Em meio à indefinição do cenário eleitoral mineiro para 2026, prefeitos de diferentes regiões de Minas Gerais tentam ampliar a pressão para que o municipalismo entre definitivamente no centro da disputa pelo governo do Estado e pelas vagas ao Senado.
O movimento ganhou força durante o 41º Congresso Mineiro de Municípios, promovido pela Associação Mineira de Municípios (AMM), em Belo Horizonte. Ao longo do evento, gestores defenderam mais recursos para as cidades, revisão do pacto federativo e maior protagonismo dos municípios na formulação de políticas públicas.
Presidente da AMM e prefeito de Iguatama, Lucas Vieira (PSB) afirmou que a entidade pretende manter a vigilância sobre os planos de governo apresentados pelos pré-candidatos.
“Foi uma conquista trazer o municipalismo para dentro do debate político. Nós vamos ficar de olho em qual vai ser a importância que o município terá dentro de cada plano de governo”, afirmou.
O recado dos prefeitos
A avaliação de prefeitos ouvidos por O Fator é de que os municípios seguem sobrecarregados financeiramente, enquanto União e estados concentram a maior parte da arrecadação tributária.
“A matemática é simples. A partir do momento que a gente tem mais despesa do que receita, a conta não fecha”, disse Lucas Vieira. “O dinheiro precisa chegar onde a vida acontece.”
O prefeito de Ouro Fino, Toninho Miguel (Novo), diretor regional da AMM no Sul de Minas, afirmou que o municipalismo não pode permanecer apenas no campo retórico.
“Não pode ser somente uma bandeira ao vento e um discurso. A gente precisa de um novo pacto federativo e de uma melhor distribuição de recursos aos municípios”, declarou.
Toninho também citou dificuldades enfrentadas pelas cidades do Sul de Minas, especialmente na saúde pública.
“Os municípios ficam trocando cebola com custeio alto e a gente tem que fazer das tripas coração para arrumar dinheiro para fazer estrada, asfalto e construir creche”, afirmou.
Municipalismo entra no jogo eleitoral
Além da pauta financeira, prefeitos passaram a defender maior influência sobre o debate político de 2026.
A pressão municipalista ocorre em um momento em que Minas Gerais ainda vive forte indefinição sobre as candidaturas ao governo estadual. Lideranças ouvidas pelo O Fator avaliam que o cenário aberto amplia o espaço para que prefeitos tentem influenciar o debate político e cobrar compromissos concretos dos futuros candidatos.
“A ideologia da AMM é o municipalismo”, afirmou o presidente da entidade ao defender neutralidade partidária da associação.
Lucas também criticou a polarização política e afirmou que o ambiente de disputa nacional acaba contaminando o debate administrativo. “A polarização não é sadia para ninguém”, disse.
Nos bastidores do congresso, prefeitos relataram preocupação com o risco de o debate eleitoral se afastar dos problemas concretos enfrentados pelas cidades, como saúde, infraestrutura e mobilidade.
‘Fazer vídeo não resolve o problema‘
Prefeito de Conceição do Mato Dentro, Otacílio Neto, o Otacilinho (PSB), pontuou que a população está mais preocupada com entregas práticas do que com alinhamentos ideológicos.
“A população quer saber quem vai resolver o problema”, afirmou. “Fazer vídeo não vai resolver o problema do estado de Minas Gerais.”
Otacílio vem tentando transformar Conceição do Mato Dentro em uma vitrine de gestão municipalista. A prefeitura lançou neste ano um programa de intercâmbio internacional para estudantes da rede pública, além de ações voltadas à saúde e mobilidade urbana.
O prefeito também defendeu maior capacidade de diálogo entre lideranças políticas.
“Independentemente de posições partidárias distintas, prefeitos, deputados, governadores e presidente precisam sentar na mesa para resolver o problema da população”, declarou.
Pacto federativo volta ao centro
O prefeito de Abre Campo, Marcinho Victor (PSDB), também reforçou a defesa da revisão do pacto federativo. Segundo ele, os municípios conhecem com mais precisão as demandas reais da população.
“Os problemas acontecem nos municípios. É ali que a gente sabe da realidade do que cada cidade precisa”, afirmou.
Na avaliação dos prefeitos, independentemente de quem vença a disputa em 2026, o próximo governo precisará enfrentar temas que hoje concentram as principais reclamações: saúde, infraestrutura, repartição de receitas e capacidade de investimento dos municípios.