Licitações feitas por consórcios de cidades mineiras acendem alerta em TCE e MP

Pregão conduzido por consórcio intermunicipal é alvo de denúncia por suspeitas de direcionamento, falhas no edital e restrição à c
Pregão de R$ 204 milhões para compra de livros didáticos é alvo de cautelar. Foto: Divulgação/ALMG

Licitações suspeitas feitas por consórcios intermunicipais em Minas Gerais têm ocupado boa parte da rotina diária de órgãos de controle, como o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) e o Tribunal de Contas do Estado (TCE-MG). O tema ganhou espaço diante de indícios de irregularidades em contratos de alto valor nos últimos meses.

O caso mais recente — e que chamou muita atenção — envolve um pregão de R$ 204 milhões para compra de livros didáticos, suspenso na semana passada após suspeitas de direcionamento, restrição à concorrência e falhas na elaboração do edital.

O processo foi conduzido pelo Consórcio Intermunicipal Multifinalitário do Alto do Rio Grande. Segundo a representação encaminhada ao TCE-MG, o edital foi estruturado sem estudo técnico que justificasse a contratação, sem levantamento do número de alunos atendidos e sem pesquisa de preços baseada em critérios verificáveis.

A denúncia também aponta indícios de direcionamento da licitação para uma editora específica, de pouca presença no mercado e sem site institucional ativo. O edital indicava obras e editoras previamente definidas, inclusive para títulos em domínio público, o que pode restringir a participação de concorrentes.

Parte relevante da contratação previa a aquisição, em larga escala, de livros atribuídos a uma única autora, com tiragens que chegavam a 100 mil ou 130 mil exemplares por título. As obras abrangiam temas diversos, como cidadania, meio ambiente, saúde, educação financeira e combate às drogas, todas vinculadas à mesma editora. Há ainda suspeitas levantadas na denúncia de que os conteúdos possam ter sido produzidos com uso de inteligência artificial, sem comprovação de processo editorial compatível com o volume contratado.

O processo também apresentou falhas formais. De acordo com a denúncia, uma única pessoa concentrou a elaboração e assinatura de todas as etapas do edital. Empresas interessadas apresentaram impugnações dentro do prazo legal, mas não houve resposta por parte da administração. Apesar disso, o edital foi alterado poucos dias antes da sessão, sem republicação oficial.

A principal alteração foi a unificação do objeto em um único lote, no valor total estimado em R$ 204.014.533,33, o que, segundo o TCE, pode comprometer a competitividade e dificultar a análise das propostas. Mesmo diante dos questionamentos, uma empresa foi declarada vencedora provisória após alterar seu objeto social dias antes da licitação e apresentar atestados técnicos considerados incompatíveis com o porte do contrato.

Na decisão cautelar, o conselheiro Alencar da Silveira Júnior, relator do caso, apontou indícios de irregularidades graves, especialmente a alteração do edital sem reabertura de prazo. Também foram considerados a ausência de resposta às impugnações e a publicação de errata sem a devida formalização.

O relator destacou ainda que a adjudicação, homologação e convocação da empresa vencedora ocorreram no mesmo dia, ampliando o risco de dano ao interesse público. Diante disso, o TCE-MG determinou a suspensão imediata da ata de registro de preços até análise definitiva do caso.

Lucas Ragazzi é jornalista investigativo com foco em política. Integrou o Núcleo de Jornalismo Investigativo da TV Globo e tem passagem pelo jornal O Tempo, onde cobriu o Congresso Nacional e comandou a coluna Minas na Esplanada, direto de Brasília, e pela Itatiaia. É autor do livro-reportagem “Brumadinho: a engenharia de um crime”.

Leia também:

Ione Pinheiro já tem assinaturas para oficializar candidatura ao TCE

Mudança no comando da Justiça Eleitoral em MG altera relatoria de processos contra vereadores de BH

ALMG diz ao STF que ajustou regras de emendas parlamentares para atender decisão sobre transparência

Veja os Stories em @OFatorOficial. Acesse