Entre palcos globais, controle público e silêncios nacionais: o que o Lollapalooza revela sobre o Brasil que a gente escolhe ver

Multidão assiste a show no Lollapalooza
Lollapalooza nunca utilizou recursos da Lei Rouanet, e desde 2016, ficou ainda mais claro que nem poderia. Foto: Divulgação

Festivais de música foram e são mais do que entretenimento, são termômetros culturais e políticos de suas épocas, como nos mostra a história. O Lollapalooza é mais um exemplo desse fenômeno e, no Brasil, sua trajetória ajuda a explicar tanto o vigor quanto as contradições da nossa vida cultural e social.

Criado em 1991 por Perry Farrell, vocalista do Jane’s Addiction, o festival nasceu como uma turnê itinerante que misturava rock alternativo, rap, performances artísticas e ativismo social. Desde o início, a proposta foi romper fronteiras entre gêneros e linguagens, ajudando a consolidar a diversidade e a cultura alternativa dos anos 1990. Ao desembarcar no Brasil em 2012, já como um evento consolidado, encontrou terreno fértil: um país jovem, plural e com vida musical pulsante.

Em solo brasileiro, o Lollapalooza rapidamente se transformou em vitrine global para artistas locais. Bandas independentes passaram a dividir line-ups com nomes internacionais, criando uma ponte simbólica entre o a cultura local e o que circula no mundo, dando voz e visibilidade a artistas que antes orbitavam nichos.

Mas por mais importante e cativante que seja, nenhum grande festival é responsável, sozinho, pela diversidade cultural de um país continental como o Brasil. A base cultural brasileira está espalhada em centenas de festivais menores, muitas vezes ignorados pelo debate público. Eventos como Bananada, Coala Festival, Coolritiba, DoSol, Festival de Parintins, Planeta Atlântida, Psicodália, Vesperata de Diamantina e inúmeros outros são fundamentais para a formação de artistas e públicos. São nesses espaços que a música regional, experimental e independente encontra eco, longe dos grandes patrocinadores, mas perto da identidade cultural e social brasileira.

Outro mito recorrente, frequentemente alimentado por desinformação, diz respeito ao financiamento desses eventos. No caso específico, o Lollapalooza nunca utilizou recursos da Lei Rouanet, e desde 2016, ficou ainda mais claro que nem poderia.

Naquele ano, o Tribunal de Contas da União determinou que projetos com alto potencial lucrativo e capacidade de atrair investimento privado não deveriam receber incentivos fiscais via lei de incentivo à cultura. A decisão veio após questionamentos envolvendo o Rock in Rio, que havia captado milhões por meio do mecanismo de renúncia fiscal, gasto tributário que os Auditores Fiscais cuidadosamente acompanham com o olhar de justiça e cidadania fiscal. Para o tribunal, apoiar eventos altamente lucrativos representava uma distorção de prioridades no uso de recursos públicos, o que merece ser recordado.

Esse tipo de decisão não surge no vazio. Ela é resultado direto da atuação de agentes públicos de controle que, muitas vezes longe dos holofotes, são essenciais para o funcionamento do Estado. Auditores dos Tribunais de Contas e Auditores Fiscais exercem papel estratégico ao fiscalizar a aplicação dos recursos públicos, garantindo que o dinheiro do contribuinte seja utilizado com eficiência, legalidade e interesse social.

Os Auditores Fiscais são peças-chave na engrenagem do país. Sua atuação começa muito antes da arrecadação, passa pela participação na construção do orçamento público com a previsão de receitas, pela formulação de políticas tributárias e pela fiscalização para garantir que todos paguem o que é devido. Em outras palavras, são profissionais que ajudam a garantir que o Estado tenha recursos, e que esses recursos sejam bem utilizados, inclusive em eventos culturais.

Sem esse trabalho técnico e contínuo, sequer a Lei Rouanet teria efetividade, talvez nem existiria, prejudicando milhares de pequenos artistas e o desenvolvimento da cultura nacional.

Grandes festivais no Brasil dependem de patrocínio privado, bilheteria e parcerias comerciais, o que reforça seu caráter direto de produto de mercado, e não de política pública cultural, ainda que indiretamente dependam da estrutura pública para sua logística e tenha forte conexão sistêmica com a cultura.

E talvez seja justamente aí que resida uma reflexão mais profunda.

Recentemente, um episódio envolvendo a família do jogador Jorginho, atualmente atleta do Flamengo, gerou forte reação nas redes sociais e entre torcedores do Clube de Regatas do Flamengo. A indignação foi rápida e intensa, como costuma ser quando o assunto envolve futebol e celebridades.

Nada de errado em questionar e se indignar, isso é importante. A questão é ampliar a reflexão para outras indignações.

Enquanto timelines fervem por episódios como este, o Brasil segue convivendo com milhões de pessoas em situação de extrema pobreza (pessoas que vivem com US$2,15 por dia, cerca de R$ 220 mensais), invisíveis no debate e nas indignações. São brasileiros e brasileiras que salvo raras exceções não frequentam grandes festivais, não viralizam nas redes e não entram nos trending topics. E, no entanto, representam milhões de pessoas, e uma realidade muito mais urgente do que qualquer polêmica pontual.

O contraste é incômodo, somos um país capaz de mobilizar paixões gigantescas por entretenimento, seja música, seja futebol, ou os dois, mas frequentemente incapaz de sustentar o mesmo nível de atenção quando o assunto é questões sociais e desigualdades.

O Lollapalooza, nesse sentido, é quase um símbolo involuntário de tal dualidade. Ele mostra o Brasil moderno, conectado e culturalmente relevante. Mas também escancara o abismo entre quem pode consumir cultura em larga escala e quem ainda luta para sobreviver.

Temos um desafio real de ampliar o foco, reconhecer a importância desses eventos, valorizar as iniciativas locais que sustentam a diversidade cultural, defender instituições de controle e servidores públicos que protegem o interesse público e, principalmente, direcionar nossa indignação para aquilo que realmente define o país que somos, e o país que muitas vezes insistimos em não enxergar.

Indignar é preciso, mas nossos desafios sociais estruturantes clamam pela indignação de todas as torcidas.

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