A política dos EUA para Cuba sempre foi marcada, desde a revolução castrista, por um objetivo claro: provocar uma mudança de regime na ilha. E boa parte dos especialistas internacionais acreditaram que, com a deposição de Nicolás Maduro na Venezuela, em janeiro, e o posterior corte de fornecimento de petróleo, os americanos dariam o esperado xeque-mate contra o regime cubano.
No entanto, sinais recentes indicam que o governo americano pode estar ajustando essa antiga ambição à realidade. Há no horizonte sinais de que os EUA caminham, ainda que de forma cautelosa, para uma abordagem mais pragmática, baseada não no colapso imediato do regime, mas na extração de concessões possíveis.
A estratégia seria de uma mudança gradual, que levaria o governo cubano, por meio de negociações, a flexibilizar alguns de seus dogmas em troca de um relaxamento ainda que parcial do torniquete econômico. Há quem afirme inclusive da possibilidade de investimentos de empresas americanas na ilha.
De acordo com reportagem do jornal The New York Times, a administração americana estaria pressionando Havana pela substituição do presidente Miguel Díaz-Canel por outra liderança mais aberta a reformas em Cuba. Seria um gesto simbólico, mas que preservaria a estrutura do regime.
O princípio é o mesmo aplicado ao regime bolivariano da Venezuela, porém sem o emprego ostensivo de armas como foi feito pelos comandos especiais americanos em janeiro, que pegou o mundo de surpresa: a substituição da figura-chave do regime sem uma alteração profunda nas estruturas de poder de Cuba.
Se a nova estratégia se confirmar seria uma mudança importante para a política externa americana, em mais um passo surpreendente da administração Trump no sentido de trazer novas abordagens para temas que eram vistos como tabus para os burocratas de Washington.
Depois da captura e deposição de Maduro no início do ano, a estratégia dos EUA para a ilha caribenha parecia clara: intensificar ao máximo a pressão econômica. O endurecimento do embargo, aliado a medidas específicas, como o corte de fornecimento de petróleo à ilha, buscava aprofundar a crise interna cubana a ponto de forçar uma ruptura política.
O resultado, no entanto, não foi de instabilidade. A crise de fato se aprofundou, com escassez generalizada, apagões e aumento da insatisfação social. Mas o regime cubano não colapsou. Esse descompasso entre expectativa e resultado evidencia os limites da estratégia baseada quase exclusivamente na coerção econômica. Por outro lado, criou-se uma janela diplomática que antes não existia, com Cuba considerando reformas e até o diálogo com os americanos.
Diante desse cenário, o que emerge não é exatamente uma mudança de objetivo declarada, mas uma adaptação prática. Os EUA começam a considerar um caminho intermediário: em vez de insistir na transformação política total, passam a explorar a possibilidade de reformas econômicas graduais dentro do próprio sistema cubano. É o que no Brasil se costuma chamar de “comer pelas beiradas”.
Esse movimento reflete um padrão recorrente do pragmatismo político: o ajuste entre ambição e viabilidade. Quando o custo de alcançar um objetivo máximo se torna alto demais — e a probabilidade de sucesso, incerta —, abre-se espaço para soluções mais limitadas, porém concretas.
Há também um elemento estratégico mais amplo. Uma ruptura mais profunda em Cuba não interessa plenamente a Washington neste momento, especialmente em um contexto regional sensível.
Uma crise humanitária, com potencial de gerar um fluxo migratório e impactos econômicos indiretos é tudo o que a administração Trump, às voltas com a questão dos imigrantes, não deseja e nem precisa no momento. Nesse sentido, o pragmatismo não é apenas uma escolha diplomática — é também uma resposta a riscos concretos.
O que essa possível recalibragem revela, no fim, é a distância entre discurso e prática. A retórica de mudança de regime continua presente, mas as ações indicam uma política mais flexível, orientada por resultados tangíveis. Em vez de uma virada abrupta, trata-se de um reposicionamento gradual, quase silencioso.
Com isso, a política dos EUA para Cuba, parece estar prestes a entrar em uma nova fase — menos definida por objetivos absolutos e mais moldada por limites reais. Não se trata do abandono da estratégia histórica contra o regime socialista latino, mas uma adaptação. E, como frequentemente ocorre na política internacional, o pragmatismo surge não como uma escolha ideal, mas como um resultado imposto pelos fatos.
A conferir os próximos capítulos desse roteiro que pode nos brindar com um desfecho surpreendente na tumultuada relação entre Washington e Havana.