O receio de Zema e do Novo após ‘desconvite’ para evento em Santa Catarina

Ex-governador mineiro e aliados temem que desgaste na relação com catarinenses provoque reflexos em outros estados do Sul
Romeu Zema, Flávio Bolsonaro e Ronaldo Caiado
Críticas de Zema a Flávio desgastaram relação entre Novo e PL. Foto: Cristiano Machado/Imprensa MG

Embora o diretório catarinense do Novo tenha desconvidado Romeu Zema para um evento do partido após a pressão pública do deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro por um divórcio entre o PL e a legenda, aliados do ex-governador mineiro não estão muito preocupados com a situação por entenderem que a conjuntura local já é suficientemente favorável a Flávio Bolsonaro. O problema, apontam, está no Paraná.

Dirigentes nacionais ouvidos por O Fator avaliam que o estado concentra hoje o maior potencial de curto-circuito da crise aberta entre Zema e a família Bolsonaro. O motivo é o peso das peças que estão no tabuleiro local para as disputas ao Senado e ao governo em 2026.

O nó da articulação passa diretamente pelo perfil dos nomes envolvidos. O Novo trata a candidatura de Deltan Dallagnol como um projeto prioritário e nacional para o Senado. Na outra ponta, o PL trabalha com Sergio Moro como pré-candidato ao governo paranaense e projeta o deputado Filipe Barros para a outra vaga da Câmara Alta. Como todos disputam o mesmo eleitorado de direita, a avaliação é que o arranjo paranaense é um dos mais estratégicos e sensíveis para as duas siglas fora do eixo São Paulo-Brasília.

Nos bastidores, o temor é que a artilharia nacional contamine a base e force as lideranças locais a tomar partido em uma disputa que, até agora, estava restrita às costuras da sucessão presidencial.

Na avaliação das duas siglas, a situação no Paraná é considerada mais delicada do que em outros estados do Sul, como Santa Catarina e Rio Grande do Sul, onde o alerta também soou, mas o terreno parece mais estável.

Em Santa Catarina, o Novo já não espera um alinhamento tão coeso com Romeu Zema. Isso porque o partido integra a base do governador Jorginho Mello e ventila o ex-prefeito de Joinville, Adriano Silva, para uma composição na chapa majoritária.

No Rio Grande do Sul, o ambiente também é apontado como sob controle. Caciques do Novo creditam ao deputado federal Marcel van Hattem o papel de fiador da calmaria, segurando as pontas para evitar que os respingos da disputa presidencial contaminem a relação entre os partidos no estado.

A crise

A origem da turbulência está nas críticas feitas por Zema a Flávio Bolsonaro após a divulgação dos áudios enviados pelo senador ao banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, liquidado extrajudicialmente Nas mensagens, Flávio cobrava parcelas atrasadas de recursos destinados ao financiamento do filme “Black Horse”, produção sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Em entrevistas e participações recentes, Zema questionou a proximidade de Flávio com Vorcaro e afirmou que “quem anda com bandido merece ser visto com cautela”. A declaração provocou forte reação do entorno bolsonarista.

Ana Mendonça é jornalista e estudante de Ciência Política, ex-colunista do Estado de Minas, onde cobriu os bastidores da política mineira por 8 anos. Em 2024, foi reconhecida no 30 Under 30 da International News Media Association.

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