Fundação citada por suposto operador de ex-secretário de Educação de MG tem R$ 214 milhões em contratos sem licitação pelo país

Entidade quase entrou em negociação para a compra de materiais didáticos pela secretaria estadual de MG, mas manobra foi brecada
Rossieli Soares (dir.) foi demitido da pasta em abril. Foto: ALMG/Divulgação

A mesma entidade que um suposto operador do ex-secretário de Educação de Minas Gerais, Rossieli Soares, tentou incluir em uma negociação que parou na mira da Controladoria-Geral do Estado (CGE) assinou, em menos de dois anos, contratos públicos que somam mais de R$ 214 milhões em ao menos 10 estados. Todos os acordos foram feitos sem licitação e em áreas diferentes à sua especialidade de origem.

A Fundação Theodomiro Santiago (FTS), criada em 1960 para apoiar a Universidade Federal de Itajubá (Unifei) em projetos de engenharia, ciências exatas e inovação, tem sede na mesma cidade da universidade no Sul de Minas Gerais. Em 2024, a entidade fechou o ano com uma receita total de somente R$ 61 mil e com as contas no vermelho, amargando déficit de R$ 16,3 mil.

Em 31 de dezembro daquele ano, a FTS conseguiu recredenciamento como fundação de apoio junto ao Ministério da Educação. A mudança viabilizou a expansão da até então modesta fundação para contratos milionários.

Segundo dados públicos do Portal Nacional de Contratações Públicas (PNCP), a Fundação Theodomiro Santiago possui um contrato de R$ 14,95 milhões com a São Paulo Transportes S/A (SPTrans) para consultoria organizacional; R$ 8,1 milhões coma Prefeitura de Sabará para regularização fundiária urbana; R$ 4,5 milhões com a Secretaria de Ciência e Tecnologia do Espírito Santo para consultoria no programa PROPAG; dois contratos com a Agência Reguladora de Rondônia (Agero), de R$ 2,5 milhões e R$ 1,6 milhão, para planejamento estratégico e assessoria regulatória; e R$ 2 milhões com a Agência Estadual de Regulação de Mato Grosso do Sul (AGEMS) para revisão tarifária de saneamento.

A lista inclui ainda R$ 1,8 milhão com a Prefeitura Rio Claro (SP) para consultoria tributária, R$ 1,1 milhão com a Prefeitura de Itajubá para ensino em período integral e oficinas cognitivas no ensino fundamental, R$ 700 mil com a Prefeitura de Paraisópolis para fornecer uma plataforma georreferenciada, R$ 490 mil com o governo de Goiás para análise de investimentos em terminal rodoviário, R$ 294 mil com a própria Unifei para projeto de extensão esportiva, além de R$ 56 mil com a Prefeitura de Palmas (TO) para diagnóstico atuarial do regime próprio de previdência. Todos os vínculos formalizados por dispensa de licitação ou inexigibilidade.

O acordo de maior valor foi o firmado com a Secretaria de Educação do Maranhão (Seduc-MA): R$ 175,8 milhões para a prestação de serviços voltados à ampliação da Educação Profissional e Tecnológica (EPT) na rede estadual maranhense.

No site oficial, a entidade não divulga os balanços financeiros de 2025 alegando “força de cláusula de sigilo e confidencialidade, conforme artigo 6º, inciso I e II do Decreto 7.724/2012”.

Fontes com conhecimento da atuação da fundação e consultadas por O Fator levantaram dúvidas sobre os contratos por causa da variedade de finalidades. Na avaliação desses interlocutores, a FTS não teria capacidade técnica, em número de pesquisadores, para executar acordos tão distintos entre si.

Manobra brecada

No fim de 2025, um fornecedor de materiais didáticos procurou o governo de Minas para relatar que havia sido abordado por um interlocutor identificado como “Fernando”, baseado em Brasília, que se apresentou como “operador” de Rossieli Soares

Segundo o relato, “Fernando” teria pedido detalhes sobre uma proposta de fornecimento de materiais didáticos em análise na secretaria e sugeriu que a margem de lucro, calculada inicialmente em 15%, fosse elevada para 37%. O ajuste estaria vinculado à garantia de vitória no certame.

