Ainda que a cotação do petróleo Brent esteja em alta no mercado internacional por causa da falta de um prazo concreto para o fim da guerra no Oriente Médio, especialistas ouvidos por O Fator acreditam que o preço dos combustíveis, sobretudo o diesel, não sofrerá nova alta para o consumidor final em curto prazo no Brasil. Para essas fontes, há chance, até mesmo, de um recuo da cotação no varejo, caso distribuidores e revendedores diminuam suas margens de lucro.
Para Bruno Valêncio, sócio da VPricing, que atua no monitoramento de preços de combustíveis, o cenário interno continua dependente do mercado internacional, como visto em momentos diferentes do conflito. No entanto, os movimentos das últimas semanas apontam para um recuo no diesel nas bombas.
“Quando o petróleo disparou com o início do conflito, vimos os preços dos combustíveis no mercado nacional subirem para além do que seria correto. Agora, no período de 6 a 17 de abril, as cotações do Brent recuaram 17% e, como consequência, os custos do diesel S10 importado recuaram em média 13% em todos os pontos de entrega do Brasil. A questão é que esse custo recuou para os agentes responsáveis pela distribuição de combustíveis, mas o repasse para postos revendedores e empresas segue assimétrico”, diz.
“Portanto, os preços do diesel podem sim cair nas bombas brasileiras, se as distribuidoras não absorverem reduções e sobretaxarem aumentos em margem”, completa Bruno Valêncio.
Já o economista do Instituto Brasileiro de Estudos Políticos e Sociais (Ibeps), Eric Gil Dantas, defende que o preço final para o consumidor no curto prazo vai depender mais da Petrobras do que do preço internacional, que continua flutuando de acordo com as repercussões do conflito no Irã.
O Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo do mundo, continua fechado, o que impede a logística de países produtores do Golfo Pérsico, como Kuwait, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Iraque, Catar e o próprio Irã.
“A Petrobras é, de longe, a maior ofertante de combustíveis no país. Logo, a definição dos preços (no Brasil) tem um peso muito maior da estatal do que da cotação exterior. Este último contagia os preços locais a partir das refinarias privatizadas (principalmente, a da Bahia) e as importações por outros agentes que não a estatal”, afirma Gil Dantas.
Sobre as próximas semanas, o economista do Ibeps afirma que a pressão do mercado importador por reajustes da Petrobras já foi maior do que a atual, diante do cessar-fogo prolongado pelo presidente norte-americano Donald Trump.
“É pouco provável que haja novos reajustes por parte da Petrobras e, consequentemente, não devem acontecer mais subidas de preços no curto prazo. Além disso, as refinarias privatizadas vêm cortando seus preços, depois de um pico na semana retrasada”, explica.
Incerteza internacional
Se para o mercado interno a avaliação é de estagnação ou até mesmo queda do preço do combustível no varejo, os especialistas ouvidos por O Fator não conseguem traçar um prognóstico claro para a cotação do Brent. Mesmo com o prolongamento do cessar-fogo, Donald Trump manteve os bloqueios navais ao litoral iraniano, o que assegura a continuidade da tensão na região.
Além disso, o Irã apreendeu, pela primeira vez desde o início do conflito, duas embarcações que passavam por Ormuz sem autorização nessa quarta-feira (22) – um claro sinal de que o retorno à normalidade ainda parece distante.
“O mercado do petróleo segue totalmente reativo e volátil a qualquer emissão de notícias quanto ao conflito EUA x Irã. Diariamente, saímos de cenários de quedas abruptas para aumentos vertiginosos sobre a commodity”, afirma Bruno Valêncio, da VPricing.
Diante deste cenário, Brent voltou a operar acima dos US$ 100 por barril desde 21 de abril. Nesta quinta-feira (23), o barril deve fechar próximo a marca dos US$ 105.
