Escrevi recentemente uma coluna a respeito de uma matéria publicada pela Gazeta do Povo, do Paraná, sobre o protagonismo de Eduardo Cunha, ex-deputado federal condenado e preso no âmbito da Operação Lava Jato, no vai e vem do Republicanos, notadamente de seu presidente nacional, Marcos Pereira, que primeiro retirou para, em seguida, devolver a legenda ao senador Cleitinho Azevedo para a disputa ao governo de Minas. A reportagem apontou a atuação ostensiva de Cunha nos bastidores, para garantir a candidatura do senador.
A ligação entre o popular TikToker e o candidato que transferiu oportunisticamente seu domicílio eleitoral para Minas, onde não concorrerá diretamente com a filha Dani Cunha, candidata à reeleição à Câmara pelo Rio de Janeiro, já era clara e patente. Mas o que fica clara e patente, agora, é outra ligação “cleitiniana”, com Alexandre Kalil, candidato derrotado por Romeu Zema ainda no primeiro turno da eleição de 2022. Cleitinho e Kalil, supostos adversários na atual disputa, têm mais pontos em comum do que as embalagens deixam transparecer.
O truculento Kalil dispensa apresentações, já que seu passado o precede. Matérias na imprensa a respeito de suas dívidas trabalhistas e fiscais são fartas. Politicamente, rompeu com os antigos partidos aliados, como o PT, quando foi expulso da campanha de Lula na última eleição, e o PSD, sendo tratado atualmente como “traidor”. Kalil coleciona inimigos, como Gabriel Azevedo (MDB) e Mateus Simões (PSD), como quem coleciona rugas pela idade. Agora, disputa a eleição pelo PDT. De Brizola, sim, mas também de Carlos Lupi e companhia.
Esquerda unida 1
Tanto Cleitinho quanto Kalil abraçam pautas populares e populistas tradicionalmente associadas à esquerda. Atacam empresários e setores importantíssimos para a economia mineira, como a mineração e a construção civil, e defendem, por exemplo, o fim da escala 6×1. É curioso, para não dizer “cara de pau”, pois um é empresário – ainda que falido – e o outro dependeu, durante boa parte da vida, deles – o suplente ao Senado está aí para provar. Acho até que poderiam montar uma chapa e adotar a foice e o martelo como símbolo. Que se cuide o PSTU.
Isso não significa que sejam petistas. Significa apenas que são dois oportunistas, incoerentes e que o rótulo de “antissistema”, cuidadosamente cultivado por Cleitinho e historicamente explorado por Kalil, se torna patético quando confrontado com a realidade. Tanto um quanto o outro, como “outsider” e “antissistema”, são mais falsos que uma nota de três reais. Mais sistema que os dois, é praticamente impossível. E ao menos dois exemplos recentes demonstram como a “pureza política” de ambos dura menos que pastel de carne barato em fim de feira.
Cleitinho, o homem que já chamou Eduardo Cunha de “vagabundo”, agora está no mesmo partido – cujo presidente é o indiciado pela PF, Euclydes Pettersen – e no mesmo projeto eleitoral do ex-presidente da Câmara. E Kalil não fica atrás. O homem entrou na política com o slogan “Chega de político. É hora de Kalil”, e hoje é aliado ao PSDB, comandado por Aécio Neves. Sim. Aécio e Kalil estão juntinhos! Inclusive trocando declarações públicas de apreço político após anos e anos de ataques, críticas e enfrentamentos. O amor é lindo, não é mesmo?
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Assim, tudo junto e misturado, noves fora nada, a disputa pelo Palácio Tiradentes vai mostrando uma divisão política cada vez mais óbvia. Cleitinho e Kalil estarão ao lado de Patrus Ananias, candidato do PT. Mateus Simões, por sua vez, representa o campo conservador. Defende com unhas e dentes o combate ao crime organizado, os colégios cívico-militares, o rigor fiscal e a agenda econômica herdada do governo Romeu Zema. Ele até já recebeu – que coisa mais ridícula, credo! – a tal Medalha dos Três Is de Jair Bolsonaro: “imbrochável, imorrível e incomível”.
O governador de Minas também cerra fileiras ao lado de Zema nas duras críticas aos abusos do Supremo Tribunal Federal (STF), enquanto Patrus e seus aliados preferem “passar aquele belo paninho”. Aliás, alguém aí ouviu Cleitinho, Kalil ou Aécio defenderem a liberdade de imprensa no recente caso da quebra do sigilo da fonte de um jornalista no Maranhão, determinada por Alexandre de Moraes, que causou comoção no Brasil inteiro? Porque ser antissistema de palanque é fácil. Difícil é ter coragem de ser antissistema contra o “maior dos sistemas”.
No fim do dia, as eleições mineiras viraram uma grande festa entre amigos – como é mesmo? – progressistas. Cleitinho com Cunha, Kalil com Aécio, cada qual abraçando quem um dia jurou combater e atacando publicamente empresários e setores econômicos que, no privado, correm com os chapéus nas mãos para pedir apoio. E se não há crime algum nisso, há uma tremenda picaretagem ideológica e intelectual. Que assumam a condição de candidatos à esquerda, o que, obviamente, é legítimo e sem qualquer demérito, e parem com essa ladainha de independência.