A Polícia Federal (PF) suspeita que a venda de uma fazenda em Juruaia, no Sul de Minas Gerais, foi utilizada como meio de pagamento de propina de Fabiano Zettel, cunhado do banqueiro Daniel Vorcaro, ao então diretor de fiscalização do Banco Central (BC), Paulo César Neves de Souza.
O imóvel, de 21,78 hectares, foi negociado em fevereiro de 2021 por R$ 3 milhões com a Pipe Participações, empresa controlada por Zettel. Os três são alvos da Operação Compliance Zero. A informação foi revelada pelo jornal Valor Econômico e confirmada por O Fator.
De acordo com as investigações, a transação teria servido para disfarçar repasses a Paulo César, que, à época, ocupava um dos cargos mais estratégicos do BC. Apesar da venda formal, a PF suspeita que o ex-diretor continuou usufruindo do imóvel mineiro, o que reforça a possibilidade de o negócio ter sido montado apenas para legitimar o pagamento indevido.
Documentos obtidos pelo Valor Econômico mostram que Souza e Zettel também mantinham vínculos em outra empresa, a Noah Empreendimentos e Participações, que tem entre seus sócios o irmão do ex-diretor do BC, Luís Roberto Souza, e a própria Pipe Participações. O capital social da Noah é de R$ 3,1 milhões, praticamente o mesmo valor envolvido na negociação da fazenda, um dado que, segundo investigadores, indica triangulação dos recursos.
Paulo César é investigado por supostamente atuar como consultor informal de Vorcaro dentro do Banco Central, junto com o ex-chefe do Departamento de Supervisão Bancária, Belline Santana. O inquérito aponta que ambos forneciam informações internas e orientações técnicas em troca de vantagens financeiras.
As suspeitas se intensificaram após a descoberta de que o ex-diretor do Banco Central elaborou um documento usado como álibi para a libertação de Vorcaro, preso em uma fase anterior da operação. No texto, ele registrava um encontro oficial com o banqueiro para discutir a venda do Banco Master a investidores estrangeiros — justificativa que a PF considera forjada.
Nessa quinta-feira (5), O Fator mostrou outra conversa de Vorcaro com o diretor do Banco Central sobre um empreendimento em Belo Horizonte.
Além da transação envolvendo a fazenda mineira, os investigadores identificaram outros benefícios recebidos pelo ex-diretor, entre eles uma viagem paga a Orlando, nos Estados Unidos, com ingressos para os parques da Disney e da Universal.
Paulo César não foi preso, mas é monitorado por tornozeleira eletrônica e está proibido de acessar as instalações do Banco Central. Belline Santana também é alvo das mesmas medidas.
A fase mais recente da operação teve como principal base Belo Horizonte, onde estão concentrados os ativos e empresas do grupo financeiro ligado a Vorcaro. Além de Fabiano Zettel, também foram presos Marilson Silva, policial federal aposentado, e Luiz Phillipi Mourão, conhecido como “Sicário”, suspeito de integrar um núcleo responsável por monitorar e intimidar pessoas que pudessem comprometer os negócios do banqueiro.