Guimarães Rosa escreveu, em Grande sertão: veredas, que “O que ela quer da gente é coragem”. A sentença, nascida das inquietações de Riobaldo, contém uma compreensão profunda da existência, pois viver exige, muitas vezes, atravessar o medo, enfrentar aquilo que desconhecemos e encontrar algum sentido nas contradições que nos constituem. Lembrei-me dessas palavras ao conhecer mais profundamente a história de Kayete, uma mulher que fez da própria vida uma afirmação de liberdade e encontrou na arte o caminho para transformar experiências de sofrimento em alegria compartilhada. Há muitos anos, fui entrevistado por ela e guardo daquele encontro a lembrança de uma inteligência extraordinariamente rápida, de uma sagacidade rara e de uma alegria que parecia ocupar todo o ambiente. Já conhecia seu talento para perceber, quase instantaneamente, a dimensão cômica dos acontecimentos. O que não conhecia com a mesma profundidade era a história humana que sustentava aquela presença. Entre o espanto diante de sua inteligência e o assombro provocado pela coragem necessária para conquistar a própria liberdade, encontro hoje uma das trajetórias mais expressivas da cultura popular de Belo Horizonte.
Kayete pertence a uma geração de artistas que precisou abrir caminhos para que a diversidade encontrasse reconhecimento nos palcos, nos meios de comunicação e na convivência cotidiana. Mulher trans, preta, de origem periférica, atriz, humorista, radialista, jornalista, dramaturga e apresentadora, construiu uma carreira que atravessa mais de três décadas e diferentes linguagens artísticas. Sua presença tornou-se familiar a milhares de mineiros, seja nos teatros, nas emissoras de rádio, na televisão ou nas manifestações populares que integram a identidade cultural da cidade. E, embora sua trajetória esteja profundamente relacionada às transformações sociais de nosso tempo, sua grandeza reside também na consistência de uma obra construída com talento, inteligência, trabalho e persistência.
Há uma distinção essencial para compreender sua história. Kayete é a mulher, a artista, a pessoa que conhecemos. Não é uma personagem que desaparece quando termina o espetáculo. As personagens são aquelas que ela interpreta, com a liberdade de quem fez do teatro e da comédia uma profissão. O transformismo e a arte drag participaram de sua formação e permanecem presentes em sua linguagem artística, mas sua identidade não depende da maquiagem, dos figurinos ou da presença de uma plateia. A representação pertence ao ofício teatral; a existência pertence à vida. Essa compreensão permite reconhecer a verdadeira dimensão de seu pioneirismo, pois Kayete conquistou espaços profissionais sendo quem é, em uma sociedade que durante muito tempo impôs obstáculos à presença pública de pessoas trans.
Nascida em Belo Horizonte, em uma família de raízes norte-mineiras, cresceu cercada pelo afeto dos pais, Juarez e Glória. A casa, com suas conversas, refeições compartilhadas e manifestações de carinho, ofereceu uma experiência de pertencimento que se tornaria decisiva diante das dificuldades encontradas no mundo exterior. O pai compreendia que a vida poderia exigir esforços maiores daquela criança sensível, cujos gestos e comportamentos contrariavam as expectativas convencionais. A recomendação para que estudasse e se preparasse expressava a preocupação de quem conhecia as exigências de uma sociedade pouco disposta a acolher diferenças. A mãe, por sua vez, acompanhava com entusiasmo as primeiras manifestações artísticas, quando a música transformava os ambientes domésticos em pequenos palcos.
Uma lembrança particularmente bonita atravessa essa infância. Aos sete anos, ganhou do pai um disco de Gretchen, uma das figuras mais populares da música brasileira naquele período. Em casa, ao som de Conga, Conga, Conga, dançava, experimentava movimentos e reproduzia a exuberância que descobria na televisão. Enquanto parte da família estranhava aquele comportamento, a mãe aplaudia. É um gesto de extraordinária simplicidade, mas seu significado se amplia quando lembramos quantas pessoas LGBTQIA+ cresceram sem encontrar acolhimento sequer dentro da própria casa. O aplauso de Glória não era o de uma plateia convencional. Era uma manifestação de amor diante da liberdade de uma criança.
O mundo exterior, entretanto, apresentava outras exigências. Na escola, durante a década de 1980, a expressão afeminada tornou-se motivo de agressões, apelidos, cadernos rasgados e constrangimentos. A infância, período em que deveriam ser cultivadas as primeiras experiências de convivência, foi também marcada pela descoberta de que determinadas diferenças podiam despertar violência. A escola reproduzia preconceitos que a sociedade ainda não havia aprendido a enfrentar. As práticas hoje reconhecidas como bullying eram frequentemente tratadas como brincadeiras inevitáveis, enquanto aqueles que as sofriam permaneciam sem proteção.
Kayete reconhece que sua alegria também se formou nesse ambiente de dificuldades. Ao recordar aquele período, afirmou: “Sim, também nasceu do respiro do preconceito, quando você é uma criança afeminada, tudo fica mais difícil”.
A memória, entretanto, conserva um acontecimento que considero decisivo para compreender sua trajetória. Ao perceber que não estava sozinha, aproximou-se de outros estudantes igualmente marginalizados. Havia crianças discriminadas pela cor, pelo corpo, pela aparência ou simplesmente por não corresponderem às expectativas dos colegas. A reunião daqueles que permaneciam à margem deu origem a pequenas experiências culturais. Começaram a organizar desfiles, concursos e apresentações durante os intervalos escolares, transformando o recreio em um espaço de criação.
Os resultados foram surpreendentes. Os estudantes que antes eram afastados passaram a despertar a curiosidade dos demais. Alguns daqueles que participavam das humilhações começaram a demonstrar interesse pelas apresentações. A cultura modificava, ainda que temporariamente, as posições ocupadas por cada um naquele ambiente. Aqueles que haviam sido reduzidos à condição de diferentes tornavam-se criadores de acontecimentos compartilhados, conquistando a possibilidade de expressar suas próprias capacidades.
Existe nessa experiência infantil uma antecipação extraordinária de toda a vida artística de Kayete. Antes de compreender as convenções profissionais do teatro, já intuía que a criação podia modificar relações humanas. A arte permitia experimentar outro lugar no mundo, afastando por alguns instantes os julgamentos que organizavam a convivência cotidiana. O reconhecimento conquistado não eliminava necessariamente o preconceito, mas revelava outras possibilidades de relação entre as pessoas.
Ao recordar essa passagem, Kayete afirmou: “Acho que daí entendi que nasci para me comunicar e foi através da dor que me transformei”.
A frase exige uma reflexão cuidadosa. O sofrimento não constitui uma condição necessária à descoberta do talento, tampouco deveria ser romantizado como instrumento de formação humana. Nenhuma criança precisa conhecer a humilhação para desenvolver suas capacidades. O que impressiona na trajetória de Kayete é a resposta que encontrou diante de circunstâncias que poderiam produzir silêncio e isolamento. A cultura lhe ofereceu instrumentos para participar da vida coletiva e construir uma linguagem própria, transformando experiências inicialmente dolorosas em possibilidades de criação.
