O Brasil nasce toda vez que lembramos que ele é negro

Mulher negra
. A paisagem das Gerais, com suas igrejas, ladeiras e casas coloniais, é também o retrato da inteligência construtiva africana, que atravessou o Atlântico e se reinventou nas encostas mineiras. Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

Novembro é o mês da Consciência Negra, um tempo de reconhecimento, de memória e de reparação. Mais do que uma celebração, é um chamado a olhar para a base que sustenta o Brasil e reconhecer nela a presença viva da África. Essa herança se revela nas cidades, nas formas de construir, nos gestos cotidianos e nas expressões que moldam o nosso patrimônio cultural.

A contribuição dos povos africanos e afrodescendentes é imensurável. Está na música e no ritmo, na fé e na oralidade, na culinária e nos modos de viver. Mas também, e talvez de forma menos reconhecida, na arquitetura, nas técnicas construtivas e na estética que atravessaram séculos. A arquitetura brasileira, especialmente a colonial, guarda as marcas dessas mãos negras: nas paredes de pau a pique, nos pátios, nos altares e nos detalhes que transformaram a matéria em expressão espiritual.

As irmandades negras, como as de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, ergueram templos de uma beleza única, desafiando o cânone europeu e revelando uma linguagem própria, nascida do encontro entre fé, técnica e resistência. O patrimônio brasileiro é, em grande parte, negro, feito da terra pisada, do barro moldado, da madeira trabalhada e da crença inabalável de quem construiu, com dor e dignidade, a liberdade nas formas e nos espaços.

Em Minas Gerais, essa presença se torna ainda mais nítida. A paisagem das Gerais, com suas igrejas, ladeiras e casas coloniais, é também o retrato da inteligência construtiva africana, que atravessou o Atlântico e se reinventou nas encostas mineiras. Construtores e artesãos negros, livres e escravizados, dominaram técnicas como o pau a pique, o adobe e a taipa de pilão, adaptando-as com engenho ao relevo, ao clima e aos materiais disponíveis.

Mais do que soluções técnicas, esses sistemas expressam uma filosofia de vida: o espaço como extensão da comunidade, o equilíbrio entre o humano e a natureza, a circularidade como princípio da existência.

Essas ideias, de origem africana, ainda nos habitam. Persistem nas técnicas de construção sustentável, nas arquiteturas de terra crua, nas tramas artesanais, nos símbolos gráficos e até nas expressões urbanas e artísticas contemporâneas. São heranças vivas, reinventadas a cada geração, provas de que o passado não se encerra no tempo, mas continua a edificar o presente.

Nos detalhes das igrejas do Rosário, nas tramas dos muros de taipa e nos desenhos dos gradis mineiros, há uma geometria espiritual herdada da África. Muitos desses elementos dialogam com os adinkras, símbolos da tradição Akan, da África Ocidental, que traduzem valores e princípios filosóficos. O Sankofa, que ensina que é preciso olhar para trás para compreender o presente; o Gye Nyame, que representa a força divina; o Dwennimmen, que une humildade e coragem, todos ecoam, de forma silenciosa, nas nossas formas, nos nossos ornamentos e nas nossas práticas.

Esses signos resistiram ao esquecimento, transfigurando a dor em beleza e a opressão em estética, uma verdadeira arquitetura da resistência. Celebrar o mês da Consciência Negra é, portanto, “reencantar” o olhar. É compreender que a presença africana não é rodapé da história, mas alicerce da nação.

Cada parede de adobe, cada portão de ferro, cada canto de igreja guarda a lembrança das mãos negras que moldaram o Brasil, mãos que ainda hoje sustentam o nosso senso de beleza, espiritualidade e comunidade.

A herança africana não ficou no passado. Ela segue viva na arquitetura, na arte, na palavra e no gesto. Está nas feiras, nas festas, nos ofícios e nas casas simples de barro e madeira que ainda resistem. Está nas práticas sustentáveis que hoje o mundo redescobre e nos valores de coletividade e respeito à terra que continuam a inspirar a vida mineira.

Reconhecê-la é um ato de justiça e gratidão. Preservar o patrimônio cultural, missão do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico, é também preservar essa ancestralidade que, desde o início, nos ensina a erguer o Brasil com alma e dignidade.

Arquiteto, pesquisador e gestor cultural, com formação pelo Centro Universitário de Goiás, especialização em Urbanismo e Futuro das Cidades (PUC) e estudos em Art and Visual Culture na Universidade de Westminster, em Londres. Com trajetória na área de cultura e patrimônio, desenvolve pesquisas e coordena projetos de preservação, restauração e revitalização de bens históricos e artísticos de relevância nacional. Atualmente, é Diretor de Conservação e Restauração do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (IEPHA-MG), onde lidera iniciativas estratégicas que articulam rigor técnico, inovação e abordagem contemporânea para a salvaguarda e valorização do patrimônio cultural mineiro.

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