Cem anos de consumo: crônica de uma solidão anunciada

Nessa confluência inesperada, o monge budista e o escritor colombiano se dão as mãos
Foto: Agência Brasil

Sussurram os mestres do Oriente, que a raiz de todo sofrimento se enlaça nos galhos do apego, nessa ânsia febril de possuir o que é, por natureza, impermanente. No longo e sinuoso exercício de decifrar a nós mesmos, haveria verdade mais límpida e, ao mesmo tempo, mais cortante sobre a condição humana?

Ao nosso redor, os oráculos da economia global desenham horizontes povoados por velhos e novos espectros: “recessão”, “austeridade”, “juros ascendentes”. São palavras que se somam ao ruído incessante das guerras e parecem nos desviar de nossa vocação mais sagrada: a de sermos seres em aprimoramento, em plena expansão de consciência.

Contudo, sejamos brutalmente honestos: esta crise não é a primeira e, certamente, não será a última. Por que, então, insistimos em buscar receitas novas para um mal tão antigo? Talvez a resposta seja simples: o labirinto foi assustadoramente bem projetado.

Vazio existencial

A cada instante, somos alvejados por uma artilharia de desejos que, em essência, nem são nossos. Das telas que deveriam nutrir o imaginário de nossas crianças àquelas que nos prometem o mundo, a mensagem é uma só, um sussurro constante: a felicidade genuína reside no próximo produto, na próxima aquisição? Uma alegria fugaz, comprada a prazo, para preencher um vazio que, paradoxalmente, se alarga a cada nova tentativa de preenchê-lo.

É neste exato ponto de saturação, quando a alma se farta, que a filosofia nos resgata. É aqui que precisamos parar e, como Sócrates na antiga Atenas, começar a perguntar. Não aos outros, mas ao espelho: o que buscamos, de fato, quando compramos o que não nos é necessário? Que silêncio interior tentamos abafar com o barulho de uma nova posse? Qual é a verdadeira geometria da nossa alma e por que insistimos em preenchê-la com os objetos efêmeros do mundo, se ela anseia pela imensidão do Ser?

Esta caçada desenfreada pelo ter nos aprisiona em palácios que jamais habitamos, em guarda-roupas que nos sufocam; uma acumulação que se torna o espelho de nossa própria desordem interna.

Andar com fé eu vou

Negar essa lógica consumista não é um convite à inércia ou à resignação. Pelo contrário, é o ato mais radical de lucidez. É compreender, enfim, que a régua do sucesso material não passa de uma miragem e que o consumo, como único horizonte, é um abismo, uma promessa de eterno sofrimento disfarçada de satisfação momentânea.

A vida, em sua generosidade, me concedeu o privilégio de caminhar ao lado de quem já caminhou muito. Pessoas cujos anos curvaram os ombros, mas aguçaram o olhar. E em suas vozes, sem uma única exceção, ressoa a mesma melodia. Se pudessem revisitar as partituras de suas vidas, não pediriam por mais posses ou fortunas. O pedido, ainda que sussurrado, seria invariavelmente o mesmo: mais tempo. Mais tempo dedicado ao afeto, ao encontro que cura, à risada compartilhada; à felicidade que brota da convivência, e não da aquisição.

Em todos os meus anos como voluntário, jamais ouvi de um paciente terminal que a ausência de um bem material lhe trazia dor. Nunca escutei que a compra de um último objeto poderia, enfim, lhes trazer a paz. O que isso nos diz sobre as “necessidades” que defendemos com tanto ardor em nosso dia a dia? Por que nos é tão difícil impor limites a nós mesmos, sabendo que a nossa sobra poderia ser a tábua de salvação para outro ser, aqui mesmo ou do outro lado do mundo?

Encerro com um convite

Não, não há utopia neste raciocínio. O que há é um chamado urgente à consciência do “todo” indissolúvel do qual fazemos parte. A certeza de que estamos umbilicalmente ligados pelo compromisso de garantir ao nosso semelhante o essencial: o pão, o teto, a saúde, a educação. O solo fértil para que cada um possa, então, florescer e cultivar seu próprio jardim.

Nesta travessia, vozes como a de Dom Hélder Câmara ecoam, lembrando que “Feliz de quem atravessa a vida inteira tendo mil razões para viver“. E é Gabriel García Márquez, o mestre que pintou com palavras a solidão e o assombro da nossa América Latina, quem nos oferece um mapa para encontrar essas razões. Ele nos ensina que é preciso abrir os olhos e perceber que as coisas boas estão dentro de nós, onde os sentimentos não precisam de motivos, nem os desejos de razão. O importante é aprender a duração de cada momento, pois a vida está nos olhos de quem sabe ver.

Nessa confluência inesperada, o monge budista e o escritor colombiano se dão as mãos. Ambos nos apontam a mesma e única direção: para dentro.

Que este seja, então, o nosso convite. Menos um chamado à luta e mais um pacto de lucidez. Uma união de consciências que escolhem, deliberadamente, a dignidade do Ser sobre o domínio do Ter. Uma revolução silenciosa que começa com a mais simples e, ainda assim, a mais profunda das perguntas: ao final de tudo, o que terá realmente importado?

Jorge Berg é desembargador do Tribunal Regional do Trabalho da 3ª Região, Conselheiro Benemérito do Clube Atlético Mineiro e Adido Consular Cultural de Luxemburgo em Minas Gerais.

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