Talvez resida justamente aí uma das maiores capacidades da arte, presente desde as primeiras manifestações simbólicas da humanidade. Muito antes da existência dos teatros como edifícios, as sociedades já recorriam à música, à dança, às narrativas e às representações rituais para estabelecer relações com o mundo visível e invisível. Ao representar divindades, antepassados, animais e forças da natureza, o ser humano experimentava simbolicamente condições diferentes daquelas que ocupava na vida cotidiana. A criação permitia ultrapassar os limites da experiência imediata e atribuir novos significados à existência.
Na Grécia antiga, o teatro adquiriu uma importância particular ao reunir a comunidade diante dos grandes conflitos da condição humana. A tragédia colocava em cena as tensões entre o indivíduo e a lei, a família e o poder, a liberdade e o destino. O espectador acompanhava experiências que não pertenciam diretamente à sua vida, mas que lhe ofereciam a possibilidade de reconhecer sentimentos e contradições humanas. Ao observar Antígona diante da autoridade de Creonte, por exemplo, podia confrontar diferentes concepções de justiça e dever, percebendo que a ordem estabelecida nem sempre encerrava todas as respostas possíveis.
Séculos depois, no ambiente intelectual e artístico de Florença, a criação da ópera recuperou parte da antiga ambição de reunir música, poesia e ação dramática. As experiências de Jacopo Peri, especialmente Euridice, apresentada em 1600, e posteriormente L’Orfeo, de Claudio Monteverdi, em 1607, revelaram a força de uma linguagem na qual a música ampliava a expressão dos sentimentos e dos conflitos humanos. Não parece casual que o mito de Orfeu esteja presente nesse nascimento. O músico que desce ao mundo dos mortos em busca de Eurídice expressa uma das aspirações mais antigas da criação artística: atravessar, pela imaginação, fronteiras que a existência comum considera intransponíveis.
Inicialmente associada às cortes e aos ambientes aristocráticos, a ópera ampliou sua circulação com a abertura do Teatro San Cassiano, em Veneza, em 1637, quando passou a alcançar também um público pagante. A criação deixava os espaços exclusivos nos quais havia se desenvolvido e adquiria uma dimensão mais ampla de convivência cultural, embora continuasse atravessada pelas desigualdades de seu tempo.
Em Minas Gerais, a Casa da Ópera de Vila Rica, inaugurada em 1770, constitui um testemunho extraordinário dessa tradição. Em uma sociedade colonial profundamente hierarquizada e sustentada pelo trabalho escravizado, o teatro incorporava experiências de representação que, em determinados aspectos, contrariavam convenções estabelecidas. A presença de atrizes no palco, quando ainda predominavam restrições à atuação feminina, representou uma mudança significativa. A história da instituição registra também a participação de artistas negros e mestiços, livres e escravizados, revelando a complexidade de uma sociedade em que a criação artística convivia com estruturas severas de desigualdade.
Essa experiência histórica nos convida a reconhecer uma contradição que acompanha as artes desde suas origens. O palco pode oferecer visibilidade àqueles que a sociedade mantém em posições subordinadas, sem que essa presença signifique necessariamente a transformação das condições concretas de suas vidas. A representação possui possibilidades de liberdade, mas também carrega as limitações do mundo em que acontece.
A antropologia ajuda a compreender essa relação. Victor Turner, ao estudar os rituais e suas conexões com as performances culturais, identificou experiências nas quais as posições habituais dos indivíduos podem ser temporariamente suspensas. Durante determinados acontecimentos coletivos, a ordem cotidiana deixa de parecer absoluta e outras formas de relação se tornam imagináveis. O teatro, a festa, a música e a representação permitem que uma comunidade se observe de outra perspectiva, reconheça suas tensões e experimente simbolicamente possibilidades de transformação.
Quando volto à infância de Kayete, encontro uma expressão concreta desse fenômeno. As crianças marginalizadas que organizaram apresentações escolares estavam criando um espaço em que as relações estabelecidas poderiam ser modificadas. A arte lhes permitiu ocupar o centro de uma experiência coletiva, transformando a condição de espectadores passivos do julgamento alheio na de protagonistas de suas próprias narrativas.
O que começou no recreio de uma escola alcançaria, muitos anos depois, os grandes palcos de Belo Horizonte.
A adolescência ampliou seu repertório de referências artísticas. A teatralidade de Rogéria, a exuberância de Elke Maravilha, a irreverência de Vera Verão, o humor de Nany People e a liberdade estética dos Dzi Croquettes revelavam possibilidades de expressão que ultrapassavam convenções tradicionais. Eram artistas que, em diferentes momentos da história brasileira, transformaram o corpo, o figurino, a voz e a presença cênica em linguagens capazes de provocar, divertir e deslocar as expectativas do público.
Kayete encontrou nessas referências estímulos para desenvolver sua própria expressão. A música, o humor, a caracterização e a capacidade de improvisação começaram a constituir um universo criativo que encontraria uma de suas primeiras manifestações profissionais em uma lanchonete do bairro Glória, em Belo Horizonte.
No antigo Kule Burger, organizou a chamada Noite do Bilhetinho, reunindo frequentadores para pequenas apresentações, brincadeiras e situações de humor. A experiência cresceu de maneira surpreendente, atraindo um público cada vez maior. Seu primeiro pagamento foi um sanduíche e um suco, lembrança que conserva com graça, como se a modéstia daquela recompensa ajudasse a revelar a dimensão do caminho que ainda percorreria.
O reconhecimento de sua capacidade de comunicação abriu as portas do rádio. Um frequentador, impressionado com sua desenvoltura, sugeriu que experimentasse o microfone. Surgiu então a oportunidade de apresentar um programa na OVNI FM, emissora comunitária da região do bairro São José. Era necessário escolher um nome artístico, e da sonoridade de Caio Fernandes, nome pelo qual era conhecida na infância, associada à admiração por Paulette, dos Dzi Croquettes, nasceu Kayete.
O nome acompanhou o início de uma trajetória profissional que gradualmente se tornaria inseparável de sua apresentação pública e de sua identidade pessoal. A história não deve ser interpretada como a invenção de uma pessoa fictícia destinada a substituir outra. Kayete desenvolveu uma linguagem artística e encontrou nela possibilidades de afirmação, mas sua existência como mulher não depende da representação teatral. A maturidade e a liberdade conquistadas ao longo dos anos permitiram que o nome expressasse plenamente a vida que construía.
A descoberta da vida noturna de Belo Horizonte representou outro momento fundamental. Durante décadas em que a diversidade encontrava barreiras muito maiores de reconhecimento, os bares, as boates e os espaços de sociabilidade LGBTQIA+ constituíam territórios de encontro, experimentação artística e construção de relações afetivas. Para muitas pessoas, frequentar esses ambientes significava descobrir que não estavam sozinhas, que outras experiências de vida eram possíveis e que a diferença não precisava ser vivida exclusivamente como isolamento.
