O falatório nosso de cada dia

Foto mostra jovem contemplando paisagem
Fechados no falatório, diante da suposição de que compreendemos tudo, suspendemos as perguntas, as dúvidas e os questionamentos, solidificando uma existência inautêntica. Foto: Pixabay

No cotidiano, é comum desconfiarmos daqueles que falam pouco. Os silenciosos muitas vezes são tratados com reserva e a eles dedicamos horas de reflexão. Os tímidos, os retraídos e os inibidos são colocados, muitas vezes, no lugar dos antissociais, dos insinceros, dos que faltam com a transparência.

No quase sempre ridículo mundo corporativo, pessoas com essas características são julgadas e tratadas como pouco ambiciosas e, portanto, indignas das melhores posições.

A questão dos silenciosos é tão presente que os tímidos, em muitos casos, correm em busca de um diagnóstico psicológico que justifique esse comportamento, uma espécie de carteirinha que lhes permita permanecer em silêncio.

Por outro lado, os comunicadores são erigidos ao lugar das pessoas transparentes, sinceras, empáticas e mais humanas. O falastrão tem prazer em dizer que carrega a virtude da transparência. Tenho minhas dúvidas. Chego a cogitar que é justamente do falador que talvez devamos desconfiar.

Não pretendo criar uma rinha entre os silenciosos e os falastrões. O problema nunca foi falar muito ou falar pouco. O problema é quando a palavra deixa de nascer de uma experiência própria e passa apenas a repetir aquilo que já estava dito.

Portanto, engana-se quem acredita que aquele que fala e se comunica com desenvoltura possa ser mais verdadeiro do que aquele que silencia. Aqui vou correr o risco de fazer um pequeno recorte de uma passagem da obra Ser e Tempo (1927), de Martin Heidegger.

É no §35 de Ser e Tempo (1927) que Heidegger apresenta aquilo que chama de falatório (Gerede), um modo originário pelo qual nós, seres humanos, compreendemos e compartilhamos o mundo. O falatório não deve ser compreendido como algo pejorativo. Trata-se de uma das formas de compreender e interpretar próprias do cotidiano. Apesar disso, também é compreendido como uma modalidade da decadência existencial.

Cair no falatório é aderir a uma forma de comunicação inautêntica, mais próxima da difusão e da repetição de discursos do que de uma apropriação efetiva daquilo que se diz. Heidegger observa que o falatório, à medida que se amplia, pode assumir um caráter autoritário. Ele nasce na compreensão cotidiana, é repetido pelos falastrões e, pouco a pouco, adquire o status de verdade.

O falatório oferece aos seus interlocutores uma sensação de onipotência, uma espécie de conforto que nasce da impressão de que tudo foi compreendido, sem que tenha havido, segundo Heidegger, uma verdadeira apropriação daquilo de que se fala.

Colocar-se apenas como receptor do falatório, deixando-se envolver por ele, acreditar no discurso que diariamente se apresenta, por exemplo, nas redes sociais, poupa-nos da tarefa de extrair uma visão crítica do que é dito. O falatório opera como uma espécie de defesa contra a abertura às possibilidades do ser e ao exercício da responsabilidade.

O falatório não seria, portanto, uma forma de abertura, de transparência ou de revelação da verdade, mas uma forma de encobrimento. Essa falação destituída de fundamento converte-se muito mais em fechamento do que em abertura, pois aquilo que é entendido de imediato nos afasta de uma compreensão originária, operando como uma espécie de abandono de si.

Fechados no falatório, diante da suposição de que compreendemos tudo, suspendemos as perguntas, as dúvidas e os questionamentos, solidificando uma existência inautêntica.

Heidegger afirma que não há como fugir do falatório; ele pertence à própria estrutura da existência. O desafio não é escapar dele, mas deixar de ser conduzido por ele.

Toda reapropriação de si começa quando aquilo que parecia óbvio volta a ser colocado em questão. O falatório pode nos anestesiar. Ele emerge como uma espécie de certeza encobridora, mas é no momento em que ele não se sustenta que podemos questionar seu pretenso fechamento e nos colocarmos, de novo, em posição de abertura.

Retornemos aos falastrões, esses verdadeiros profissionais do falatório.

Eles estão por toda parte, em todas as camadas sociais, tentando difundir uma suposta verdade última. Entretanto, temos uma pista oferecida pelo filósofo: no falatório, muito mais do que revelar, frequentemente se esconde. Diante do discurso sedutor da serpente, convém permanecer sempre críticos, desconfiados e questionadores.

Quanto aos silenciosos, também não se trata de confiar cegamente nesse modo de comunicação. Trata-se apenas de compreender que o silêncio pode ser uma das maneiras mais originárias de permitir que venha à luz aquilo que permanecia oculto.

No silenciar, habitamos a linguagem de maneira mais serena. Suspendemos, ainda que por um instante, a positividade e o excesso que a modernidade nos impõe. Renunciamos à pretensão de uma verdade definitiva, sustentada pela mera repetição dos discursos, para nos abrirmos às múltiplas possibilidades de ser.

O silêncio, nesse sentido, não representa a ausência da palavra. Ao contrário, é a condição para que a palavra volte a nascer de uma experiência própria e deixe de ser apenas a repetição daquilo que todos já disseram.

É psicanalista pelo Centro de Estudos Psicanalíticos de São Paulo (CEP) e advogado. Atua como conselheiro de empresas e desenvolve pesquisas independentes nas interfaces entre filosofia, psicanálise, literatura e arte. É autor de poemas e ensaios dedicados à investigação da linguagem, da subjetividade e dos modos de constituição da existência contemporânea.

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