Às vésperas do lançamento do livro “Juscelino: uma crítica ao desenvolvimentismo”, o advogado e vice-presidente do Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG), Antônio Claret Jr., levou uma “bronca” do ex-governador Eduardo Azeredo (PSDB), que telefonou para contestar as teses da obra e defender o legado de Juscelino Kubitschek.
Segundo Claret, a conversa ocorreu em tom ameno e respeitoso, mas evidenciou a divergência sobre a interpretação de um dos períodos mais celebrados da história brasileira.
Escrita em parceria com o jornalista Lucas Berlanza, a obra propõe uma revisão crítica do governo JK, questionando a narrativa consagrada dos “50 anos em 5” e apontando que o modelo desenvolvimentista teria deixado como herança desequilíbrios fiscais, inflação persistente e maior dependência da intervenção estatal. O lançamento ocorre na próxima quarta-feira (17), às 19h, no Shopping Diamond Mall, em Belo Horizonte.
A leitura, no entanto, é frontalmente contestada por Azeredo. O ex-governador afirma que o livro “procura imputar a Juscelino males fiscais atuais sem contextualizar o Brasil e o mundo dos anos 1950” e sustenta que “a inflação é um fenômeno histórico recorrente, não um produto exclusivo daquele governo”.
Para Azeredo, o desenvolvimentismo foi uma resposta necessária a um país com carências estruturais. “Tínhamos falta de energia, de estradas, de empregos e alimentos. A industrialização exigiu investimento estatal e atração de empresas com financiamento público”, argumenta o ex-governador.
Azeredo também rebate a crítica ao endividamento, afirmando que o fenômeno é anterior a JK e remonta à formação econômica do país. “O endividamento público se inicia ainda no período imperial, com financiamentos externos para infraestrutura e guerras. Não se pode omitir nossa origem colonial”, diz.
Na avaliação do ex-governador, a intervenção estatal foi decisiva para viabilizar projetos de longo prazo que não seriam assumidos pela iniciativa privada. “Sem essa participação, países de grande extensão e população, como o Brasil, permaneceriam atrasados.”
O posicionamento também resgata a dimensão política do período. Azeredo afirma que Juscelino “criou as bases de um país moderno, democrático e mais justo” e que o Plano de Metas, concebido por Lucas Lopes, foi “um planejamento público exequível, distante tanto do populismo quanto dos modelos centralizadores”. Ele acrescenta que “não é verdade que JK tenha atrasado a economia de mercado” e classifica o ex-presidente como “o maior estadista brasileiro”.
A defesa do legado de JK também dialoga com a trajetória familiar do ex-governador: seu pai, o ex-deputado Renato Azeredo, foi subchefe da Casa Civil da Presidência da República durante o governo Juscelino Kubitschek.
O livro de Claret e Berlanza será lançado no próximo dia 17 de junho, na livraria Leitura do Diamond Mall, em Belo Horizonte. A obra revisita decisões centrais do período, como o já citado Plano de Metas e a construção de Brasília, e resgata o embate intelectual entre o pensamento desenvolvimentista e as críticas liberais de economistas como Eugênio Gudin e Roberto Campos.
Na entrevista a seguir, Antônio Claret Jr. detalha os principais argumentos do livro, comenta as reações iniciais — incluindo a de Azeredo — e discute o que considera mitos ainda presentes no imaginário brasileiro sobre Juscelino Kubitschek.
Dados do lançamento:
17/06 – Quarta-feira
19h
Livraria Leitura do Diamond Mall
Av. Olegário Maciel, 1600, 3º piso
Leia a entrevista na íntegra:
- No livro, vocês falam em “desconstruir” o mito de Juscelino. Na sua avaliação, qual é o principal mito em torno de JK que ainda domina o imaginário do brasileiro comum? e que fato concreto melhor desmonta essa imagem?
O principal mito é o de que JK teria promovido um desenvolvimento se forma eficiente. O fato que melhor desmonta essa imagem é que seu governo deixou como herança inflação elevada, deterioração fiscal e um modelo de crescimento dependente de gasto público, subsídios e endividamento.
