Rodrigo Toffolo: a orquestra que perdeu a distância

À frente da Orquestra Ouro Preto, o maestro transformou herança familiar, cidade barroca e repertórios populares em uma das experiências mais singulares da música brasileira contemporânea.

Recebi de um amigo, depois do concerto da Orquestra Ouro Preto com Carlinhos Brown na Praça da Liberdade, uma fotografia antiga da família Toffolo. A imagem é simples e reveladora. Diante de uma biblioteca doméstica, crianças seguram pequenos violinos. Os adultos parecem guardar, mais do que uma pose, um ambiente inteiro de formação. Há livros, instrumentos, disciplina, afeto e transmissão silenciosa. A música aparece, antes de tudo, como casa.

Talvez seja esse o ponto mais bonito para compreender Rodrigo Toffolo. Antes de ser maestro, diretor artístico, violinista, pesquisador e regente de uma das experiências orquestrais mais originais do Brasil, ele pertenceu a um mundo em que a música não era somente profissão ou espetáculo. Era convivência, método de vida, maneira de organizar a sensibilidade.

Há, nessa história, uma dimensão familiar que merece reverência. A Orquestra Ouro Preto não nasce apenas de uma instituição ou de um projeto cultural. Nasce também de uma família. De um pai, Ronaldo Toffolo, que ajudou a semear uma experiência musical capaz de transformar a realidade dos filhos, dos músicos à sua volta e da própria cidade. Nasce de Rodrigo, filho dessa formação, que assumiu a herança não como repetição, mas como expansão. Nasce dos irmãos, das relações de estudo, afeto e disciplina que fazem da música uma prática cotidiana antes de transformá-la em palco.

Também é preciso olhar para a presença feminina nessa trajetória. As mulheres violinistas da família, tão marcantes na imagem e na história da Orquestra, dão a essa narrativa uma beleza especial. Há nelas algo que inspira e eleva: a delicadeza disciplinada de quem transforma estudo em expressão, técnica em emoção, presença em exemplo. Vê-las no centro de uma orquestra, com seus instrumentos, sua firmeza e sua graça, é também uma forma de futuro.

Rodrigo Toffolo é ouro-pretano. Iniciou sua formação musical em Ouro Preto, estudou violino, passou pela UFMG, aprofundou-se na musicologia e construiu uma trajetória em que prática artística e pesquisa caminham juntas. Foi integrante do Quarteto Ouro Preto e do Grupo Trilos, estudou regência e assumiu a direção artística da Orquestra Ouro Preto desde sua fundação, em 2000, tornando-se seu regente titular em 2007. Mas sua biografia está menos nos títulos que acumula e mais na coerência da obra que constrói.

À frente da Orquestra, Toffolo não se tornou apenas regente. Tornou-se criador de repertórios, articulador de encontros e formulador de linguagem. Em The Beatles, aproximou cordas e banda de rock, levando o repertório do quarteto de Liverpool ao universo orquestral. Em Gonzagão, abriu as cordas ao diálogo com sanfona, triângulo e zabumba, revelando a arquitetura profunda da música de Luiz Gonzaga. Em Valencianas, com Alceu Valença, afirmou uma ponte rara entre canção popular e escrita orquestral. Em projetos que atravessam Milton Nascimento e Fernando Brant, Maurício Tizumba, Carlinhos Brown, A-Ha, Nirvana, jazz, cinema e literatura, mostrou que a versatilidade não é dispersão: é curadoria.

Sua atuação também ultrapassa o concerto. Em Auto da Compadecida, a Ópera, com música de Tim Rescala, Toffolo assina o libreto, em parceria com o compositor, e participa da concepção musical, aproximando Ariano Suassuna, canto lírico, teatro popular e música de concerto. Há ali uma assinatura: escolher repertórios capazes de produzir reconhecimento afetivo e, ao mesmo tempo, deslocamento estético. O público chega por uma canção que conhece; sai com outra ideia de orquestra.

Ouro Preto, nesse sentido, não é apenas a cidade natal de Rodrigo ou o nome da Orquestra. É matriz. Poucas cidades brasileiras carregam tantas camadas de tempo sem se reduzirem a uma imagem imóvel do passado. Ouro Preto é barroca, mas seu barroco nunca foi apenas estilo. Foi tensão, movimento, excesso, fé, teatralidade, música, ofício e invenção. Talvez por isso permaneça viva: porque sua tradição não é fachada preservada, mas energia em permanente atualização.

Minas tem instituições musicais extraordinárias. A Filarmônica de Minas Gerais representa a excelência sinfônica, a escuta concentrada, a Sala Minas Gerais como templo acústico. A Orquestra Sinfônica de Minas Gerais carrega a tradição pública, o Palácio das Artes, a ópera, o repertório lírico-sinfônico e a memória institucional. A Orquestra Ouro Preto ocupa outro lugar nessa constelação. Não melhor, não menor: outro. Sua força está menos na solenidade do edifício e mais na capacidade de encontro; menos na fixidez monumental e mais na mobilidade de uma escuta que alcança públicos diversos sem renunciar à qualidade.

Talvez sua singularidade esteja justamente aí: ela reinterpreta os padrões tradicionais de uma orquestra à luz do mundo contemporâneo. Há quem, preso a modelos rígidos, talvez pergunte se ela é, de fato, uma orquestra. Mas a pergunta verdadeira é outra: o que é uma orquestra? Apenas uma formação instrumental fixada por convenções históricas? Ou uma comunidade de músicos reunida em torno de uma escuta comum, capaz de organizar sons, repertórios, sensibilidades e públicos numa experiência coletiva?

A Orquestra Ouro Preto é orquestra porque pensa orquestralmente. Porque transforma repertórios diversos em experiência de conjunto. Porque organiza timbres, arranjos, silêncios, tensões e encontros. Sua diferença não está em ser menos orquestra, mas em mostrar que a forma orquestral continua viva quando aceita dialogar com o tempo em que vive.

Rodrigo Toffolo não levou a música de concerto ao povo diminuindo sua exigência. Ele a levou ampliando seu território. A Orquestra Ouro Preto mostra que a música de concerto não perde grandeza quando sai da sala; perde apenas a distância.

Volto, então, à fotografia. As crianças com violinos diante da biblioteca talvez não soubessem que aquela cena doméstica um dia alcançaria praças, teatros, cidades e multidões. Mas há, naquela imagem, uma promessa: a de que uma formação verdadeira não termina em si mesma. Ela amadurece, se desloca e encontra o mundo.

Uma orquestra, afinal, não é apenas uma formação instrumental. É uma comunidade de destinos. Nela cabem o pai que semeia, os filhos que transformam herança em obra, as mulheres que inspiram pelo talento e pela presença, os músicos que fazem da disciplina uma forma de beleza. E talvez seja essa a beleza maior: uma orquestra que nasceu em Ouro Preto, mas aprendeu a fazer de cada palco, cada cidade e cada praça uma nova forma de pertencimento.

Leônidas Oliveira é secretário de Estado de Cultura e Turismo de Minas Gerais. Arquiteto e Urbanista. Especialista em História da Arte. Mestre em Restauração do Patrimônio Arquitetônico e Urbano na Universidade de Alcalá de Henares, Espanha e RAE, Roma. É PhD em Teoria da Arquitetura pela Universidade de Valladolid, Espanha. É professor da PUC Minas.

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