“Muitos homens confundem a altura do trono com a sua própria estatura — até o dia em que descem dele e descobrem o seu verdadeiro tamanho.”(Reflexões de Michel de Montaigne sobre a vaidade do poder).
Do alto do último andar, aquele Magistrado observava a cidade. Não via propriamente uma paisagem urbana, mas algo parecido com um formigueiro que acreditava controlar. Havia trinta e cinco anos que cumpria o ritual de vestir a toga — aquele tecido preto que pesa sobre os ombros e que, com o tempo, nos convence de que somos feitos de um barro diferente.
Ele construiu sua paz interior sobre uma inferência viciada. Se por décadas o telefone tocou com súplicas e sua caneta teve o poder de mudar destinos, a lógica lhe sussurrava que amanhã seria idêntico. Durante anos ele se sentou naquela cadeira e foi tratado com uma deferência que acabou por confundir com afeto pessoal. Talvez fosse apenas medo ou interesse disfarçado de cortesia — ele não parava para fazer essa distinção. A repetição do passado lhe parecia uma garantia assinada em cartório sobre o futuro, e ele dormia tranquilo com esse pensamento.
Olhava para a estante repleta de códigos e sentia que ali estava a ordem do mundo, ignorando que a vida lá fora nunca leu diário oficial e segue seu curso sem pedir licença a nenhum tribunal.
Foi numa tarde comum que a ilusão se partiu, sem trovões, sem direito a apelação. Apenas o silêncio burocrático de um ofício de aposentadoria chegando, não como um prêmio, mas como um atestado de óbito social. A liturgia que o sustentava simplesmente ruiu. O Estado empresta o poder e depois cobra a devolução, sem nenhum sentimentalismo. Ele descobriu com espanto que a toga nunca tinha sido dele — fora apenas um inquilino.
Nos dias seguintes, o que mais lhe doeu não foi a perda dos auxílios, mas uma súbita orfandade. Lembrou-se de um criador de aves que conhecera na infância, um homem que cevava os animais com regularidade meticulosa. As aves comiam da sua mão, mansas e confiantes, bicando os grãos com uma familiaridade que parecia nascida do carinho. O menino observava aquilo com um encanto ingênuo. Só muito tempo depois entendeu que aquela mansidão não era amor — era o preparo meticuloso para o banquete. A mão que alimentava era a mesma que um dia torceria o pescoço. Agora, ao se ver fora do gabinete, ele compreendia que havia sido, de certo modo, uma daquelas aves. A regularidade da ração o anestesiara.
Ao descer as escadarias pela última vez, sem o peso das vestes, ele notou que o porteiro não fez a reverência habitual. Um advogado passou por ele no saguão e não diminuiu o passo — seguiu falando alto ao celular, gesticulando, como se o ex-Magistrado fosse um obstáculo qualquer no caminho. Ele havia se tornado transparente. A cidade continuava lá fora, barulhenta e indiferente à sua biografia.
Caminhou pela calçada sentindo o sol bater no rosto de um jeito cru, sem o filtro do ar-condicionado, sem a proteção do cargo. O asfalto quente, o cheiro de fumaça dos ônibus, o empurra-empurra da calçada estreita — tudo aquilo o atingia agora diretamente, sem mediadores. Pela primeira vez em décadas não era uma Excelência — era um pedestre qualquer, vulnerável aos esbarrões do acaso e à grosseria das esquinas. Uma mulher com pressa trombou nele e seguiu adiante sem pedir desculpas. Ele ficou parado, olhando as costas dela sumir na multidão.
Entrou numa padaria que nunca havia notado antes. O balcão estava cheio, e ele precisou esperar a vez como qualquer um. Sentou-se a uma mesa de fórmica manchada, diante de um café ralo que lhe serviram sem nenhuma cerimônia. Ficou ali um tempo longo, observando as pessoas que entravam e saíam. Eram trabalhadores comuns, gente que ele julgara durante anos sem nunca ter visto de perto. Um motoboy comia um pão com ovo em pé, às pressas. Uma senhora contava moedas para pagar um pão doce. Ninguém o reconheceu, ninguém o cumprimentou.
Foi ali, naquela padaria anônima, que ele se deu conta de que teria de aprender a tarefa mais difícil: simplesmente ser um homem, sem adjetivos. A vida não obedece a precedentes, não se curva a nenhuma jurisprudência — ela simplesmente acontece, atropela, e segue em frente. O telefone havia parado de tocar. Os convites rarearam. Os presentes sumiram. O homem que colecionava desafetos e bajuladores agora colecionava apenas o silêncio da sua sala vazia.
Naquela noite, em casa, tirou da gaveta o velho relógio de pulso que não usava desde que foi nomeado. Deu corda. O tique-taque pareceu-lhe um som novo, quase estrangeiro. Sentou-se na poltrona e ficou ali escutando, sem fazer nada, sem planejar nada. Talvez isso fosse viver — não o exercício do poder, mas essa corrente mansa dos minutos que correm sem testemunhas.
No dia seguinte, saiu de casa sem pasta, sem celular corporativo, sem compromisso na agenda. Seguiu andando. O resto da vida começava ali.