A fundação ligada a universidade federal que suposto operador de ex-secretário de Educação de MG tentou incluir em esquema

Entidade foi citada em proposta para atuar como intermediária formal em contrato sob suspeita na Secretaria de Educação
Rossieli deixou o comando da secretaria em abril. Foto: Agência Minas

O fornecedor de materiais didáticos que denunciou a suposta atuação de um operador ligado ao ex-secretário de Educação de Minas Gerais, Rossieli Soares, disse ter sido orientado a envolver a Fundação Theodomiro Santiago, vinculada à Universidade Federal de Itajubá (Unifei), como parte do arranjo para viabilizar a vitória em uma licitação da pasta. Segundo o relato encaminhado ao governo estadual, a entidade seria usada como proponente formal no certame, enquanto a execução ficaria a cargo da empresa privada.

A informação consta em denúncia encaminhada pelo governo mineiro a órgãos de controle, que investigam o caso desde o final de 2025.

Na estratégia proposta pelo suposto operador do esquema, a fundação entraria como proponente formal diante da Secretaria de Educação, enquanto a execução ficaria nas mãos da empresa privada, em uma tentativa de usar a associação sem fins lucrativos como porta de entrada institucional para o negócio.

O Fator revelou os termos da denúncia do fornecedor em 28 de maio, cerca de um mês após a exoneração de Rossieli. Como a reportagem mostrou à ocasião, o representante de uma empresa do setor educacional foi procurado por um interlocutor identificado como Fernando, que se apresentou como “operador” de Rossieli e dizia falar em nome do então secretário.

Na conversa, o intermediário pediu detalhes da proposta de fornecimento de materiais didáticos em análise na Secretaria de Educação e sugeriu que a margem de lucro, inicialmente calculada em 15%, fosse elevada para 37%, vinculando o ajuste à garantia de vitória no certame.

O empresário interpretou a abordagem como tentativa de direcionar o contrato e decidiu procurar o governo. Ainda no ano passado, ele relatou o episódio a Luiz Otávio Gonçalves, à época secretário de Estado da Casa Civil, e entregou documentos que indicavam a intenção de usar uma fundação pública como ponte para contratação, em um arranjo que permitiria fechar o negócio sem licitação tradicional.

Foi nesse contexto, segundo o denunciante, que “Fernando” colocou a Fundação Theodomiro Santiago na proposta. O intermediário teria explicado que, para “ter sucesso” no certame, a empresa deveria firmar parceria com a entidade.

O fornecedor denunciante entregou ao governo uma “proposta preliminar” que, segundo ele, seria apresentada à Secretaria de Educação pela própria fundação, desenhando esse modelo de intermediação. Internamente, o material foi lido como tentativa de usar uma fundação de apoio universitário para contornar a licitação convencional da pasta, abrindo espaço para um contrato milionário com lucro ampliado para a empresa.

A Fundação Theodomiro Santiago é uma instituição de auxílio à Unifei surgida em 1960. Segundo o site institucional da entidade, a entidade é “comprometida com o incentivo à pesquisa e à inovação”. A sede fica em Itajubá, cidade que também abriga as principais atividades da universidade federal.

De acordo com o relato do fornecedor denunciante, a fundação seria usada como fachada institucional para uma grande compra de materiais didáticos, área vinculada à educação básica, e não à atividade acadêmica da Unifei.

Em contato com a reportagem, a fundação afirmou, em nota, que recebeu contato de interlocutores da pasta de Educação, mas nenhuma negociação avançou. Veja a nota na íntegra ao fim da reportagem.

O recuo da pasta

Depois de ouvir o fornecedor denunciante, Barbosa repassou o caso ao então secretário‑geral do Estado, Marcel Dornas Beghini, responsável pela articulação interna do Executivo. Os dois avaliaram que se tratava de uma denúncia com potencial impacto sobre o erário e decidiram formalizar as informações em um ofício endereçado à controladora geral-do Estado, Marcela Dias, pedindo a abertura de investigação. Recentemente, Barbosa e Beghini inverteram os cargos, em movimento sem nenhuma relação com o caso em questão. O primeiro passou a ocupar a Secretaria-Geral; o segundo, a Casa Civil.