O antigo Estação 2000 foi um dos lugares onde Kayete iniciou suas apresentações profissionais. Com figurinos improvisados, roupas emprestadas e uma peruca simples, descobriu que a força de sua presença não dependia de produções sofisticadas. A capacidade de conquistar a plateia estava na inteligência da fala, no ritmo da improvisação e na maneira como percebia as reações das pessoas. O público reconheceu imediatamente sua espontaneidade, e as apresentações passaram a integrar a programação do estabelecimento.
A noite belo-horizontina ofereceu uma formação que merece ser reconhecida como parte da história cultural de Minas Gerais. Artistas como Walkíria La Roche, Marilu Barraginha e Nayla Brizard, entre outras referências de diferentes gerações, contribuíram para construir uma cena de transformismo, humor e arte drag que ampliou as possibilidades de expressão na cidade. Muitas dessas experiências aconteceram fora dos ambientes tradicionalmente consagrados pelas instituições culturais, mas produziram repertórios, formaram plateias e desenvolveram linguagens que posteriormente alcançariam circuitos mais amplos.
Kayete pertence a essa geração de pioneiras. Seu reconhecimento não exige atribuir-lhe uma primazia solitária, desconsiderando as artistas que a antecederam. Sua importância se compreende justamente na continuidade de uma história coletiva, construída por pessoas que enfrentaram resistências para conquistar oportunidades de trabalho e reconhecimento público.
A vida, entretanto, continuava apresentando circunstâncias dolorosas. Em determinada ocasião, quando estava com amigos em uma pizzaria, o proprietário do estabelecimento exigiu que se retirasse simplesmente por sua condição de pessoa LGBTQIA+. Não havia acontecido qualquer conflito que justificasse aquela atitude. A exclusão resultava exclusivamente do preconceito.
Kayete deixou o lugar, sentou-se na calçada e passou a noite chorando. A artista que mais tarde faria milhares de pessoas rirem conheceu, naquele instante, a violência de ser considerada indesejável em um espaço público. A lembrança revela a dimensão concreta de uma discriminação que interferia diretamente na liberdade de circular, conviver e participar da vida social. A humilhação deixou marcas, mas também fortaleceu a decisão de não permitir que o preconceito determinasse o sentido de sua existência.
Ao longo dessa trajetória, o encontro com artistas que admirava ofereceu referências de coragem. Uma delas foi Rogéria, cuja presença já representava um capítulo importante da história do entretenimento brasileiro. Em uma ocasião na qual Kayete se preparava para participar de uma apresentação da artista, recebeu dela uma lição sobre a importância de pronunciar o próprio nome com segurança e exigir respeito à sua presença. O ensinamento, aparentemente simples, possuía uma dimensão humana profunda. Para alguém que conhecera a experiência de ser constrangida pela diferença, aprender a apresentar-se publicamente com firmeza significava reconhecer que a própria identidade não precisava ser acompanhada de justificativas.
Essas experiências encontrariam no teatro uma possibilidade de amadurecimento profissional.
A formação em Artes Cênicas, associada aos estudos em Jornalismo e Ciências Contábeis, acrescentou instrumentos técnicos à experiência adquirida nos espaços populares. O domínio da interpretação, da comunicação e da organização de projetos permitiu que sua espontaneidade encontrasse uma linguagem profissional consistente.
O espetáculo As Barbeiras, de Wesley Marchiori, com direção de Freddy Mozart, tornou-se um dos marcos decisivos dessa trajetória. A comédia reuniu, em sua formação inicial, Kayete, Marilu Barraginha e Nayla Brizard, atravessando posteriormente diferentes temporadas e configurações de elenco. A história de três amigas que, diante das dificuldades econômicas, precisam abandonar um salão de beleza sofisticado para administrar uma barbearia em Venda Nova explora comportamentos, diferenças sociais e situações reconhecíveis da vida cotidiana de Belo Horizonte.
A própria geografia da narrativa possui significado. O deslocamento entre os espaços associados à sofisticação da cidade e os bairros de sua região norte oferece matéria para uma comicidade que observa hábitos, costumes e contradições sociais. O humor nasce do encontro entre personagens que procuram preservar determinadas aparências e circunstâncias que continuamente desorganizam suas expectativas.
A montagem alcançou uma longevidade extraordinária. Segundo a memória da própria Kayete, foram cerca de doze anos de apresentações, frequentemente com sessões lotadas e uma relação de grande fidelidade com o público. O espetáculo também representou uma conquista de autonomia material, permitindo que a artista alcançasse estabilidade profissional e consolidasse sua presença no teatro popular.
Entretanto, o sucesso foi antecedido por resistências. Kayete recorda as dificuldades enfrentadas para encontrar profissionais dispostos a dirigir uma montagem protagonizada por artistas ligados ao transformismo. O preconceito se manifestava inclusive no interior do ambiente teatral, revelando que a criação artística nem sempre está livre das convenções e desigualdades reproduzidas pela sociedade.
A resposta do público demonstrou a fragilidade dessas barreiras. As Barbeiras conquistou plateias, atravessou temporadas e se tornou parte da memória da comédia belo-horizontina. Sua trajetória ajudou a ampliar as possibilidades profissionais de artistas LGBTQIA+, mostrando que o talento e a qualidade de uma obra poderiam alcançar públicos muito mais diversos que aqueles inicialmente frequentadores da cena noturna.
Esse reconhecimento está profundamente relacionado à história da Campanha de Popularização do Teatro e da Dança, iniciada em Belo Horizonte em 1975. Ao longo de décadas, a iniciativa contribuiu para a formação de plateias, a circulação de espetáculos e a consolidação de carreiras artísticas. A capital mineira construiu uma relação particular com a comédia popular, fortalecida por profissionais que fizeram do humor uma expressão reconhecível da vida cotidiana.
Kayete participou ativamente dessa tradição e contribuiu para ampliá-la. Sua presença demonstrou que a cultura popular não pode ser medida apenas pelo prestígio dos ambientes em que se apresenta, pois a qualidade artística se manifesta também na capacidade de estabelecer relações duradouras com o público. Fazer rir exige observação, disciplina, domínio da cena, percepção do tempo dramático e uma inteligência particular das relações humanas.
Seu repertório revela uma experiência que ultrapassa as fronteiras de um único gênero. Em O Dia do Babado, dirigido por Ílvio Amaral, aprofundou a comicidade que se tornaria uma de suas marcas. Em A Invasão, de Dias Gomes, sob direção de Luciano Luppi, encontrou uma dramaturgia relacionada às tensões sociais. Também integrou montagens como As Sereias da Zona Sul, de Miguel Falabella, e Se os Homens São Todos Iguais, Por Que as Mulheres Escolhem Tanto?, de Wesley Marchiori, na qual interpretou Mércia, uma mulher que, depois de sucessivas decepções amorosas, se prepara para a possibilidade de encontrar um novo relacionamento.
