Governo de MG vendeu ações da Copasa por R$ 540 milhões abaixo do valor de mercado

Papéis foram vendidos para investidores profissionais por R$ 49,03, enquanto na B3 custavam R$ 56,19
Privatização da Copasa foi concluída em cerimônia na B3
Privatização da Copasa foi concluída em cerimônia na B3. Foto: Gil Leonardi/Imprensa MG

O governo de Minas Gerais arrecadou R$ 540,1 milhões a menos com a venda de ações da Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa) do que se tivesse negociado os papéis a preço de mercado. O cálculo feito por O Fator leva em conta o valor definido pelo Executivo mineiro no último dia 11, durante o processo de venda de 15% das ações estatais, e o preço de fechamento na B3 naquele mesmo dia.

O processo de privatização da Copasa foi dividido em duas fases. Na primeira, o grupo Equatorial se tornou o sócio de referência da empresa, adquirindo 30% das ações da companhia, que até então pertenciam ao governo estadual. Na segunda etapa, o Palácio Tiradentes negociou outros 15% de forma fracionada no mercado.

Em ambos os casos a precificação dos papéis foi a mesma: R$ 49,03, por ação.

Analistas que conversaram sob condição de anonimato com O Fator apontam que, no caso dos papéis adquiridos pela Equatorial, é comum que o preço seja abaixo do praticado na B3, uma vez que estão atrelados a obrigações contratuais, como impedimentos de revenda até 2033 e exigência de investir no saneamento do estado. 

Já as ações adquiridas por investidores no processo de bookbuilding não têm travas. Com o preço definido no dia 11, elas foram liquidadas no dia 16 e puderam ser comercializadas logo depois na Bolsa.

No dia 11, quando o Executivo definiu o preço das ações a serem comercializadas com os investidores, os papéis da Copasa terminaram o pregão sendo vendidos a R$ 58,50 — ou seja, R$ 9,47 a mais que o oferecido pelo governo mineiro. Com isso, a venda das 57.037.960 ações na segunda fase da privatização renderam aos cofres públicos cerca de R$ 540,1 milhões a menos do que o arrecadado.

Já considerando os valores de mercado das ações da Copasa no dia 16, a arrecadação do governo seria R$ 408,4 milhões. Na ocasião, os papéis da estatal eram precificados a R$ 56,19.

A diferença nos preços, por outro lado, favoreceu aqueles investidores que compraram as ações da estatal mineira. O mercado do dia 17, por exemplo, abriu precificando as ações da Copasa em R$ 56,46 e fechou em R$ 56,15. Com isso, aqueles investidores que compraram os papéis no preço de R$ 49,03 viram no dia seguinte suas ações valorizarem ao menos 14,5%.

Procurado, o governo de Minas Gerais afirmou que o valor abaixo do precificado na B3 acontece devido à quantidade de ações negociadas. “A comparação entre o preço da oferta e a cotação da ação em um determinado dia não considera a dimensão da operação realizada, isto é, a venda, de uma só vez, de um volume equivalente a 45% de uma companhia do porte da Copasa”, diz. “O preço de R$ 58,50, citado pela reportagem, foi registrado em negociações diárias que envolvem quantidades muito menores de ações. Em uma operação desse porte, não é possível assumir que todo o lote poderia ser vendido pelo mesmo valor, porque a entrada de um volume tão grande de papéis no mercado tende a afetar a formação dos preços”, acrescenta. (veja a nota, na íntegra, no final do texto)

A Copasa, por sua vez, informou que “não emite comentários ou posicionamentos a respeito dos valores, precificações ou estratégias financeiras adotadas no âmbito da oferta pública de distribuição secundária de ações ordinárias”. “A Companhia esclarece que a referida operação financeira foi realizada e estruturada diretamente pelo Acionista Vendedor, competindo exclusivamente ao Estado de Minas Gerais e aos coordenadores da oferta a definição do preço por ação resultante do processo de bookbuilding”, acrescentou.

Companhia diz que demanda atingiu R$ 91,6 bilhões

Segundo a Copasa, a demanda pela fase de bookbuilding atingiu R$ 91,6 bilhões, com 200 ordens no livro de ofertas. Os dados constam em ofício encaminhado na semana passada pela presidente da empresa, Marília Melo, ao Tribunal de Contas do Estado (TCE-MG), e obtido por O Fator.

