A ferrugem do anel — O que sobra quando a plateia vai embora

O Anel de Giges, por anônimo da Escola de Ferrara
O Anel de Giges, por anônimo da Escola de Ferrara. Foto: Wikimedia Commons/Domínio Público

Fiquei parado na sala outro dia, o controle remoto na mão, sem lembrar o que ia fazer. Não era o esquecimento comum, o de entrar na cozinha e perder o motivo. Era uma pausa mais funda, dessas em que a gente se sente provisório dentro da própria casa. O corpo pesando no sofá. Nenhum barulho vindo da rua, nem mesmo o latido distante de um cachorro. E me veio, assim do nada, a história daquele pastor grego, Giges, acho que era o nome, que encontrou um anel capaz de deixá-lo invisível. A história é velhíssima, Platão já a contava, mas ali na sala ela me voltou diferente, como se eu a lesse pela primeira vez com os olhos de agora.

O que sempre me intrigou não foi o anel nem o poder. Foi o que Giges fez com ele. Em vez de espionar fronteiras, viajar por terras desconhecidas, se divertir com a situação extraordinária que lhe caiu nas mãos, o pastor foi direto ao ponto: seduziu a rainha, matou o rei e tomou o trono. Sem hesitar. Sem um minuto de dúvida. Como se a invisibilidade não revelasse um homem novo, apenas deixasse ver o que o antigo já era quando ninguém prestava atenção.

Fico pensando se a gente não anda vivendo versões mais discretas disso. Pequenas invisibilidades que a vida moderna oferece e que a gente aceita sem muito exame, distraídos, ocupados demais com a prestação do carro e a reunião das três da tarde. Dentro do automóvel com os vidros fechados, por exemplo. Quem nunca disse barbaridades para outro motorista, coisas que não diria nem para um desafeto cara a cara? A lataria vira armadura. O trânsito, campo de batalha entre fantasmas que se xingam e buzinam e nunca se encontram de fato.

Dias atrás, um senhor de terno me xingou de tudo quanto é nome porque eu não arranquei no exato milésimo de segundo em que o sinal ficou verde. Eu olhei para o lado e vi a boca dele se mexendo atrás do vidro, mas não ouvi nada. As palavras morriam na barreira do ar condicionado. Ele também não me ouviria se eu respondesse. Duas solidões blindadas, cada uma com seu anel, cada uma com sua raiva particular que não encontra corpo para se materializar.

Na internet o fenômeno é ainda mais nu, mais despudorado. Perfis sem foto, apelidos sem nome, a velha fantasia de opinar sem pagar o preço da opinião. Outra tarde eu li uma discussão nos comentários de uma notícia banal, algo sobre um jogador de futebol que perdeu um pênalti, e o nível de violência nas palavras era de cinema de terror. Um sujeito desejava câncer para o outro porque discordavam de uma escalação. Câncer. Com todas as letras, com a frieza de quem encomenda um sanduíche. E o pior é que não havia ali nenhum monstro evidente. Era um comentarista com avatar de desenho animado e outro com a foto de um cachorro vira lata. Gente comum munida de anéis que mal percebe possuir. Pessoas que provavelmente são educadas na fila do banco, que dão bom dia para o porteiro, que seguram a porta do elevador para o vizinho. Mas que, sob o manto da invisibilidade digital, deixam escorrer um veneno que nem sabiam guardar.

Mas nem só de agressão vive a invisibilidade. Há também o seu oposto estranho, que é a hipervisibilidade voluntária. Uma espécie de fome pelo olhar alheio. Conheço pessoas, eu mesmo já fui assim em fases que prefiro não revisitar, que só se sentem existindo quando estão sendo notadas, comentadas, validadas. Postar o café bonito, a mesa de trabalho arrumada, o treino concluído, o bom gesto do dia. Montar uma vitrine de si e esperar que os outros passem e olhem e aprovem. Isso também é um jeito de sumir. Só que pelo excesso de luz, não pela falta dela. A pessoa se dissolve no personagem que criou para consumo alheio. E a pergunta que fica no ar é se esse personagem, quando a tela escurece e o quarto silencia, consegue se reconhecer.

O filósofo dizia que o homem justo é aquele que age bem mesmo quando ninguém está olhando. Uma definição bonita no papel. Mas o que a gente aprende, cedo ou tarde, com o acúmulo dos anos e dos tropeços, é que ninguém é totalmente justo o tempo todo. E que talvez o critério verdadeiro não seja a santidade no quarto escuro, mas o grau de desconforto que sentimos quando falhamos sozinhos. O incômodo, a vergonha que queima sem testemunha, isso sim é termômetro de alguma coisa. Porque o anel de Giges, no fundo, não cria o mal. Ele só tira a vergonha de praticá-lo.

Minha avó, que mal sabia ler, tinha um ditado para essas coisas. Dizia que o caráter é aquilo que você é no escuro. Durante anos achei a frase bonita e só, dessas que a gente guarda na memória mas não leva a sério. Hoje desconfio que ela falava de algo mais concreto, mais áspero. De um medo bom, desses que seguram a mão antes do erro. Ela não precisava de Platão para entender que o olho dos outros educa, mas o que define é o olho próprio, aquela testemunha interna que não dorme nunca.

Lembrei dela esses dias, ao ver uma notícia sobre câmeras de vigilância sendo instaladas em cada poste. A prefeitura comemorava o feito. Vamos ser filmados o tempo todo, dizia a reportagem, e muita gente aplaudiu. Finalmente os bandidos serão inibidos. Pode ser. Mas senti um arrepio pensando no contrário: e quando formos apenas nós, sem bandido nenhum, e a câmera estiver lá? Vamos precisar dela para não fazer o errado? Se a resposta for sim, então o anel já venceu sem que a gente percebesse. A gente só não notou a derrota.

No fim daquela tarde em que fiquei parado na sala, o controle remoto ainda na mão, o que me trouxe de volta foi o barulho da chave na porta. Minha filha chegando do passeio, a voz perguntando se tinha biscoito. O anel se desfez ali, sem eu precisar fazer nada. E eu respirei aliviado, como quem escapa de um sonho ruim que não consegue lembrar direito. Porque a invisibilidade talvez seja mesmo necessária, por um minuto, por uma tarde, mas o olhar do outro também é. Não para vigiar, não para julgar, não para aplaudir. Apenas para lembrar que a gente existe. E que existir junto, com tudo de canhestro e incômodo que isso tem, ainda é melhor do que sumir sozinho.

Jorge Berg é desembargador do Tribunal Regional do Trabalho da 3ª Região, Conselheiro Benemérito do Clube Atlético Mineiro e Adido Consular Cultural de Luxemburgo em Minas Gerais.

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