Para viabilizar o negócio, o interlocutor indicou que a empresa deveria firmar parceria com a Fundação Theodomiro Santiago, que entraria como proponente formal perante a secretaria enquanto a empresa privada ficaria com a execução.

O fornecedor entregou ao governo uma “proposta preliminar” que, segundo ele, seria apresentada à secretaria pela própria FTS. O empresário levou o caso ao secretário de Casa Civil, Luiz Otávio Gonçalves, que repassou as informações ao secretário-geral Marcel Dornas Beghini.

Em 13 de janeiro de 2026, Beghini e Gonçalves assinaram ofício à controladora-geral do Estado, Marcela Dias, pedindo a abertura de apuração formal. O documento detalhava a abordagem do suposto operador, a orientação para inflar a margem de lucro e o papel atribuído à FTS, e citava também relatos do fornecedor sobre a atuação de Rossieli em outros estados e um episódio em que o então secretário teria afirmado, em reunião, que “quem manda” na pasta é ele próprio.

A própria Secretaria de Educação orientou o fornecedor a não seguir adiante com a associação à FTS. Com esse caminho bloqueado, a pasta buscou outra rota para a compra de materiais didáticos sem licitação própria: em 23 de dezembro de 2025, assinou contrato de R$ 348 milhões com a empresa Fazer Educação por adesão à ata de registro de preços da Fundação para o Desenvolvimento da Educação de São Paulo (FDE-SP).

A pasta fechou ainda um contrato complementar de R$ 49 milhões com um consórcio de empresas do setor, também sem licitação. Parte dessas empresas já era investigada em outros estados por suspeitas de fraude em licitações de materiais didáticos.

Em 9 de janeiro de 2026, a CGE apresentou relatório inicial que confirmou a plausibilidade da denúncia e recomendou aprofundamento da apuração. Em 27 de abril, a controladoria concluiu um relatório mais detalhado e o enviou à cúpula do governo. Pouco depois, o governador Mateus Simões (PSD) exonerou Rossieli Soares.

Outro lado

O Fator enviou uma série de questionamentos para a FTS sobre os contratos e a atuação junto ao Poder Público. Até a publicação desta reportagem, o contato ainda não havia sido respondido. Se houver resposta, essa reportagem será atualizada.

Na semana retrasada, a fundação enviou o seguinte posicionamento sobre a menção feita pelo suposto operador de Rossieli Soares:

“A Fundação Theodomiro Santiago (FTS) vem, por meio desta nota, esclarecer que não teve acesso à denúncia enviada à Controladoria-Geral do Estado de Minas Gerais (CGE-MG), tampouco foi procurada por qualquer órgão de controle para se manifestar sobre o assunto.

A FTS foi formalmente procurada por representantes da Secretaria de Educação do Governo do Estado de Minas Gerais para apresentar uma proposta preliminar relacionada a possíveis iniciativas na área educacional.

Até onde é de conhecimento da Fundação, não houve contratação decorrente dessas tratativas, tampouco qualquer formalização de parceria, ajuste ou execução de projeto relacionado aos fatos mencionados.

Diante das informações que vêm sendo divulgadas, a Fundação Theodomiro Santiago permanece à disposição dos órgãos de controle e das autoridades competentes para prestar quaisquer esclarecimentos que eventualmente sejam necessários, e reitera não ter conhecimento de qualquer ato praticado por seus dirigentes, colaboradores ou representantes que possa ser associado às condutas narradas.”

Lucas Ragazzi é jornalista investigativo com foco em política. Integrou o Núcleo de Jornalismo Investigativo da TV Globo e tem passagem pelo jornal O Tempo, onde cobriu o Congresso Nacional e comandou a coluna Minas na Esplanada, direto de Brasília, e pela Itatiaia. É autor do livro-reportagem “Brumadinho: a engenharia de um crime”.

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