Dengue: Minas ocupa desonroso lugar em número de casos

Saúde pública exige planejamento e estratégia de longo prazo. Mas como isso não dá voto, nunca vemos acontecer
A dengue volta a alarmar a população brasileira
Dengue volta a alarmar a população brasileira / Foto: Getty Images

Há anos a Dengue não era assunto tão importante e seus números tão alarmantes no Brasil, ainda que sejamos o recordista mundial de casos, com mais de 3 milhões de doentes apenas em 2023 (sem falar na descomunal subnotificação).

Dois meses antes do previsto, o número de casos conhecidos no País irá superar o ano anterior, com crescimento espantoso de 250% sobre 2023. Dentre os estados mais afetados, Distrito Federal (primeiro lugar) e Minas Gerais (o segundo).

O problema é tão grave que o presidente Lula já adotou o tradicional tom, fartamente observado durante a pandemia do novo coronavírus pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, e reclamou da imprensa: “agora só se fala de dengue”.

DEVER DE CASA

Nesta terça-feira (6/2), de forma indireta e não sem razão, a ministra da Saúde, Nísia Andrade, “culpou” a população pelo descontrole da pandemia, lembrando que cerca de 75% dos focos da doença são de responsabilidade das pessoas.

É fato que o criadouro primário dos mosquitos que transmitem a doença encontra-se nos quintais de casas e lotes vagos, descuidados pelos moradores e proprietários. Um mínimo de zelo com vasos, garrafas, pneus e outros locais de acúmulo d’água ajudaria bastante.

Contudo, não há como não lembrar que vivemos em um país que, em pleno século XXI, não consegue prover saneamento básico adequado a mais da metade das residências, mantendo literalmente no esgoto dezenas de milhões de cidadãos.

MENSAGEM E MENSAGEIRO

Sim, repito, a ministra tem certa razão e não é o atual governo o único responsável por essa deplorável marca citada acima. Porém, antes de responsabilizar, ou pedir colaboração à população brasileira, é preciso dar o exemplo; no mínimo, fazer a própria parte.

Governantes adoram tirar o bumbum da seringa e transferir responsabilidades. É a velha tática de culpar o mensageiro, mas não a mensagem. Dilma Rousseff, nossa eterna estoquista de vento, por exemplo, culpava as “mosquitas”. 

Saúde pública exige planejamento e estratégias de longo prazo. Mas como isso não dá voto, jamais vemos acontecer. Quando governo e população marcham juntos no caminho errado, não há outro resultado senão desastre. A dengue é só mais um exemplo

Ricardo Kertzman é empresário, e há 8 anos milita no jornalismo profissional. Tem passagens pelo jornal Estado de Minas e Portal UAI, com a coluna Opinião Sem Medo; pela revista e site da IstoÉ; pela Rede 98 e a Rádio Itatiaia, como comentarista do Conversa de Redação. Escreve para a revista Encontro e o portal O Antagonista.

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