A exoneração de Rossieli Soares da Secretaria de Estado de Educação de Minas Gerais, revelada por O Fator na noite dessa segunda-feira (27), pegou de surpresa integrantes da pasta e de outros setores do governo. O sobressalto abrangeu até mesmo o novo secretário, Gustavo Braga. Entre a primeira sondagem sobre a possibilidade de assumir o cargo e a batida de martelo, passaram-se poucas horas.
A reportagem apurou que o expediente de trabalho de ontem foi normal e sem indicativos de saída. Houve debates internos a respeito da agenda de Rossieli para esta semana e preparação para a audiência pública organizada pela Comissão de Esporte e Lazer da Assembleia Legislativa (ALMG) a fim de debater as escolas cívico-militares. O agora ex-secretário tinha participação confirmada na sessão.
A assessoria de Rossieli informou a O Fator que a decisão pela saída foi tomada “de forma alinhada com o governo”. O ato de exoneração, contudo, não diz que o rompimento do vínculo aconteceu a pedido, como ocorre em casos onde o desligamento é em comum acordo.
Além disso, o comunicado oficial do Palácio Tiradentes tratou a mudança como uma decisão do governador Mateus Simões (PSD).
Interlocutores chamaram a atenção para o tom adotado pelo Executivo estadual no comunicado de destituição. A nota pública não contém sequer agradecimento a Rossieli, limitando-se a publicizar a exoneração e a detalhar o currículo de Braga.
Vapt vupt
A oficialização consta na edição desta terça-feira (28) do Diário Oficial e veio acompanhada da confirmação de Gustavo Braga, ex-chefe de gabinete da Secretaria de Estado de Governo, como o novo responsável pela Educação estadual.
Braga, que é servidor de carreira, tem passagens pela Secretaria de Educação, onde atuou como chefe da Assessoria Estratégia e chefe de gabinete. Ele seguiu para a pasta de Governo durante a gestão de Igor Eto (Avante), permanecendo com Gustavo Valadares (PSD) e Marcelo Aro (PP). Hoje, é tido como um quadro ligado ao grupo de Aro.
Conforme apurou O Fator, embora o nome do atual secretário já estivesse sendo ventilado nos corredores do Palácio Tiradentes, a decisão foi tomada de forma quase instantânea. Braga foi sondado e convidado a assumir o cargo ainda na segunda-feira.
Oito meses
Rossieli chegou a Minas Gerais em agosto do ano passado, acompanhado por uma equipe de assessores que costuma segui-lo em outras funções públicas, como nas passagens pelas secretarias de Estado de Educação do Pará e do Amazonas. Ele também foi ministro da Educação do governo de Michel Temer (MDB) e candidato a deputado federal por São Paulo pelo PSDB em 2022.
O grupo de auxiliares diretos também deixará os postos na Cidade Administrativa. Entre eles, está Stephanie Carvalho, que ocupava a secretaria adjunta. O nome do sucessor dela ainda não está definido.
Nos bastidores, servidores afirmam que a gestão da Educação estadual estava concentrada nos assessores de confiança de Rossieli.
Segundo relatos colhidos por O Fator, outros integrantes da pasta só costumavam tomar conhecimento de decisões importantes após alinhamento entre os componentes do núcleo duro ligado ao secretário.
Cirurgia e ‘convívio com a família’
Em texto encaminhado à reportagem, a equipe de Rossieli Soares atribui a saída a um procedimento cirúrgico a que ele foi submetido em fevereiro.
Segundo o comunicado, a exoneração aconteceu para que o ex-secretário possa “se dedicar integralmente” à recuperação. Ainda segundo o material, a exoneração permitirá que o ministro da Educação no governo de Temer possa “priorizar o convívio com a família e se preparar para novos projetos profissionais”.
Em vídeo publicado por ele nas redes sociais, aliás, o agora ex-secretário manda um recado para o filho, que mora em São Paulo (SP). “Estou chegando, de volta, para a gente estar junto”, diz.
A nota de saída elaborada pelo grupo também traz uma declaração do secretário. Segundo ele, o foco de sua gestão foi “trazer a atenção para o chão da escola”.
“Trabalhamos para simplificar, organizar prioridades e tirar o excesso de iniciativas que dispersavam a rede, para que todos pudessem concentrar energia no essencial. Educação se faz com foco no pedagógico, com clareza e constância. Para mim, é inegociável garantir oportunidade e aprendizagem para cada estudante da escola pública. Saio com a convicção de que esse caminho está colocado e com gratidão pela confiança e pelo trabalho construído junto à rede”, afirmou, mencionando pontos que considerou positivos de sua gestão, como o aumento de indicadores educacionais.
Convívio com críticas
No mês passado, a deputada Beatriz Cerqueira, do PT, chegou a apresentar denúncia ao Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) e ao Tribunal de Contas do Estado (TCE-MG) por causa de um contrato para a compra de materiais didáticos. O acordo, fechado sob a gestão de Rossieli, ficou em cerca de R$ 348 milhões.
À ocasião, a parlamentar apontou que a aquisição dos kits escolares aconteceu por meio de ata de preços do estado de São Paulo. O governo, por sua vez, negou irregularidades e afirmou que a compra seguiu os ritos adequados.
Também houve críticas por causa de uma aula organizada em parceria com o Google e ocorrida no Mineirão, em Belo Horizonte. A atividade, que aconteceu em novembro, acabou em pancadaria entre estudantes da rede estadual.