A personagem de Mércia revela uma das qualidades mais interessantes da atriz. Kayete encontra humor nas expectativas afetivas, nas pequenas frustrações e nas contradições que acompanham a experiência humana de amar. Seus personagens não se sustentam exclusivamente na caracterização exterior, mas na percepção de comportamentos que o público reconhece como parte de sua própria vida.
Outro marco importante foi Guara-pa-rir, comédia de Ronaldo Ciambroni, dirigida por Ílvio Amaral e Maurício Canguçu, na qual divide o palco com Guilherme Oliveira. A história de um casal mineiro durante as férias no litoral capixaba parte de uma experiência profundamente conhecida por diferentes gerações de habitantes de Minas Gerais. Guarapari, durante décadas, tornou-se uma espécie de extensão afetiva das férias de milhares de famílias mineiras, oferecendo à dramaturgia um universo de costumes, linguagens e situações reconhecíveis.
A parceria com Guilherme Oliveira encontrou na observação da vida cotidiana uma fonte generosa de comicidade. Os hábitos familiares, as expectativas de descanso, as diferenças de comportamento e os pequenos conflitos da convivência transformaram-se em situações nas quais o público reconhecia aspectos de sua própria experiência.
Guara-pa-rir alcançou expressivo sucesso de público. Os materiais da Campanha de Popularização registram a conquista do Prêmio Copasa-Sinparc de Maior Público em 2015, e divulgações posteriores mencionam mais de trezentos mil espectadores ao longo de sua trajetória. A premiação pertence ao espetáculo e à realização coletiva de seus profissionais, constituindo um reconhecimento importante da consistência da comédia popular produzida em Minas Gerais.
A parceria com Guilherme Oliveira prosseguiu em outras montagens, entre elas Os Emergentes, que também encontrou matéria no comportamento social e nas aspirações cotidianas. Em Deboche, a Comédia, ao lado de Thiago Comédia, Kayete ampliou sua atuação como autora e diretora. Em 3x Comédia, com Anderson Profeta e Thiago Comédia, estabeleceu diálogo com uma geração de humoristas que transita com facilidade entre o palco, o rádio e as plataformas digitais.
A relação profissional com Carlos Nunes, outra referência da comédia belo-horizontina, acrescentou um capítulo importante à sua trajetória. Em Aperte o Play e Só… Ria, com texto de Fernando Veríssimo, Carlos Nunes e Kayete, os artistas percorrem diferentes épocas e situações humanas, interpretando personagens que transitam da pré-história à contemporaneidade. O espetáculo reúne figuras tão distintas quanto personagens pré-históricos, aeromoças atrapalhadas, senhoras que se reencontram em circunstâncias inesperadas e pessoas em situação de rua, explorando o absurdo e a comicidade presentes nas relações sociais.
A continuidade dessa parceria, com novas apresentações anunciadas para 2026, revela uma carreira que permanece em atividade, sem se limitar à celebração de sucessos anteriores. Kayete continua encontrando personagens, experimentando situações e estabelecendo relações profissionais que demonstram sua disposição para renovar o próprio trabalho.
Essa vitalidade também aparece em sua participação em As Hilárias, espetáculo que reuniu Kayete, Suzy Brasil e Karoline Absinto no Teatro Sesiminas, em outubro de 2026. A montagem aproximou diferentes experiências do humor drag contemporâneo, combinando improvisação, apresentações individuais e situações coletivas. Ao compartilhar a cena com artistas de outras trajetórias, Kayete reafirma sua presença em uma linguagem que continua se transformando e conquistando novas plateias.
Sua contribuição, entretanto, não se limita à interpretação. Kayete desenvolveu também experiências como apresentadora de espetáculos, autora e articuladora de projetos culturais. Em Fala Comigo, apresentado em 2010, reuniu entrevistas, música e intervenções teatrais, antecipando formatos que mais tarde encontrariam grande circulação nos meios digitais.
Uma de suas realizações mais interessantes aconteceu durante a pandemia de Covid-19. Em 2020, quando o fechamento dos teatros interrompeu a atividade de milhares de profissionais das artes cênicas, Kayete encontrou na dramaturgia uma maneira de enfrentar o isolamento e estimular outros artistas. Em parceria com o Culturadoria, idealizou o Festival Mini Cenas Web, reunindo intérpretes convidados para apresentar pequenas cenas especialmente produzidas para circulação digital.
A iniciativa revelou uma faceta de sua formação que ainda não havia recebido o mesmo reconhecimento público de suas atuações como atriz e humorista. Kayete escreveu textos, concebeu situações dramáticas, dirigiu interpretações e convidou colegas para participar de uma experiência coletiva de criação. Entre os profissionais envolvidos estiveram Carlos Nunes, Wesley Marchiori, Gorete Milagres, Gustavo Mendes, Fernando Veríssimo, Bianca Tocafundo, Marcelo Veronez, Maurício Canguçu, Ílvio Amaral, Ronaldo Fraga e outros nomes da cena mineira e brasileira.
Embora sua carreira estivesse profundamente associada à comédia, as cenas também abordavam conflitos familiares, solidão e experiências humanas atravessadas pela fragilidade. A artista reconheceu naquele período o prazer de escrever e de dar existência a personagens que, durante anos, haviam permanecido apenas em sua imaginação.
O festival demonstra uma qualidade que atravessa toda a sua história. Diante de circunstâncias adversas, Kayete procura construir experiências coletivas. A mesma intuição que, na infância, reunira estudantes excluídos para produzir cultura reaparecia décadas depois, agora na forma de um projeto destinado a preservar a atividade criadora durante uma crise mundial.
Se o teatro consolidou sua carreira como atriz, o rádio tornou Kayete uma presença cotidiana na vida de milhares de mineiros.
Da experiência inicial na OVNI FM, passou por emissoras como Transamérica, 98 FM e Extra FM, até consolidar sua trajetória na BH FM, integrante do Sistema Globo de Rádio. Na 98 FM, participou de experiências de humor radiofônico como o Silicone Show. Na Extra FM, ampliou sua relação com a comunicação popular, desenvolvendo um estilo profundamente identificado com a espontaneidade e a proximidade do público belo-horizontino.
Na BH FM, tornou-se uma das vozes mais reconhecidas da programação, participando de atrações como Alô BH, Top Hits Brasil e Cassino da Kayete. Sua comunicação reúne informação, música, comentários, humor e participação dos ouvintes, construindo uma relação de intimidade que ultrapassa a transmissão convencional de conteúdos.
O rádio oferece à artista uma possibilidade particular de expressão. Sem os recursos visuais do teatro, a voz assume a função de construir ambientes, personagens e situações. As mudanças de entonação, a musicalidade das frases, as pausas e as respostas inesperadas produzem imagens na imaginação do ouvinte. Kayete transforma o microfone em uma extensão do palco, mas preserva a naturalidade da conversa cotidiana.