Paralelamente, a própria Secretaria de Educação teria orientado o empresário a não prosseguir com a associação à Fundação Theodomiro Santiago, esvaziando a primeira tentativa de estruturar o negócio por meio da entidade. Diante do risco de exposição e da movimentação da Controladoria‑Geral do Estado (CGE), a pasta acabou abandonando o arranjo com a fundação e buscou outra rota para a compra de materiais didáticos sem licitação própria.

A saída encontrada foi a adesão a uma ata de registro de preços da Fundação para o Desenvolvimento da Educação de São Paulo (FDE-SP). Em 23 de dezembro de 2025, a pasta assinou, sem licitação em Minas, um contrato de R$ 348 milhões com a empresa Fazer Educação para fornecimento de livros à rede estadual. Mais tarde, o governo ainda celebrou um acordo complementar de R$ 49 milhões com um consórcio de empresas do setor, também com base em mecanismos que dispensam licitação própria.

Parte dessas empresas já vinha sendo investigada em outros estados por suspeitas de fraude em licitações de materiais didáticos, o que ampliou as dúvidas sobre a política de compras adotada na gestão de Rossieli. A revelação de que, antes desse contrato, houve uma tentativa de usar a Fundação Theodomiro Santiago como proponente formal, adicionou um novo elemento às suspeitas em torno do caso.

Investigação interna

A denúncia do fornecedor, incluindo a citação da fundação, foi um dos gatilhos da investigação interna conduzida pela CGE. Em dezembro de 2025, Beghini acionou o órgão assim que teve acesso às informações; em 9 de janeiro, a controladoria apresentou um relatório inicial, ainda inconclusivo, mas que confirmou a plausibilidade do relato e recomendou o aprofundamento da apuração.

Em 13 de janeiro, o ofício com o detalhamento da abordagem do suposto operador e da tentativa de uso da fundação foi encaminhado formalmente à controladora‑geral. Em 27 de abril, um relatório mais robusto foi concluído e enviado à cúpula do governo. Pouco depois, o governador Mateus Simões (PSD) decidiu exonerar Rossieli do comando da Secretaria de Educação.

Ao comentar o rompimento do vínculo, Rossieli falou que a decisão havia sido tomada em comum acordo. A versão foi desmentida pela administração estadual, que apontou a existência das investigações internas, já remetidas a órgãos como Ministério Público e Polícia Federal.

Posicionamento da fundação na íntegra:

“A Fundação Theodomiro Santiago (FTS) vem, por meio desta nota, esclarecer que não teve acesso à denúncia enviada à Controladoria-Geral do Estado de Minas Gerais (CGE-MG, tampouco foi procurada por qualquer órgão de controle para se manifestar sobre o assunto.

A FTS foi formalmente procurada por representantes da Secretaria de Educação do Governo do Estado de Minas Gerais para apresentar uma proposta preliminar relacionada a possíveis iniciativas na área educacional.

Até onde é de conhecimento da Fundação, não houve contratação decorrente dessas tratativas, tampouco qualquer formalização de parceria, ajuste ou execução de projeto relacionado aos fatos mencionados.

Diante das informações que vêm sendo divulgadas, a Fundação Theodomiro Santiago permanece à disposição dos órgãos de controle e das autoridades competentes para prestar quaisquer esclarecimentos que eventualmente sejam necessários, e reitera não ter conhecimento de qualquer ato praticado por seus dirigentes, colaboradores ou representantes que possa ser associado às condutas narradas.”

Lucas Ragazzi é jornalista investigativo com foco em política. Integrou o Núcleo de Jornalismo Investigativo da TV Globo e tem passagem pelo jornal O Tempo, onde cobriu o Congresso Nacional e comandou a coluna Minas na Esplanada, direto de Brasília, e pela Itatiaia. É autor do livro-reportagem “Brumadinho: a engenharia de um crime”.

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