de “enfrentar”. Por trás daquela palavra havia gente. Pessoas que, séculos atrás, ficaram cara a cara com o que temiam e precisaram contar. E, sim, a máquina pode repetir essa história, mas quem a viveu fomos nós.
Guimarães Rosa tinha suas dez palavras favoritas, eu tenho as minhas, você provavelmente tem as suas, mas nenhum algoritmo tem. E, enquanto for assim, o que é humano vai continuar fazendo o que a palavra sempre fez: emocionar, no sentido mais antigo do termo, mover alguém para fora de si.