Imagine um futuro em que guerras não sejam travadas por território ou petróleo, mas por algo que hoje ainda é natural para muitos: abrir a torneira e encontrar água. Durante muito tempo, esse cenário pertenceu apenas aos roteiros de filmes distópicos. Mas, para um olhar mais atento, a realidade começa a se aproximar inquietantemente da ficção.
Em diferentes regiões do planeta, crises ambientais, disputas geopolíticas e conflitos armados revelam uma mudança silenciosa na lógica do poder global: os recursos naturais tornaram-se ativos estratégicos. No atual conflito envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, muito se fala sobre petróleo. No entanto, à medida que as tensões se intensificam, outro recurso surge como ainda mais sensível, e talvez decisivo: a água.
A região do Golfo, por exemplo, concentra apenas cerca de 2% das fontes renováveis de água potável do planeta. Para sobreviver, países como Kuwait, Omã, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos dependem fortemente da dessalinização. Em outras palavras, milhões de pessoas vivem literalmente da água retirada do mar e transformada em água potável. Nesse contexto, sistemas de abastecimento deixam de ser apenas infraestrutura pública e tornam-se pontos socialmente estratégicos e de segurança nacional.
Essa realidade global lança uma pergunta incômoda justamente diante do Dia Mundial da Água, celebrado em 22 de março: o que realmente entendemos sobre o valor da água?
Mais do que uma data simbólica, o momento convida a refletir sobre algo essencial. Em um mundo atravessado por crises climáticas, eventos extremos, secas prolongadas e desigualdades sociais profundas, a água emerge como um dos pilares da dignidade humana. Sem água não há saúde, não há desenvolvimento, não há vida digna.
Talvez por isso um movimento silencioso esteja acontecendo em diversas partes do mundo. Após décadas de privatizações, muitos países começaram a revisar o modelo de gestão dos serviços de água e saneamento. Cidades e governos perceberam que entregar completamente esse recurso à lógica do mercado, focado em lucro, nem sempre significou mais eficiência na perspectiva do interesse social e público envolvido.
Nas últimas décadas, mais de 180 cidades em 35 países decidiram reverter privatizações e retomar o controle público desses serviços. Capitais importantes como Paris, Berlim e Budapeste estão entre os exemplos mais conhecidos.
Em muitos desses casos, a decisão ocorreu após experiências marcadas por aumento significativo de tarifas, baixa transparência na gestão e investimentos considerados insuficientes para garantir o acesso universal. Em Paris, por exemplo, após anos de operação privada, a cidade retomou a gestão pública da água em 2010, buscando maior controle social, transparência e redução de custos para a população.
Enquanto parte do mundo revisa decisões do passado, o Brasil parece caminhar em sentido oposto.
Nos últimos anos, políticas públicas e mudanças regulatórias têm ampliado significativamente a participação privada no setor de saneamento. O chamado “novo marco do saneamento”, aprovado em 2020, abriu espaço para concessões e privatizações em larga escala, estimulando a entrada de grandes grupos econômicos em um serviço que possui profundo impacto social.
Os efeitos dessa política já podem ser observados. No estado do Rio de Janeiro, parte da operação da Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro foi concedida à iniciativa privada em 2021, passando a ser operada por empresas como Águas do Rio, responsável hoje pelo abastecimento de dezenas de municípios e bairros da capital fluminense.
Outros casos se multiplicam pelo país. Em São Paulo, a Sabesp — maior empresa de saneamento da América Latina — passou por processo de privatização em 2024 após décadas de controle estatal. No Rio Grande do Sul, a Corsan também foi vendida para um grupo privado. Em estados como Alagoas e Amapá, concessões de longo prazo transferiram a operação de sistemas inteiros de água e esgoto para empresas privadas. Em Minas Gerais, a Companhia de Saneamento de Minas Gerais também passa por contexto semelhante de privatização.
O contraste é inevitável. Enquanto muitos países reavaliam privatizações para proteger o acesso universal à água, o Brasil amplia a lógica utilitarista de mercado sobre um serviço essencial à vida. Mas essa discussão vai muito além de modelos administrativos e resultados econômicos.
Trata-se de reconhecer que a água não pode ser reduzida a um simples ativo econômico. Ela é condição básica para a saúde pública, para a educação, para o trabalho, para a própria dignidade humana e até para segurança nacional. Milhares de brasileiros ainda adoecem todos os anos por falta de água tratada ou saneamento adequado. Crianças deixam de frequentar a escola, trabalhadores perdem dias de trabalho e comunidades inteiras permanecem invisíveis nas estatísticas do desenvolvimento.
Em um país como o Brasil, marcado por profundas desigualdades, inclusive no acesso ao saneamento básico, a forma como a água é administrada impacta diretamente a vida de milhões de pessoas.
Segundo dados da Pesquisa Saneamento, Educação, Trabalho e Turismo, do Instituto Trata Brasil/FGV, por ano, 217 mil trabalhadores precisam se afastar de suas atividades devido a problemas gastrointestinais ligados a falta de água tratada e saneamento. A cada afastamento perdem-se 17 horas de trabalho. A diferença de aproveitamento escolar entre crianças que têm e não têm acesso a água tratada e saneamento básico é de 18%. Essa realidade impacta a produtividade, o Produto Interno Bruto e a saúde.
A redução de doenças gastrointestinais não só traz benefícios para a saúde da população como também para os cofres públicos, ao diminuir o número de atendimentos pelo SUS e gastos em saúde pública. Isso é questão de finanças públicas e lugar de fala dos Auditores Fiscais.
Ao mesmo tempo, surgem iniciativas capazes de apontar caminhos de esperança. A jovem inventora brasileira Anna Luísa Beserra desenvolveu o Aqualuz, um dispositivo que utiliza radiação solar para purificar a água da chuva armazenada em cisternas. De baixo custo, fácil manutenção e com durabilidade de até 20 anos, a tecnologia pode transformar a realidade de comunidades que vivem em regiões com acesso limitado à água potável.
Iniciativas como essa demonstram que inovação, ciência e compromisso social podem caminhar juntos para enfrentar um dos maiores desafios do nosso tempo com políticas públicas estruturantes e adequadas ao nosso contexto social.
No século XXI, a água tende a ocupar um lugar cada vez mais central nas disputas globais, seja em cenários de guerra, crises climáticas ou conflitos econômicos. Mais do que petróleo ou outros recursos estratégicos, ela sustenta a própria possibilidade de vida.
Por isso, ao lembrar o Dia Mundial da Água, talvez a pergunta mais importante não seja apenas quanto vale a água e qual modelo é mais rentável, mas quem decide sobre ela e a quem ela deve servir.
A resposta a essa pergunta pode revelar muito sobre nosso espírito democrático, sobre cidadania, e sobre o tipo de sociedade que estamos construindo.
Porque, no fim das contas, a água não é apenas um recurso natural, é um bem comum da humanidade e um elemento essencial para a dignidade da pessoa humana. E garantir seu acesso universal, seguro e justo não é apenas uma escolha de gestão, é uma decisão civilizatória e estratégica de política pública.