O Poder do ‘Chão da Escola’

cantina de escola publica
Foto: Arquivo/Agência Senado

“A visita surpresa não serve para vigiar, mas para enxergar sem filtros. Serve para dizer àquele gestor na ponta, muitas vezes solitário em seus desafios: você não está sozinho”.

Muitos acreditam que a gestão pública se faz apenas com canetadas e planilhas em gabinetes silenciosos. No entanto, a educação que precisa de socorro acontece longe do asfalto principal, muitas vezes em becos onde o carro oficial não consegue entrar.

Recordo-me de uma manhã em Belo Horizonte. Enquanto alguns duvidavam da viabilidade da minha agenda, eu fui. Desci a pé uma comunidade até que, ao dobrar um beco estreito, fui recebido pelo abraço de uma senhora de avental molhado. “Foi Deus que te trouxe aqui!”, disse a cantineira. Ali estava a Escola Estadual Cabana do Pai Tomás, a única de Minas Gerais situada dentro de um beco, compartilhando muros e destinos com as casas ao redor.

A recepção calorosa contrastava com a estrutura: fachada destruída, cozinha em frangalhos e goteiras que pareciam chorar o abandono. Ao encontrar a nova diretora, vi em seu rosto um misto de susto e desespero. O desafio dela era hercúleo: regularizar documentações burocráticas enquanto tentava manter a dignidade de um espaço que desmoronava fisicamente.

Sempre defendi que o banheiro é o maior indicador de zelo de uma escola. É ali que se mede o respeito ao aluno e ao servidor. Na Cabana do Pai Tomás, a realidade era um soco no estômago: descargas feitas com baldes. Diante daquela indignação, busquei o meu segundo termômetro de gestão: os estudantes.

Sentado em uma sala com crianças dos anos iniciais, ouvi elogios aos profissionais e um instinto de proteção àquela comunidade. Quando mencionei que os banheiros não estavam bons, uma criança prontamente defendeu: “Mas as tias limpam!”. Emocionado, fui direto: expliquei que a culpa daquela situação era minha. Pedi desculpas, expliquei minha função e disse que aquela realidade mudaria. Que a escola seria tão linda quanto eles.

A resposta para o abandono não está nos relatórios que chegam à Cidade Administrativa, mas na presença. A presença que permite admitir a falha para, então, corrigi-la.

Recentemente, fiz questão de voltar àquela escola. Não mais como Secretário, mas como o professor Igor Alvarenga. Encontrei uma escola de verdade. A diretora, agora com o sorriso no rosto e mais de um ano de gestão, orgulhava-se de cada canto. As cantineiras trabalhavam em um espaço digno e os banheiros estavam impecáveis. O relato mais potente, porém, veio sobre os estudantes: o comportamento melhorou e muitos dizem que o banheiro agora é “igual ao de shopping”. Para alguns, que nunca frequentaram um shopping, a escola passou a ser o primeiro lugar a lhes proporcionar a vivência da beleza, do conforto e do cuidado.

Para mim, isto reforça aquilo que escrevi e publiquei no jornal O Fator em 09 de abril no artigo: “O espaço escolar precisa ser lembrado: a escola é um espaço de dignidade”. O espaço escolar precisa ser lembrado como um espaço de dignidade. Afinal, a escola é o lugar onde a cidadania começa a ser construída, e nenhuma democracia pode ser erguida sobre alicerces frágeis.

Gestão pública é, antes de tudo, sensibilidade. É entender que a reforma de uma cozinha ou de um banheiro no final de um beco vale tanto quanto grandes monumentos de concreto. Educação se faz com técnica, mas só se consolida quando o Estado tem a coragem de atravessar o beco para garantir o básico: a dignidade humana.

Professor da rede estadual de ensino, mestrando em Avaliação e Gestão Educacional, ex Secretário de Estado de Educação de Minas.

Professor da rede estadual de ensino, mestrando em Avaliação e Gestão Educacional, ex Secretário de Estado de Educação de Minas.

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