Há uma frase muito repetida que diz que “a infância é o solo sobre o qual caminhamos pelo resto da vida”. Já li alguns psicólogos chamando a atenção para a necessidade de pensarmos essa conclusão de forma mais complexa. Afinal, ao longo da nossa existência plantamos muitas coisas nesse solo. A vida muda tanto e nos atravessa de tantas maneiras, que talvez nenhum solo permaneça exatamente o mesmo. Gosto de pensar como Guimarães Rosa, que “as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas”. Mas tenho cada vez mais certeza de que a infância é um terreno profundamente formador de quem nos tornamos.
Pensei nisso ontem, durante uma conversa com minhas amigas.
Falávamos sobre as nossas infâncias, aquelas do início dos anos 1990, quando quase tudo era contadinho em casa. Lili se lembrou que tinha um parente que trabalhava numa distribuidora de Danone. Por causa disso, sempre tinha iogurte na geladeira de casa dela. Eram produtos próximos do vencimento, mas, para ela, isso significava uma fartura que quase nenhuma criança que ela convivia conhecia. Sil e Kelli riram e responderam que, em suas casas, Danone era um acontecimento que aparecia uma vez por mês, quando aparecia.
Enquanto elas conversavam, tive uma lembrança da minha própria infância. Na minha família, havia alguém que conhecia uma pessoa que trabalhava numa distribuidora de revistas. E, por causa disso, a minha casa vivia cheia delas.
Tinha Recreio, Capricho, Claudia e tantas outras. É claro que, olhando hoje, sei que muitas daquelas reportagens envelheceram muito mal. Havia ideias sobre o corpo feminino, sobre relacionamentos e sobre o papel das mulheres que são muito problemáticas (isso para dizer o mínimo). Mas também havia muito conteúdo interessante, reportagens, curiosidades, ciência, cultura, viagens, comportamento…
Lembro perfeitamente de um maleiro do guarda-roupas do quarto dos meus irmãos abarrotado de revistas. Eu passava horas sentada no chão, folheando, relendo matérias que já conhecia quase de cor. Eu lia tudo, o que entendia e o que ainda não entendia.
E hoje eu tenho uma mania que talvez tenha nascido ali, eu sempre gostei de saber quem tinha escrito aquilo. Era homem? Era mulher? Que outra coisa essa pessoa escrevia? Naquela época, muitas revistas publicavam uma pequena foto do autor ao lado da reportagem, coisa que eu amava. Hoje faço quase a mesma coisa quando leio um texto que gosto. Vou procurar quem o escreveu, abro o Google, entro no Instagram. Gosto de conhecer a pessoa por trás das palavras.
Hoje cedo, antes de começar esta coluna, li uma revista que gosto muito. Depois, sentei para escrever. E, enquanto fazia isso, pensei que talvez exista um fio invisível ligando, eu menina sentada no chão do quarto, cercada de revistas velhas, à mulher que ama ler e escrever.
A gente costuma imaginar que os grandes acontecimentos definem uma vida. Mas, muitas vezes, são os pequenos acasos que fazem esse trabalho. Talvez uma infância não seja feita apenas dos lugares onde moramos ou das pessoas que conhecemos. Talvez ela também seja feita das coisas que entram em casa sem que ninguém imagine o tamanho da marca que vão deixar.
No caso da Lili, foram potes de iogurte e no meu, foram pilhas de revistas.
Não sei se a infância é, de fato, o solo sobre o qual caminhamos a vida inteira. Mas tenho cada vez mais certeza de que ela é o lugar onde muitas das nossas raízes começam a crescer.