O aquário do outro: a herança dos vidros fundadores

No fim das contas, a vida é um banquete. Mas banquete não se come respeitando o vidro
Foto: Google Images

Li outro dia um estudo sobre aquários para experimentos com peixes (O Experimento do Aquário). Não era minha praia – sou daqueles que leem de tudo por acaso, principalmente quando deviam estar fazendo outra coisa –, mas fiquei preso numa ideia besta: a arquitetura do cerceamento. Ali, entre oxigenadores e termostatos, eles montam um palco de tragédia muda. O predador, a presa e aquela maldita lâmina de vidro. O experimento é de uma crueza que beira o absurdo, mas também uma lição de anatomia da alma.

O peixe maior investe contra os menores, mas encontra o invisível. Bate. Insiste. Fere-se. Até que a dor repetida reescreve o instinto e vira verdade biológica. O que vem depois não é zoologia – é a fundação da nossa própria miséria psíquica. Retiram o vidro. O caminho está livre. O banquete oscila diante dos olhos. Mas o animal não avança: travou na memória da pancada. O cárcere mais eficiente não é aquele feito de grades, mas o que se sedimenta como convicção de impossibilidade sob a pele. O peixe morre de fome porque acredita que a liberdade é uma alucinação dolorosa. Respeita um fantasma instalado no centro do sistema nervoso.

Nós, claro, fazemos o mesmo. Só que com o agravante da linguagem.

Antes mesmo de nadarmos por conta própria, o Outro – esse complexo de pais, mestres, deuses domésticos, todo mundo que nos antecedeu – já tratou de instalar as divisórias no aquário mental. Somos “falados” antes de nascer. Herança pesada: entregam-nos um mapa onde vastas áreas do oceano estão marcadas como perigosas. O vidro não é colocado para nos ferir, mas para nos “proteger”. E é nessa proteção que mora a nossa castração mais profunda.

Passamos a existência inteira respeitando as margens de um desenho alheio. Definimos nossa identidade não pelo que alcançamos, mas pelas barreiras que aprendemos a não testar. Freud chamou isso de superego – esse vigilante incansável que guarda as fronteiras do que “não se deve”, mesmo quando o castigo físico já desapareceu há décadas. Quantas vezes deixamos de morder a vida porque ainda ouvimos o eco de uma proibição que caducou no tempo?

Há também algo de sombrio nessa história. Acreditamos que o limite é o vidro. Mas talvez o limite seja a nossa própria recusa em integrar a agressividade necessária para quebrá-lo. O peixe que desiste do ataque desiste também da sua sombra predadora – vira uma criatura anêmica, um simulacro de vida. Sob o disfarce do “bom senso”, o que escondemos é o desamparo aprendido. Uma zona de conforto onde a prudência doentia sufoca qualquer ímpeto heróico.

Vivemos cercados por crenças que se fantasiam de virtudes: a modéstia que esconde o medo do sucesso, a cautela que mascara a covardia, o respeito à tradição que é, no fundo, apenas preguiça de pensar. O homem moderno, às vezes, me parece um náufrago num copo d’água – aterrorizado por fronteiras que a realidade já dissolveu, mas que a neurose insiste em manter intactas.

A tragédia não é a existência do vidro, é a sua internalização. Quando a barreira física é removida, o sujeito continua se comportando como se o impedimento fosse uma lei da física. É a patologia da obediência a um mestre ausente. Freud, de novo, tinha razão: o superego sobrevive ao tirano. Navegamos em águas viciadas, contornando traumas como se fossem rochedos intransponíveis. O mundo gira, as estruturas se alteram, mas o súdito continua curvado porque o psiquismo já tomou a forma do jugo.

O que resta de nós quando tiramos as desculpas que usamos para não ocupar todo o espaço que nos cabe?

Não sei. Mas suspeito que a liberdade exija o risco do novo impacto. É preciso nadar até onde dói, forçar a transparência, testar se o muro ainda é sólido ou se virou apenas uma lembrança persistente. Até quando vamos permitir que o “não” de ontem dite a geografia do nosso hoje?

No fim das contas, a vida é um banquete – mas banquete não se come respeitando o vidro. Se ficarmos só flutuando no raso, morremos de sede ao lado da fonte, só porque nos ensinaram que a água não nos pertence.

Ou talvez tenhamos nos ensinado isso sozinhos, para não ter que arriscar o mergulho. Pode ser.

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