O Cassino da Kayete sintetiza essa experiência. Inspirado na tradição irreverente dos grandes programas populares de auditório, especialmente na liberdade cênica de Chacrinha, reúne entrevistas, brincadeiras, música e participação direta dos ouvintes. A atração recupera uma dimensão afetiva da comunicação brasileira, na qual o entretenimento se constrói pelo encontro e pela cumplicidade.
Em setembro de 2024, o programa ampliou sua circulação com a transmissão em rede pela BH FM e pela Rádio Globo, no Rio de Janeiro. A artista que começara em uma emissora comunitária passava a alcançar também o público de outra grande capital brasileira, preservando a espontaneidade e a identidade cultural que haviam caracterizado suas primeiras experiências.
Essa trajetória também encontrou expressão na escrita, especialmente em projetos associados aos Conselhos da Kayete, nos quais o humor e a observação do cotidiano se aproximam de reflexões sobre relacionamentos e experiências pessoais.
Em 2025, ampliou sua presença nas plataformas digitais com o projeto No Sofá da Kayete, desenvolvido em parceria com as rádios BH FM e Globo. O programa de entrevistas combina a espontaneidade característica da apresentadora com conversas mais longas sobre vida, carreira e experiências pessoais. O formato demonstra sua capacidade de acompanhar as transformações tecnológicas sem abandonar aquilo que sempre sustentou sua relação com o público. A comunicação permanece fundada no encontro humano, agora ampliado pelas possibilidades de circulação digital.
Ao longo da carreira, também acumulou experiências na televisão, inclusive como repórter do SBT, atividade que exerceu durante oito anos. Foi colunista da revista Super TV, com a coluna Babados da Kayete, e participou de diferentes produções e programas de entretenimento, ampliando sua presença para além dos palcos e do rádio.
No audiovisual mineiro, uma experiência especialmente significativa foi a participação na série As Mineiras, Uai, criada por Silvio Cerceau e dirigida por Márcio Trigo. A produção reúne histórias de mulheres de diferentes regiões de Minas Gerais, valorizando a diversidade das paisagens, dos comportamentos e das experiências femininas do interior do estado.
Kayete interpreta Duda, protagonista do episódio A Oferecida do Jequitinhonha, uma mulher trans que vive no Vale do Jequitinhonha e cuja personalidade se caracteriza pela generosidade, pelo desejo de ajudar os outros e pela busca do amor. Duda é profundamente querida pelos pais, que não fazem de sua identidade de gênero um motivo de conflito. A preocupação familiar está relacionada à vida afetiva da filha, numa abordagem que desloca a personagem das narrativas convencionais de rejeição e sofrimento.
A escolha possui relevância artística e cultural. Silvio Cerceau escreveu a personagem especialmente para Kayete, reconhecendo seu talento e sua capacidade de dar vida a uma mulher cuja experiência ultrapassa as questões relacionadas à identidade de gênero. Duda possui desejos, afetos, vínculos familiares e contradições próprias, oferecendo à atriz a possibilidade de construir uma interpretação fundada na complexidade humana.
É justamente nesse trabalho que se revela, com clareza, a distinção entre identidade e representação. Kayete é uma mulher trans que interpreta Duda, outra mulher trans, mas ambas possuem histórias diferentes. A experiência pessoal da atriz pode oferecer sensibilidade à construção da personagem, assim como acontece com qualquer intérprete, mas o trabalho exige elaboração artística, domínio técnico e liberdade de criação.
A representação de personagens trans em histórias que não se organizam exclusivamente em torno da violência constitui uma contribuição importante à dramaturgia contemporânea. A experiência humana dessas pessoas também é formada pelo amor, pela família, pelo trabalho, pelos desejos, pelas decepções e pelas pequenas circunstâncias da vida cotidiana. Reconhecer essa complexidade é uma maneira de evitar que a identidade seja transformada na única dimensão possível de uma personagem.
Há, nesse sentido, uma dimensão íntima que merece ser considerada. A mulher conhecida pela exuberância pública conserva uma relação profundamente afetiva com a família, as amizades e as pessoas que ama. Sua história com o marido, conhecido como Tigrão, possui a delicadeza dos encontros inesperados. Conheceram-se depois de uma apresentação teatral, quando ele aguardava para tirar uma fotografia. Kayete recorda que, naquele instante, experimentou a impressão de estar diante de alguém que teria grande importância em sua vida. Ao descobrir que ele enfrentava um tratamento de saúde, não se afastou. A aproximação se transformou em relacionamento, construído também na experiência do cuidado e da solidariedade.
O episódio revela uma dimensão de Kayete que não se percebe inteiramente nos palcos. A irreverência e o humor convivem com uma disposição generosa para os afetos. A vida não se organiza exclusivamente em torno do reconhecimento profissional, pois a experiência do amor, da família e das relações humanas constitui parte essencial de sua realização.
Em entrevistas, ao falar sobre seus sonhos e receios, Kayete reconhece o desejo de continuar criando, de conduzir um programa próprio de entrevistas na televisão e de aprofundar sua relação com a escrita. Mas identifica também, entre seus maiores medos, a possibilidade de perder as pessoas que ama. A resposta revela a humanidade que existe por trás de uma presença pública tão expansiva. A celebridade não elimina a fragilidade humana, assim como o reconhecimento profissional não substitui a necessidade de pertencimento e afeto.
Sua relação com Belo Horizonte também se manifesta nas iniciativas de solidariedade das quais participa. Como madrinha artística da Santa Casa, Kayete mobilizou sua popularidade para apoiar projetos de interesse coletivo. Em março de 2024, celebrou trinta anos de carreira com o espetáculo Sofá da Kayete, realizado no Cine Theatro Brasil Vallourec, reunindo artistas como Flávio Venturini, Akatu, Anderson Profeta, Thiago Comédia, Glauber Cunha e Nayla Brizard. A renda da apresentação foi destinada à instituição hospitalar.
A comemoração transformou uma conquista individual em oportunidade de participação coletiva. A popularidade alcançada ao longo de décadas permitiu reunir profissionais, instituições e diferentes públicos em torno de uma iniciativa que ultrapassava os limites do entretenimento.
Em 2026, Kayete recebeu outra homenagem significativa ao ser escolhida madrinha da Banda Mole, uma das manifestações mais tradicionais do carnaval de Belo Horizonte. A escolha possui um significado afetivo particular, pois a artista recorda que frequentava o bloco na infância, acompanhada do pai. Décadas depois, retornou à mesma manifestação como uma de suas figuras de referência, participando da retomada do cortejo pelas ruas centrais da cidade.
Há uma beleza especial nessa passagem. A criança que observava a alegria coletiva ao lado do pai tornou-se uma mulher reconhecida pela contribuição que ofereceu à própria cultura popular de Belo Horizonte. A festa, com sua irreverência, sua liberdade de expressão e sua capacidade de reunir diferentes grupos sociais, encontrou em Kayete uma personalidade profundamente identificada com sua história.
