O “sim” para a candidatura ao governo de Minas Gerais do senador Cleitinho Azevedo, dado em um telefonema no modo viva-voz e em praça pública ao presidente nacional do Republicanos, Marcos Pereira, encerrou uma novela que, desde julho do ano passado, teve diferentes arcos. A trama parecia ter terminado na segunda-feira (3), quando, chorando, Cleitinho anunciou a desistência. No entanto, cenas pós-créditos modificaram o enredo e viabilizaram, nessa sexta-feira (7), a participação do parlamentar no páreo.
Ao longo dos meses, o otimismo do Republicanos com a possibilidade de candidatura própria foi gradualmente substituído pela impaciência provocada por causa dos sucessivos adiamentos. Pereira, que negou publicamente o apelo de Cleitinho para ignorar o vídeo em que abria mão da disputa, foi convencido por caciques locais do partido. Uma carta do senador pedindo perdão pelas idas e vindas ajudou a compor o roteiro.
A seguir, O Fator mostra, em uma linha do tempo interativa, os principais capítulos da saga, que começou, ao menos oficialmente, em julho do ano passado, quando a equipe de Cleitinho buscou contato com jornalistas a fim de marcar entrevistas para apresentá-lo como nome interessado em disputar o Palácio Tiradentes. As fases estão detalhadas em blocos de texto abaixo do infográfico.
Os adiamentos em série
Depois do primeiro movimento — o de procurar a imprensa para se posicionar no tabuleiro mineiro — Cleitinho passou a evitar cravar publicamente se seria candidato. Em agosto do ano passado, já sinalizava que pretendia postergar tal definição. Em novembro, disse que só bateria o martelo sobre a questão em março. Posteriormente, adiou para maio.
O tempo passou, maio chegou e, com ele, novo adiamento. No início daquele mês, ao conversar com integrantes do PL, indicou que pretendia resolver a questão apenas após o fim da Copa do Mundo, cuja final aconteceu em 19 de julho.
“Não faço nenhuma questão de vir candidato, mas está virando uma onda o meu nome. Como é que eu não venho a governador agora? Só que eu não preciso ficar latindo que sou candidato, não, quem tem que fazer isso é quem está lá atrás nas pesquisas. Se eu fico falando que sou, perde o encanto. É tipo o que acontece com os artistas. O cantor chega para um show e vai para o camarim, oras, não fica andando lá no meio do povo. Senão as pessoas dão uma brochada. É tudo estratégia minha. Só vou decidir depois, em junho eu quero é ver os jogos da Copa”, disse, em entrevista publicada no dia 4 de junho pela newsletter “Jogo Político”, distribuída aos assinantes do jornal O Globo.
Quando a Seleção Brasileira foi eliminada do Mundial, o presidente nacional da sigla de Jair Bolsonaro, Valdemar Costa Neto, cobrou Cleitinho publicamente por uma definição célere. O ultimato, contudo, não surtiu efeito. Na mesma semana, o senador, da tribuna do plenário, disse que poderia decidir os rumos que trilharia apenas em 5 de agosto, data-limite para as convenções partidárias.
“Estou pensando em deixar esse povo mais doido em Minas Gerais. Se o último dia das convenções for em 5 de agosto, falo que em 5 de agosto eu decido, para deixar esse povo mais louco”, falou, alegando não possuir motivos para se colocar publicamente como candidato antes disso.
Os choques com Marcos Pereira
A ideia de “deixar esse povo mais louco” acabou se transformando em um episódio de choque direto com Marcos Pereira, que concilia o comando do Republicanos com o mandato de deputado federal. Na semana em que Cleitinho sinalizou a intenção de adiar mais uma vez a batida de martelo, o cacique disse a O Fator que foi pego de surpresa com a declaração.
“Vou procurar entender. Porque não estou entendendo essa postura dele”, protestou.
Não foi o primeiro embate público com Pereira. Na já citada entrevista à newsletter de O Globo, Cleitinho afirmou não confiar totalmente que o dirigente lhe daria legenda para tentar chegar ao Palácio Tiradentes.