- A escola, a universidade e a mídia, em geral, apresentam o governo JK como um período de otimismo e progresso. Você acha que há um “consenso indulgente” sobre Juscelino? Onde ele mais distorce a realidade do período?
Sim. Costuma-se enfatizar o otimismo, Brasília e a industrialização, enquanto se minimizam os desequilíbrios econômicos criados no período e o fortalecimento de um Estado cada vez mais intervencionista.
- O Plano de Metas é frequentemente lembrado como sinônimo de crescimento e modernização. Que “preço escondido” o país pagou por esse projeto em termos de inflação, dívida e desequilíbrio fiscal?
O preço foi a combinação de expansão dos gastos públicos, inflação persistente, aumento do endividamento e fragilização das contas públicas, problemas que ajudaram a moldar dificuldades econômicas das décadas seguintes.
- Há quem diga que o custo foi alto, mas “valeu a pena” pela industrialização e pelas obras de infraestrutura. Você discorda dessa ideia? Qual seria o principal argumento para mostrar que havia alternativas menos danosas?
A industrialização poderia ter ocorrido de forma mais sustentável. O erro foi acreditar que crescimento dependia de forte intervenção estatal, quando reformas pró-mercado, estabilidade monetária e maior abertura econômica poderiam gerar progresso com menos distorções.
- Seu livro é classificado como uma crítica liberal ao desenvolvimentismo. Qual é o erro da visão que coloca o Estado como motor do crescimento no governo JK?
Ela confunde desenvolvimento com gasto público. O crescimento sustentável nasce da produtividade, da segurança jurídica e do investimento privado, não da capacidade do governo de escolher setores vencedores.
- Economistas já alertavam para riscos de inflação crônica e desajuste fiscal naquele contexto de JK. Em que momento concreto da política econômica de Juscelino essas advertências poderiam ter sido levadas a sério e não foram?
Quando o governo insistiu em expandir o Plano de Metas e financiar grandes projetos por meio de emissão monetária, crédito subsidiado e déficits, ignorando advertências de economistas como Eugênio Gudin sobre inflação e desequilíbrio fiscal.
- Brasília é tratada por muitos como a grande “obra‑símbolo” de JK. Se tivesse de explicar a um leitor leigo, em poucos pontos, por que a construção da nova capital foi, na sua visão, um erro de prioridades, o que destacaria?
Porque consumiu enormes recursos públicos num país que ainda carecia de infraestrutura básica, saneamento, educação e equilíbrio fiscal. Foi uma obra monumental realizada em um momento de escassez.
- Vocês afirmam que Brasília criou um enclave político distante das pressões populares. Que efeitos práticos esse desenho institucional tem até hoje, na forma como o poder se organiza e se relaciona com o restante do país?
A transferência da capital reforçou a concentração do poder político em um ambiente mais isolado da dinâmica econômica e social do país, ampliando a distância entre governantes e governados.
- O livro aponta que o modelo de JK fortaleceu o corporativismo e o clientelismo. Que exemplo concreto daquele período ajuda a mostrar como se consolidou essa relação promíscua entre Estado, grupos econômicos e interesses organizados?
Ao ampliar a dependência de setores econômicos em relação a subsídios, incentivos, proteção tarifária e decisões governamentais, consolidou uma lógica em que o sucesso empresarial muitas vezes dependia mais da proximidade com o Estado do que da competição de mercado.
- Quando você olha para o debate atual, em que ideias desenvolvimentistas voltam a aparecer no discurso de diferentes governos, qual é a principal lição do governo Juscelino que a sociedade brasileira ainda não aprendeu, e que deveria estar no centro da discussão pública hoje?
Que crescimento acelerado financiado por gasto público, endividamento e intervenção estatal pode gerar ganhos imediatos, mas costuma produzir custos duradouros. Não existe atalho para o desenvolvimento: estabilidade, responsabilidade fiscal e liberdade econômica continuam sendo fundamentais.