Sempre que vejo o craque Hulk jogar bate um certo saudosismo. Não apenas porque me lembra aquele ano mágico de 2021, mas principalmente porque, com ele em campo, parece que se despedem aos poucos algumas formas antigas de amar o futebol. Uma relação mais inteira, mais comprometida, vivida dentro e fora do campo.
É claro que houve propostas. Houve convites, possibilidades de saída, promessas de novos palcos. Pensou-se, sim, em encerrar o ciclo. Mas ele ficou. Ficou pela palavra dada, pela paixão que não se explica e por um sentido que talvez só ele conheça. O projeto nem sempre o favoreceu. O time, muitas vezes, não tocou como uma orquestra obediente ao maestro. Ainda assim, permaneceu. E isso, hoje em dia, já é raro o suficiente para emocionar.
Paixão não é entretenimento. Todo apaixonado sabe que esse sentimento não é um contrato de satisfação permanente. Somos seres “pato-lógicos”, chafurdados em exigências, cobranças, inquietudes. Ela não é Apolo, a perfeição e a ordem. Mas é Dionísio, a divindade que nos convida a se embriagar de vinho, de festa, de teatro e de desordem. Por isso que ela atravessa a razão e bagunça certezas, faz a gente continuar quando o mais lógico seria parar. Todo apaixonado, de algum modo, desafia o próprio livre-arbítrio.
Nos gramados, na vida
Por isso que alguns jogadores, além do campo, nos desarmam por dentro. Não pelo drible, nem pelo gol — embora eles existam — mas pela insistência silenciosa de continuar quando o roteiro já não promete nada. Há algo de profundamente humano nisso.
No futebol moderno, onde quase tudo virou cálculo, o ato de permanecer virou uma forma de resistência. Ficar é um gesto quase filosófico. É como se o jogador dissesse: não estou aqui apenas para vencer; estou aqui para significar. Esse “algo” que se mede em memória, em vínculo e pertencimento.
O torcedor percebe isso, mesmo que não saiba explicar. Pode reclamar, vaiar, pedir substituição. Mas, no fundo, reconhece quando alguém joga com a alma comprometida — não com o placar, mas com a história. É por isso que não aceito os comentaristas que coisificam o passado. Jogar pela história com o clube tem muita importância!
O futebol, no fundo, sempre foi um laboratório moral disfarçado de espetáculo. Um campo onde se experimentam virtudes antigas — lealdade, coragem, perseverança — num mundo que anda meio apressado para elas. Por isso alguns jogadores envelhecem em campo como velhos sábios: menos velozes, mas mais densos. Cada passo parece carregado de lembrança. Cada chute traz consigo um pedaço da própria vida.
Ver o Hulk jogar hoje é como assistir ao entardecer. Já não é o sol do meio-dia, ofuscante, invencível. Mas há uma beleza diferente ali — uma beleza madura, serena, quase silenciosa. O sol, nessa hora, não precisa provar nada. Ele apenas permanece no horizonte, sustentando a luz até o último instante.
Eternamente, ídolo
O saudosismo não revela uma saudade de vitórias, mas de um jeito de se relacionar com o futebol — menos utilitário, mais afetivo. Um tempo em que torcer era um pacto emocional, quase familiar. Vestir uma camisa significava mais do que consumir um produto.
Não é preciso falar em estatística, elas pouco valem na Academia Etílica de Copos e Letras do Boteco do Chicão. O torcedor, no fundo, é um sentimental disfarçado. Ele diz que quer resultado, desempenho, números. Mas o que deseja mesmo é eternidade. Quer que o ídolo permaneça para sempre — como naquela primeira tarde em que decidiu um jogo e, sem saber, decidiu também um pedaço da nossa vida.
Hoje, Hulk já não é apenas herói. Tornou-se testemunha viva de um futebol que começa a desaparecer, de uma época que se afasta pelo retrovisor.
Fica, Hulk
Por isso, quando um jogador permanece, ele realiza um gesto de coragem que poucos percebem. Não é teimosia. Não é vaidade. É fidelidade. Fidelidade a um amor que já não garante recompensa. Fidelidade a uma camisa que nem sempre oferece aplauso. Fidelidade a uma multidão que, às vezes, esquece, mas nunca deixa de sentir.
Porque o amor verdadeiro — no futebol e na vida — não se prova no auge.
É nesse silêncio que o futebol revela sua verdade mais humana. Naquele instante em que o jogador olha para o gramado vazio, respira fundo e entende — sem discurso, sem drama — que o futebol nunca foi só uma profissão. Foi uma maneira de existir.