“Não sou amigo dele, tenho nojo de qualquer coisa que envolva partido”, disparou.
Pereira rebateu de pronto o correligionário. A O Fator, afirmou que o colega parecia “não ter segurança do que realmente quer”.
“Ele realmente não me conhece. Eu já disse várias vezes que ele (Cleitinho) terá legenda, mas me parece que ele não tem segurança do que realmente quer. Quem me conhece, o que não é o caso dele, sabe que só tenho uma palavra”, devolveu.
O início do plano B
Em 24 de julho, Pereira admitiu à reportagem que, diante da indefinição de Cleitinho, o Republicanos poderia apoiar Marcelo Aro (PP), ex-secretário das pastas de Governo e de Casa Civil. Dias antes, companheiros de Aro na federação União Brasil-PP haviam iniciado um movimento para lançá-lo ao Executivo.
No dia 28, Pereira participou por telefone de uma reunião de Aro com representantes de União, PP e PL. Horas depois, já em 29 de julho, o Republicanos publicou a nota em que descartava a candidatura de Cleitinho.
Panos quentes
Depois da divulgação do comunicado, Cleitinho convocou entrevista coletiva para dizer pela primeira vez que possuía, sim, o interesse de concorrer ao governo. Depois, marcou reunião com Pereira a fim de tentar fazê-lo mudar de posição. Como trunfo, contava com o presidente estadual do Republicanos, o deputado federal Euclydes Pettersen, que minimizou o tom da nota de dias antes.
No último dia de julho, Pettersen assegurou a O Fator que o senador “sempre esteve aberto” à candidatura e que a demora para uma definição ocorreu em razão do período de luto pela morte do irmão, Matheus.
O recuo do recuo
No fim de semana passado, o Republicanos chegou a acenar com a possibilidade de dar a candidatura a Cleitinho, em movimento que empurraria Marcelo Aro para a disputa ao Senado — o que acabou acontecendo posteriormente, mas sob outras circunstâncias.
O partido ainda demonstrava reticência com a ideia do senador de ter o correligionário Luís Eduardo Falcão como vice — a avaliação era de que o posto deveria ser preenchido por uma indicação de uma agremiação aliada. Mesmo assim, prevalecia o entendimento de que havia clima para a obtenção de um denominador comum.
Veio a reunião derradeira com Pereira. Veio o vídeo. Emocionado, Cleitinho atribuiu a desistência ao luto vivido pela morte do irmão. A questão envolvendo a composição das chapas, porém, foi decisiva. Tudo isso, menos de 24 horas após se reunir com lideranças do PL e acertar que, se houvesse final feliz na conversa com o Republicanos, os partidos caminhariam juntos.
Apelo negado
Cleitinho voltou a surpreender a todos na manhã de terça-feira (4), quando apareceu na convenção nacional do Republicanos e pediu uma nova chance para disputar o Palácio Tiradentes. No discurso, fez menção a questões espirituais. Depois, à imprensa, relatou arrependimento do vídeo em que anunciava a desistência.
“Na hora que eu fiz (a gravação), eu liguei para os meus irmãos e eles falaram: ‘Não faz, continua como candidato, que a gente vai te apoiar’. Aí eu pedi ao Marcos Pereira, presidente: ‘Não solta o vídeo, não, que eu quero vir candidato’. Só que ele já tinha ido para uma reunião. Depois, ele pegou e soltou o vídeo”, contou.
Visivelmente incomodado, Marcos Pereira repreendeu publicamente o parlamentar. Em entrevista, o cacique disse que não gostaria de retomar o assunto.
“A decisão (sobre a não candidatura) está tomada. O que eu disse está dito, porque é a expressão da verdade. Não tenho mais nada o que falar sobre o assunto. Para mim, é página virada”, sentenciou.
Aliados se mexem
Mesmo com Cleitinho ainda fora da disputa pelo governo, Aro acabou optando pela candidatura ao Senado. A escolha decorreu da aliança entre o bloco PP-União Brasil e o governador Mateus Simões (PSD), que tentará a reeleição.
