Zema e as vacinas: aí, não, governador

Uma coisa é manter-se à direita na política e fazer oposição ao governo. Outra, porém, é se tornar mamulengo de tiktokers sem conteúdo
Zema, Cleitinho e Nikolas não querem obrigatoriedade de vacinas nas escolas
Foto: Reprodução

É simplesmente inacreditável e triste – para mim, que gosto e admiro nosso Chico Bento -, que após quatro anos da eclosão da maldita pandemia do novo coronavírus, ainda exista pessoas fazendo proselitismo político-ideológico sobre as vacinas (de Covid ou não).

A humanidade (incluindo os negacionistas)  foi salva por cientistas – receberam, inclusive, o Prêmio Nobel por isso -, que desenvolveram, em tempo recorde, as vacinas contra a Covid-19 a partir de uma técnica conhecida como RNA mensageiro.

Os maiores laboratórios do mundo produziram e distribuíram, com extrema eficácia e segurança, bilhões de doses do imunizante por todos os cantos do globo. Só estou escrevendo esse texto, aliás, – e você me lendo – por causa desses caras.  

NOVA POLÍTICA

Sim. Compreendo as novas formas de comunicação e de se fazer política, e ainda que eu considere medíocres os novos meios e agentes – com raríssimas exceções -, a popularidade digital, hoje, é primordial em uma corrida eleitoral.

Porém, para tudo há um limite! Quando a busca por aceitação junto a determinado estrato do eleitorado esbarra nas condições mínimas de civilização – e de civilidade – e, no extremo, na própria existência do ser humano, não posso aceitar calado.

Não me conformo com o governador de um dos três estados mais importantes do País cerrar fileiras em pautas antivacinas, sobretudo ao lado de um contumaz arruaceiro digital que absolutamente nada produz à política brasileira senão ódio e obscurantismo.

REDES SOCIAIS

Refiro-me especificamente a Nikolas Ferreira, alguém tão profundo quanto uma poça d’água barrenta secando ao sol, que depende exclusivamente de pautas canhestras para se manter em cena, já que de útil e produtivo não é capaz de nada.

É verdade que, ao lado de Zema, no vídeo infame antivacina que divulgaram, aparece o Senador Cleitinho, outro que desapareceria não fossem as redes sociais. Contudo, a favor do simpático e bem-intencionado rapaz, algumas propostas boas e muita fiscalização.

Nesta dupla de tiktokers, agora transformada em trinca, Zema desempenha um papel que não deveria, pois além de rebaixar a si e ao cargo comete um dos erros mais primários em uma democracia: falar em liberdade como se fosse um princípio absoluto.

LIBERDADE UMA OVA

Não há liberdade absoluta em um Estado Democrático de Direito. Tudo circunscreve-se às leis e à Constituição. Disseminar patógenos é crime! E se uma forma de impedir a transmissão de um vírus é a vacinação em massa, portanto, uma obrigação é.

Doenças como a Poliomielite, erradicada há décadas no País, retornam justamente pela falta de vacinação. Há 8 anos seguidos o Brasil apresenta diminuição na cobertura vacinal. Uma criança não vacinada pelos pais não tem o direito de contaminar outra. 

Saúde pública é questão… pública! E não privada, de foro íntimo. Se a imunização através de vacinas não pode ser obrigatória, que seja restringida, sim, a circulação de quem potencialmente pode contaminar – e matar! – outras pessoas. 

ACORDA, ZEMA

Não é a primeira vez que, em nome da popularidade junto ao eleitorado bolsonarista, o governador mineiro pisa em casca de banana. Ano passado, Zema resolveu condecorar o ex-presidente Jair Bolsonaro, em meio ao escândalo das jóias contrabandeadas.

Uma coisa é manter-se à direita na política e fazer oposição – desde que firme e responsável – ao governo lulopetista. Outra, porém, bem diferente e contraproducente, é se tornar mamulengo de tiktokers sem conteúdo, sobretudo em pautas irracionais.

Chico Bento já tem problemas suficientes de aceitação dentro do governo (falo, obviamente, do bloco independente e pensante da Cidade Administrativa, e não de meia-dúzia de puxa-sacos) por conta do alinhamento excessivo ao bolsonarismo. Não precisava de mais um.

Ricardo Kertzman é empresário, e há 8 anos milita no jornalismo profissional. Tem passagens pelo jornal Estado de Minas e Portal UAI, com a coluna Opinião Sem Medo; pela revista e site da IstoÉ; pela Rede 98 e a Rádio Itatiaia, como comentarista do Conversa de Redação. Escreve para a revista Encontro e o portal O Antagonista.

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