No documento, redigido a fim de pedir a rejeição a um procedimento que reivindica a paralisação da fase de liquidação da oferta, a estatal afirma que R$ 65,7 bilhões da demanda correspondem ao interesse do mercado aberto, R$ 7,9 bilhões à Equatorial, que não conseguiu arrematar 12,6% adicionais, e R$ 18 bilhões à demanda varejista.

“O livro de ofertas de mercado (excluídos o investidor de referência e o varejo) terminou com uma cobertura de aproximadamente 40 vezes o volume ofertado. Esses números demonstram o sucesso da operação e a presença de forte competitividade entre os participantes”, lê-se em trecho do texto, o mesmo em que a empresa admite ter relançado a oferta para o investidor âncora por ausência de interessados em arcar com o piso de R$ 47,23 por ação desejado pelo governo.

Da fatia destinada ao mercado, cerca de 40% ficou com investidores internacionais. De acordo com a Copasa, o processo de divulgação alcançou 78 potenciais compradores estrangeiros e outros 151 interessados do mercado nacional.

Modelo seguiu processo da Sabesp

A privatização da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) seguiu lógica semelhante. Em 2024, o governo de São Paulo vendeu 15% das ações da então estatal para um investidor de referência — também a Equatorial — e 17% para demais investidores. Em ambos os casos, cada papel foi alienado por R$ 67.

À época, a estratégia do governo paulista também gerou críticas de analistas, que consideraram o valor arrecadado pelo Executivo bem abaixo do esperado anteriormente.

Um advogado experiente do setor de concessões disse a O Fator que em processos de privatizações como esse o ideal é que as duas fases de venda ocorram de formas separadas e não concomitantes. A razão, de acordo com ele, é justamente evitar que a segunda fase receba influência da primeira.

O que diz o governo de MG

A comparação entre o preço da oferta e a cotação da ação em um determinado dia não considera a dimensão da operação realizada, isto é, a venda, de uma só vez, de um volume equivalente a 45% de uma companhia do porte da Copasa.

O preço de R$ 58,50, citado pelo repórter, foi registrado em negociações diárias que envolvem quantidades muito menores de ações. Em uma operação desse porte, não é possível assumir que todo o lote poderia ser vendido pelo mesmo valor, porque a entrada de um volume tão grande de papéis no mercado tende a afetar a formação dos preços.

Por essa razão, a venda foi realizada por meio de bookbuilding, procedimento consolidado em ofertas públicas no mercado de capitais, tanto nacional quanto internacional, para identificar, de forma transparente e competitiva, quanto os investidores efetivamente estão dispostos a pagar por um conjunto de ações dessa dimensão. O preço da operação foi definido a partir da demanda apresentada pelos investidores durante esse processo.

Assim, a diferença entre a cotação de mercado em uma data específica e o preço final da oferta não representa, automaticamente, uma perda de arrecadação para o Estado. Trata-se da diferença entre o preço de negociações rotineiras e o preço viável para a venda de uma participação relevante da companhia em uma única operação.

Salientamos, por fim, que a modelagem adotada buscou maximizar a competitividade da oferta, atrair investidores de longo prazo e assegurar a conclusão da operação em condições adequadas de mercado, seguindo práticas amplamente reconhecidas em operações de desestatização e de mercado de capitais.

Formado em jornalismo pela PUC Minas, Pedro Lovisi trabalhou nas redações do jornal Estado de Minas e da Rádio Itatiaia. Nos últimos cinco anos, foi repórter da Folha de S.Paulo, onde se destacou pela cobertura econômica de setores ligados à transição energética, principalmente energia e mineração. Também é mestre em Governança Global e Formulação de Políticas Internacionais pela PUC SP, onde estudou instrumentos orçamentários para cidades mineradoras de Minas Gerais.

Foi repórter especial do caderno de Política do Estado de Minas. Trabalhou, também, na Rádio Itatiaia. Antes, militou no jornalismo esportivo, no Superesportes.

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