Seu reconhecimento também começou a adquirir maior densidade acadêmica. A Universidade Federal de Minas Gerais tem desenvolvido pesquisas e iniciativas de memória sobre a história da arte drag e do transformismo na capital. Kayete aparece entre os nomes que contribuíram para ampliar a presença dessas linguagens e fortalecer uma cena cultural que, durante muito tempo, encontrou pouco espaço nos registros tradicionais sobre a história do teatro mineiro.
Na Universidade Federal de Ouro Preto, os pesquisadores Karlo Daniel Rodrigues e Debora Cristina Lopez apresentaram, em 2025, o estudo Performances de Gênero no Rádio de Belo Horizonte: Conhecendo Kayete Fernandes. A investigação examina sua trajetória como mulher trans e comunicadora, considerando as transformações das identidades e das formas de representação em um ambiente historicamente marcado pela predominância de vozes masculinas cisgênero.
A pesquisa possui relevância especial porque situa a presença de Kayete em uma história mais ampla da comunicação brasileira. O rádio, tradicionalmente associado a determinados padrões de voz, autoridade e comportamento, também passou a incorporar profissionais cujas experiências desafiaram convenções estabelecidas. A presença cotidiana de uma mulher trans em programas de grande alcance contribui para ampliar as referências disponíveis ao público e modificar a maneira como diferentes identidades participam da comunicação social.
Esses estudos ajudam a compreender sua trajetória, mas nenhuma interpretação acadêmica substitui a singularidade de uma vida. Kayete não existe para ilustrar uma teoria sobre identidade, gênero ou comportamento. Sua experiência antecede as explicações que construímos sobre ela e possui uma riqueza que não pode ser inteiramente reduzida a categorias conceituais.
A diversidade não constitui um acontecimento excepcional da vida humana. Desde suas origens, as sociedades desenvolveram diferentes línguas, crenças, costumes, sistemas de parentesco, formas de organização social e maneiras de compreender o mundo. Não conhecemos uma humanidade culturalmente uniforme. A história dos povos é também a história da pluralidade de suas experiências e dos diferentes significados que atribuíram à existência.
Reconhecer essa diversidade não significa afirmar que todas as sociedades compartilham as mesmas concepções morais ou que as diferenças nunca produzam conflitos. Ao contrário, os confrontos entre valores fazem parte da própria história humana. A convivência exige, precisamente por isso, a construção de princípios capazes de assegurar a dignidade das pessoas mesmo quando suas experiências e convicções são distintas.
A arte ocupa um lugar singular nesse processo. Ao representar comportamentos, sentimentos e identidades diferentes daqueles que uma sociedade considera habituais, pode provocar desconforto, resistência e incompreensão. O espectador é colocado diante de experiências que desafiam suas referências e, por vezes, suas próprias certezas.
Talvez seja essa uma das razões pelas quais a criação artística se tornou, em tantos momentos da história, objeto de disputas religiosas, morais, culturais e políticas. A arte possui a capacidade de deslocar o indivíduo de seu lugar habitual de compreensão do mundo. E, quando esse deslocamento atinge valores compartilhados, pode desacomodar grupos e segmentos inteiros da sociedade.
A representação não se limita a confirmar aquilo que já conhecemos. Muitas vezes, apresenta possibilidades de existência que ainda não encontraram reconhecimento na vida cotidiana. A literatura, o teatro, a música e as manifestações populares deram voz a conflitos e experiências que as instituições de determinadas épocas procuravam silenciar.
Nietzsche, em O nascimento da tragédia, reconheceu na tensão entre as forças apolíneas e dionisíacas uma dimensão essencial da criação artística. A forma e o impulso, a medida e a intensidade da vida participam de uma experiência que não pode ser reduzida inteiramente às convenções da racionalidade cotidiana. A tragédia, na interpretação do filósofo, permitia ao ser humano confrontar o sofrimento e as contradições da existência sem renunciar à possibilidade de afirmá-la.
Essa compreensão ajuda a perceber que a arte pode possuir uma função profundamente inquietadora. Sua grandeza não reside apenas na beleza que oferece, mas também na capacidade de tornar visíveis aspectos da experiência humana que nossas certezas prefeririam ignorar.
Entretanto, a liberdade artística não elimina a possibilidade de discordância. Uma sociedade plural deve reconhecer o direito de seus integrantes possuírem diferentes interpretações estéticas, morais, filosóficas e religiosas. Ninguém é obrigado a apreciar determinada obra, compartilhar a visão de um artista ou abandonar suas convicções diante de uma representação cultural.
A convivência democrática se torna possível justamente quando essas diferenças não são transformadas em fundamento para negar a dignidade das pessoas. O direito de discordar de uma expressão artística não autoriza a humilhação de quem a produz, assim como a liberdade de criação não depende da uniformidade de pensamento do público.
Essa distinção me parece especialmente necessária no mundo contemporâneo, quando tantas divergências são rapidamente transformadas em antagonismos irreconciliáveis. A polarização tende a reduzir pessoas e experiências a categorias rígidas, dificultando a compreensão da complexidade humana. A arte, ao contrário, pode nos oferecer a oportunidade de reconhecer essa complexidade, permitindo que convivamos simbolicamente com existências diferentes das nossas.
Há também uma dimensão espiritual que merece consideração. As tradições religiosas desenvolveram, ao longo dos séculos, diferentes interpretações sobre a existência, a moral e o lugar do ser humano no mundo. Suas divergências não podem ser simplesmente ignoradas, mas o reconhecimento da dignidade humana pode constituir um terreno de encontro entre sensibilidades religiosas e não religiosas.
Na tradição cristã, Santo Irineu de Lyon escreveu que “a glória de Deus é o homem vivo”, associando a plenitude da vida humana à experiência do sagrado. A formulação pertence ao pensamento teológico do século II e não deve ser retirada de seu contexto para resolver controvérsias que lhe eram desconhecidas. Ainda assim, oferece uma imagem importante da centralidade da vida concreta na reflexão espiritual. O respeito à pessoa humana pode encontrar fundamentos distintos em diferentes tradições, sem exigir que todas compartilhem a mesma compreensão do mundo.
A experiência de Kayete permite aproximar essas questões da realidade cotidiana. Sua trajetória não exige que pessoas de diferentes convicções pensem como ela, vivam como ela ou compartilhem integralmente sua experiência. O que sua presença demonstra é a possibilidade de reconhecer o talento, a inteligência e a humanidade de alguém cuja história talvez seja profundamente diferente da nossa.
Um espectador pode entrar no teatro trazendo convicções religiosas, morais e culturais que não coincidem com as experiências da artista. Durante o espetáculo, entretanto, pode reconhecer nela uma intérprete extraordinária, rir de situações familiares, emocionar-se com uma personagem e descobrir sentimentos que não esperava compartilhar. A experiência artística estabelece uma relação que não depende necessariamente da concordância prévia entre aqueles que participam dela.
