É o Meio Ambiente, estúpido!

Marizilda Cruppe/RAS

A frase “É a economia, estúpido!” foi cunhada por James Carville, estrategista da campanha presidencial de Bill Clinton, em 1992, para destacar o peso da economia nas eleições. Desde então, tornou-se metáfora recorrente. Porém, talvez seja hora de atualizá-la. O planeta está no seu limite, sem que a lógica do lucro ceda espaço nos processos decisórios. Sem meio ambiente, não há economia. É estupidez!

A recente aprovação do PL 2159/2021 pelo Senado — PL da Devastação — é uma comprovação dessa miopia. Sob o pretexto de “uniformizar o licenciamento ambiental”, o projeto destrói mecanismos essenciais de prevenção e controle. Segundo o Instituto Socioambiental, o texto isenta de licenciamento diversos empreendimentos, como a agropecuária extensiva, transfere prerrogativa de licenciamento a estados e municípios, e generaliza a licença por adesão e compromisso, permitindo licenciamento por autodeclaração, sem análise prévia dos órgãos ambientais.

Dá para acreditar que, em uma sociedade desleal como a nossa, legisladores de fato consideram que empresários, estados e municípios farão o que precisa ser feito em relação ao meio ambiente?  

O negacionismo da extrema-direita avança com um congresso ultraconservador

Com o PL da devastação, o congresso majoritariamente nega a crise climática e seus pontos de tensão. No Senado, um resultado alarmante: 66,7% aprovação; 17,6% abstenção e 16% rejeição. Os percentuais de senadores por partido que votaram favoravelmente mostram a tragédia da força desproporcional da direita conservadora obtida na eleição de 2022: NOVO, PSDB, Republicanos e Podemos – 100%; PL, União Brasil e PP – 85,7%; PSD e MDB, mais de 63%. Mesmo entre os partidos de esquerda, exceto no PT, houve votos favoráveis: 33,3% do PDT e 25% do PSB. 

Esse apoio cego ao desenvolvimento econômico aponta para um futuro difícil e a sociedade civil precisa ver com mais profundidade a realidade que cerca essa discussão.

Por que a certeza de que o PL favorece um futuro sombrio?

Porque não é só no Congresso que a balança pesa contra o meio ambiente. Mesmo nos conselhos ambientais que deveriam equilibrar os interesses, o mercado tem muita influência, ao contrário dos movimentos ambientais. No Conselho Nacional de Meio Ambiente – CONAMA, de 114 representantes, apenas 22 (19,3%) são sociedade civil. Nos municípios, o cenário é ainda mais desolador, pois a legislação tem problemas.

Como exemplo, vale olhar o Conselho de Brumadinho, palco de uma das maiores tragédias ambientais do mundo. O CODEMA está em fase de eleição dos representantes da sociedade civil: dos 13 representantes da sociedade civil, 9 têm vínculos com o mercado – mineradoras, construtoras, loteadoras, produtores rurais etc.  Entidade ambiental, apenas 1 vaga. O cinismo é total: mineradora no segmento de sociedade civil?  

Mesmo uma capital como Belo Horizonte apresenta desequilíbrio. Na eleição em curso, dos 7 representantes da sociedade civil para o COMAM, 2 são do mercado. E na disputa pelas outras 5 vagas é forte a polarização política e a influência do interesse econômico. E é nesse cenário de fragilidades nas relações sociais e estruturas colegiadas em estados e municípios dominadas pelo poder econômico que o Congresso desmantela a estrutura construída em quase 50 anos de luta ambiental no Brasil. O que fazer?

No próximo dia 5/6. comemora-se o dia do meio ambiente. Haverá movimentos contra o PL. A hora é de protesto e de consciência crítica. Mesmo que você tenha errado no voto, apoiando conservadores, agora é luta pelo planeta Terra!

É idealizadora e presidenta do Observatório Social de BH e Brumadinho. Foi Auditora Federal de Finanças e Controle, com doutorado em administração pela UFMG. Também exerceu a função de Assessora Especial de Controle Interno da ministra Tereza Campello (MDS) no Governo Dilma.

Leia também:

MP Eleitoral arquiva denúncia de presidente do PT contra Mateus Simões por posts da Agência Minas

TCE dá 48 horas para Copasa se manifestar em ação contra liquidação da oferta de privatização

STJ mantém engenheiros da Vale e da Tüv Süd como réus em ação penal sobre tragédia de Brumadinho

Veja os Stories em @OFatorOficial. Acesse