Embora Cleitinho tenha perdido o apoio da federação, conseguiu, no fim das contas, preservar um aliado ligado à coalizão. Aro, que está rompido com Simões e concorrerá de forma independente, passou a defender a unidade da direita em torno do parlamentar do Republicanos. Na entrevista coletiva em que o congressista confirmou o ingresso no páreo pela sucessão estadual, o ex-secretário das pastas de Governo e da Casa Civil apareceu ao lado dele.
“Faço um apelo para os outros partidos que estão no nosso campo. Até o dia 15, é hora de a gente ceder para aquele que realmente tem condições de ganhar e governar o estado”, pediu.
Foi um recado ao PL, que na quarta-feira (5) desistiu de esperar por Cleitinho e lançou Flávio Roscoe, presidente licenciado da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), na corrida ao Palácio Tiradentes. Em que pese o apelo, os liberais asseguram que manterão Roscoe. Prova da intenção é que Flávio Bolsonaro chegou a ligar para o colega de partido a fim de garantir que o projeto está mantido.
Ata de convenção, caminhada, máscaras e tempestade de ideias
Os dias entre a negativa de Marcos Pereira — que falou contra a candidatura de Cleitinho durante a convenção nacional do Republicanos — e o recuo do dirigente foram marcados por diversas tentativas de demovê-lo. Nos instantes finais da janela destinada às convenções partidárias, Euclydes Pettersen registrou ata informando à Justiça Eleitoral que a agremiação teria candidatura própria ao governo.
O movimento, além de manter viva a esperança por Cleitinho, dava brechas para um plano B. Com o documento em mãos, a sigla poderia registrar Luís Eduardo Falcão na cabeça da chapa ou até mesmo partir para uma candidatura de Gleidson Azevedo, gêmeo do senador.
Também houve espaço para manifestações públicas de apoiadores do clã Azevedo. Os esforços para sensibilizar a instância federal do Republicanos contaram com uma caminhada de 40 quilômetros de Divinópolis a Itajubá e com a impressão de milhares de máscaras que tinham o rosto de Cleitinho como molde.
A carta de desculpas
Na quinta-feira, Cleitinho remeteu uma carta de desculpas a Pereira. No documento, reconheceu os prejuízos causados ao partido por causa da indefinição e atribuiu a desistência do início da semana ao luto vivido pelo óbito de Matheus.
“Eu sei que isso trouxe preocupação e transtorno para todo mundо que trabalha e confia no Republicanos, e eu me sinto responsável por isso”, escreveu.
Em outro trecho da missiva, se comprometeu a seguir com a candidatura até o fim, sem novos recuos.
“Prometo também que não vou desistir da campanha no meio do caminho. Vou seguir com a candidatura até o final do período eleitoral, custe o que custar, sem deixar o partido na mão outra vez”, declarou.
A garantia derradeira
Veio, então, a sexta-feira. De avião, Cleitinho e os aliados partiram para Vinhedo, no interior de São Paulo. Durante a conversa com Pereira, Pettersen e o deputado estadual Carlos Henrique argumentaram que abrir mão de uma candidatura própria poderia diminuir o potencial de votos das chapas proporcionais.
A cúpula local também se comprometeu a arcar com eventuais ônus da escolha pelo senador. Como mostrou O Fator, partidos rivais se preparam para contestar o registro da chapa junto à Justiça Eleitoral tão logo haja a formalização.
Na avaliação dos articuladores da ação, o período entre o encerramento das convenções, em 5 de agosto, e o prazo final para o registro das candidaturas, em 15 de agosto, existe para a formalização dos pedidos de registro e para eventuais substituições ou complementações previstas na legislação eleitoral, e não para que o partido escolha, pela primeira vez, quem disputará os cargos majoritários. Um possível spin-off para uma novela que, contrariando a duração média das famosas tramas nacionais, se estendeu por 12 meses.