A transformação não acontece de maneira automática. A história demonstra que sociedades capazes de admirar artistas pertencentes a grupos marginalizados podem continuar discriminando pessoas desses mesmos grupos em suas relações cotidianas. A aceitação de uma representação no palco não significa, por si, o reconhecimento da dignidade daqueles que compartilham experiências semelhantes fora dele.
Mas a convivência artística pode ampliar sensibilidades. O indivíduo inicialmente percebido como diferente torna-se familiar, próximo e reconhecido por suas qualidades humanas e profissionais. A experiência de compartilhar o riso ou a emoção permite que determinadas percepções sejam modificadas antes mesmo de encontrar formulações intelectuais mais elaboradas.
Kayete compreende essa dimensão de seu trabalho. Ao refletir sobre sua geração e os espaços conquistados, afirmou que a responsabilidade aumenta quando se apresenta diante de um teatro lotado, reunindo pessoas de diferentes classes sociais, origens e formas de vida. E acrescentou que “a arte pode sim divertir e ainda passar uma mensagem e assim vamos transformando a nossa cidade para viver na diversidade”.
A declaração revela uma consciência cultural amadurecida. O humor não precisa abandonar o divertimento para alcançar profundidade, assim como a reflexão social não exige a renúncia à alegria. Muitas vezes, a transformação acontece de maneira mais sutil, na relação construída entre o artista e o público, na identificação com uma personagem ou na descoberta de que aquilo que parecia distante também participa da experiência humana.
Há uma dimensão filosófica importante no próprio riso.
Henri Bergson, em seu estudo sobre a comicidade, compreendeu o riso como um fenômeno profundamente relacionado à vida coletiva. Rimos em sociedade, compartilhando referências, reconhecendo comportamentos e percebendo o inesperado nas situações cotidianas. Mas o riso possui uma natureza contraditória. Pode aproximar ou afastar pessoas, produzir reconhecimento ou humilhação, revelar a fragilidade humana ou transformá-la em motivo de escárnio.
Kayete conheceu essas duas possibilidades.
Na infância, foi alvo de um riso cruel, utilizado para constranger sua diferença e estabelecer hierarquias entre os estudantes. Na vida adulta, transformou o humor em linguagem profissional e experiência de convivência. Aquilo que inicialmente servira para feri-la tornou-se, por meio de seu talento, uma atividade criadora capaz de reunir plateias e estabelecer relações de afeto.
Essa transformação não significa que as experiências dolorosas tenham desaparecido ou perdido sua gravidade. Revela, antes, a capacidade de atribuir ao riso um sentido inteiramente diferente daquele que conhecera durante a infância.
A comicidade de Kayete se sustenta nessa inteligência particular das relações humanas. Sua sagacidade não depende exclusivamente da surpresa ou do exagero, mas da observação atenta dos comportamentos. Existe nela uma capacidade de perceber pequenas contradições, de reconhecer o inesperado nas conversas e de produzir humor sem perder a proximidade com as pessoas.
É justamente essa qualidade que sempre me impressionou.
Quem convive com Kayete encontra uma personalidade de alegria contagiante, acompanhada de uma inteligência que parece antecipar os movimentos da conversa. Sua presença modifica o ambiente porque estabelece cumplicidade com aqueles que estão ao redor. O humor nasce de uma percepção sensível da vida, construída pela experiência, pela escuta e pelo contato permanente com pessoas de diferentes origens.
Mas a exuberância pública não elimina as dimensões mais reservadas da personalidade.
Em uma de suas respostas mais reveladoras, Kayete afirmou: “O Caio acredite, sempre foi tímido”.
A lembrança da timidez da infância permite compreender a complexidade humana existente por trás da artista que conhecemos. A capacidade de enfrentar plateias numerosas, conduzir programas de rádio e comunicar-se com espontaneidade não significa necessariamente que todas as inseguranças tenham desaparecido. O desenvolvimento da vida pessoal e profissional permitiu ampliar as possibilidades de expressão, construindo uma liberdade que não se encontrava inteiramente disponível durante os primeiros anos da existência.
É importante compreender essa passagem sem transformar a identidade de Kayete em uma oposição artificial à memória de sua infância. A pessoa que conheceu a timidez e a mulher que hoje admiramos pertencem à continuidade de uma mesma vida. O que se modificou foram as condições de liberdade, os instrumentos de expressão e a capacidade de reconhecer-se publicamente.
Quando lhe perguntei o que sua trajetória lhe permitiu conquistar, Kayete respondeu que aprendeu que “é possível ser feliz a sua maneira, não precisa se esconder de ninguém”.
A afirmação contém uma compreensão profundamente humana da felicidade.
Ser feliz à própria maneira significa reconhecer que a existência admite diferentes formas de realização, afetividade, identidade e expressão. A felicidade não se limita ao reconhecimento profissional, às conquistas materiais ou à ausência de dificuldades. Envolve também a possibilidade de viver sem que a própria identidade precise permanecer continuamente submetida ao julgamento dos outros.
A liberdade de ser quem se é constitui uma das grandes questões de nosso tempo. Os avanços no reconhecimento de direitos ampliaram as possibilidades de existência de muitas pessoas, mas continuam incompletos diante das desigualdades e das experiências de discriminação que atravessam a sociedade brasileira.
A presença crescente de pessoas LGBTQIA+ nos meios de comunicação e nas artes representa uma conquista importante, mas não elimina as dificuldades enfrentadas por grande parte dessa população, especialmente por pessoas trans, pretas e periféricas. A visibilidade de algumas personalidades reconhecidas não pode substituir a necessidade coletiva de garantir educação, trabalho, segurança, oportunidades e dignidade.
É nesse contexto que o pioneirismo de Kayete adquire sua verdadeira extensão.
Sua contribuição não se resume à condição de mulher trans que conquistou reconhecimento público. Está na qualidade do trabalho que desenvolveu, nos espaços profissionais que ajudou a ampliar, nas relações que construiu e na possibilidade de oferecer às novas gerações a experiência concreta de uma vida realizada sem a renúncia à própria identidade.
A história de Belo Horizonte seria culturalmente menos diversa sem a contribuição dessa geração de artistas. A capital não se constrói apenas por seus monumentos, edifícios e instituições, mas também pelas vozes que acompanham a vida cotidiana, pelos personagens que permanecem na memória das plateias, pelas festas que reúnem sua população e pelas experiências culturais nascidas em ambientes que nem sempre receberam reconhecimento institucional.
Kayete pertence profundamente a essa geografia afetiva da cidade. Sua trajetória atravessa o bairro Glória, as rádios comunitárias, as casas noturnas, os teatros da Campanha de Popularização, o Cine Theatro Brasil Vallourec, o Palácio das Artes e as ruas onde o carnaval transforma o espaço público em lugar de encontro.
A mineiridade também se manifesta nessa pluralidade de experiências. Não se encontra apenas nas tradições mais conhecidas, na memória das cidades históricas ou nas expressões consagradas pelas instituições. Vive igualmente no teatro popular, no humor, na comunicação radiofônica, nas manifestações LGBTQIA+, nas culturas das periferias e nas diferentes maneiras de participar da vida coletiva.
A trajetória de Kayete nos convida a ampliar a compreensão sobre o próprio patrimônio cultural. A memória de uma cidade também pertence aos artistas que criam linguagens, constroem vínculos e transformam experiências pessoais em referências compartilhadas por uma comunidade.
Depois de mais de três décadas de trabalho, Kayete conquistou um lugar na história cultural e na memória afetiva de Belo Horizonte. Seus espetáculos alcançaram públicos numerosos, seus programas de rádio acompanharam diferentes gerações de ouvintes, seus projetos reuniram profissionais e sua presença contribuiu para modificar as possibilidades de reconhecimento da diversidade.
Essa trajetória, entretanto, permanece aberta. O interesse por novas linguagens, o desenvolvimento de projetos de comunicação, a experiência com a dramaturgia e a continuidade de apresentações teatrais revelam uma artista que não se satisfaz com a repetição dos próprios sucessos. A maturidade acrescentou instrumentos à espontaneidade inicial, permitindo que o talento se desenvolvesse sem perder sua identidade.
A longevidade de uma carreira artística exige qualidades que frequentemente permanecem invisíveis ao público. O reconhecimento depende de trabalho, disciplina, capacidade de adaptação, inteligência profissional e disposição para estabelecer relações duradouras. Kayete soube atravessar transformações profundas na comunicação, nos costumes e nas formas de produção cultural, preservando sua capacidade de criar e estabelecer vínculos.
Mas talvez a dimensão mais interessante de sua história permaneça na relação entre coragem e alegria.
Ao longo da vida, Kayete conheceu experiências que poderiam ter produzido ressentimento e isolamento. A criança que sofreu humilhações na escola, a jovem expulsa de uma pizzaria e a artista que enfrentou resistências profissionais poderiam ter construído uma relação inteiramente defensiva com o mundo. Sua trajetória revela, entretanto, uma disposição persistente para o encontro, para o trabalho coletivo e para a criação.
Essa atitude não elimina as contradições da existência nem transforma a vida em uma sucessão de acontecimentos felizes. A alegria de Kayete parece nascer justamente do conhecimento dessas contradições e da decisão de não permitir que elas ocupem todo o espaço de sua experiência humana.
Volto, então, à entrevista que me concedeu há tantos anos. Naquela ocasião, era eu quem respondia às perguntas. Agora, ao escrever sobre sua vida, encontro-me diante de uma história que me permite compreender com maior profundidade aquilo que sempre admirei em sua personalidade.
A inteligência rápida, a sagacidade e a alegria que reconheci naquele encontro pertencem a uma mulher que atravessou experiências difíceis para conquistar a liberdade de viver à própria maneira. O que inicialmente me impressionava como talento revela também uma forma de sabedoria, construída no convívio com as pessoas, no enfrentamento das adversidades e na capacidade de continuar oferecendo alegria ao mundo.
Há uma dimensão revolucionária nessa existência, mas sua força não se encontra na imposição de uma identidade sobre outras, de uma convicção sobre outras ou de um grupo sobre os demais. Está na ampliação das possibilidades de convivência. Kayete ajudou a demonstrar que pessoas de origens, gerações e crenças diferentes podem compartilhar uma experiência de arte e reconhecimento sem precisar eliminar suas diferenças.
Talvez seja justamente essa a contribuição mais profunda da cultura. A arte nos oferece a oportunidade de sair, ainda que por alguns instantes, do lugar onde nossas certezas nos colocaram, permitindo que observemos o mundo por outra perspectiva. Pode incomodar, provocar divergências e desestabilizar convenções, porque a criação também participa das transformações da sociedade. Mas essa inquietação não precisa resultar em hostilidade. Pode abrir caminhos para uma compreensão mais ampla da existência humana.
A história de Kayete demonstra que essa possibilidade não constitui apenas uma abstração filosófica. Acontece concretamente quando uma plateia reconhece o talento de uma artista, quando um ouvinte encontra alegria numa voz familiar ou quando uma criança descobre, pela primeira vez, que sua diferença não precisa condená-la à solidão.
Ao final de nossa conversa sobre sua trajetória, Kayete afirmou que leva consigo a vontade de continuar enfrentando e vencendo desafios “com muito gliter e coragem”.
A expressão reúne, com a irreverência que lhe é própria, uma compreensão extraordinária da vida. O brilho não existe para esconder as dificuldades, mas para afirmar a alegria de viver. A coragem não significa que o medo desapareceu, mas que deixou de determinar os caminhos possíveis.
Penso novamente em Guimarães Rosa e em sua compreensão das travessias humanas. A vida não se oferece inteiramente pronta, e cada pessoa precisa encontrar, entre suas circunstâncias e escolhas, a possibilidade de construir o próprio caminho.
Kayete construiu o seu.
Da infância marcada pelo preconceito aos grandes palcos, da rádio comunitária às emissoras de alcance nacional, dos espetáculos improvisados às produções audiovisuais, sua história revela a persistência de uma mulher que encontrou na arte a possibilidade de viver com liberdade e transformar essa conquista em contribuição cultural.
Há algo particularmente comovente nessa trajetória. A criança que conheceu a crueldade do riso dirigido contra ela tornou-se uma artista capaz de reunir milhares de pessoas para rir com ela. Entre essas duas experiências existe uma transformação que ultrapassa o sucesso de uma carreira e alcança a própria maneira como compreendemos a diferença, o pertencimento e a dignidade humana.
Kayete pertence à história de Belo Horizonte porque ajudou a ampliar as possibilidades de convivência de sua cidade. Pertence à história do teatro porque construiu uma obra de reconhecida importância para a comédia popular. E pertence à memória daqueles que acompanharam sua trajetória porque, ao longo de décadas, fez do humor uma forma de proximidade e reconhecimento.
Sua vida nos lembra que a liberdade de ser quem se é não deveria exigir atos extraordinários de coragem. Entretanto, algumas pessoas, ao enfrentarem as dificuldades de exercer essa liberdade, acabam por abrir caminhos que modificam também a existência dos outros.
A arte ofereceu a Kayete instrumentos para construir sua trajetória, mas foi a própria mulher, com sua inteligência, sensibilidade, trabalho e coragem, quem deu sentido a essa experiência.
E talvez seja por isso que sua história nos cause, ao mesmo tempo, admiração e assombro. Porque, para além do talento que celebramos e das gargalhadas que compartilha conosco, Kayete nos oferece o testemunho de uma verdade profundamente humana: a coragem permite atravessar a vida, mas é a liberdade de vivê-la em sua inteireza que transforma essa travessia em realização.
Colaboração: Maurício Canguçu