Zé Mendonça tinha barba de Vinicius e a mesma maneira de segurar o copo — três dedos, o polegar largado, os olhos em outro lugar. Preferia cerveja, mas se pintasse uísque ou cachaça também encarava. No café da manhã costumava misturar conhaque Domec com gemada. Dizia que dava sustança. Numa fase mais tardia descobriu o champanhe, daquele nacional mesmo, e dizia que champanhe parecia reza subindo. “Brindar é selar o que não se rompe”, falava, e erguia a taça para alguém que ninguém sabia quem era. A Neusa desconfiava, mas nunca perguntou. A vida era viagem, ele repetia. Às vezes repetia tanto que a gente já sabia a hora exata em que ele ia dizer.
Era também bioquímico. Muitos na família sabiam, mas poucos lembravam quando ele passava os dias de chinelos e camiseta furada. Tinha um calo no dedão do pé direito. Pois num determinado momento da vida, antes de fincar raízes onde fincou, Zé foi nomeado delegado em Correntina, naquela Bahia de Jorge Amado, de João Ubaldo, de tanta gente grande.
Correntina era cidadezinha de poucas ruas e muitas lendas, lugar onde o São Francisco preguiçava entre barrancos e o cheiro de pequi entrava pelas janelas sem pedir licença. Uma vez ele contou que lá tinha um homem que vendia picolé de pequi. Não sei se é verdade, mas ele contava. Foi lá que lhe apareceu um caso que nunca contou direito, mas que um primo ouviu de outro primo e assim foi descendo até chegar aos meus ouvidos.
Prenderam um rapaz. Filho de família conhecida, desses que frequentavam a praça da matriz e cumprimentavam os mais velhos tirando o chapéu. O motivo: carregava no bolso do casaco um tablete prensado de erva, daquelas que a gente mais tarde aprendeu a chamar de maconha. O pacote, dizem, lembrava aquela embalagem de vinte maços de cigarro, bem apertadinho, envolto em papel pardo e fita adesiva. O escrivão lavrou a ocorrência, o delegado Zé Mendonça foi chamado. Ele desceu as escadas da delegacia arrastando as alpercatas e se deparou com o menino branco de susto, os olhos no chão, as mãos suando. Era magro, o rapaz. Tinha espinhas na testa. Zé mandou soltar as algemas. Pediu um café. Depois outro. E começou a conversar.
Conversa de bioquímico, não de delegado. Explicou o que aquela substância fazia com os neurônios, com a memória, com a vontade. Dopamina, serotonina, um monte de nomes difíceis. O rapaz ouvia de cabeça baixa, mas Zé não ralhou. Falava com calma, como se estivesse ensinando uma receita de bolo. E terminou dizendo que cada um carrega a sua fuga dentro de si, mas que existem fugas que libertam e fugas que aprisionam. Depois fez o que só um coração como o dele faria: ficou com a erva. Disse que o rapaz estava liberado, que voltasse para casa, que a família não precisava saber, mas que se houvesse reincidência ele mesmo iria buscá-lo na porta da escola. O garoto saiu andando ligeiro pela rua de terra, sem olhar para trás. Tropeçou numa pedra, mas não caiu. E o delegado Zé Mendonça guardou o tablete prensado na gaveta da escrivaninha, entre um maço de papéis timbrados e uma caixa de charutos vazia. A caixa tinha um desenho de um índio na tampa. Ele gostava de caixas
Meses depois, já fora da delegacia, mas ainda em Correntina, Zé passou a frequentar o alpendre dos fundos da casa com uma assiduidade que intrigava a Neusa. Sentava na cadeira de lona — uma cadeira velha que rangia —, olhando o pé de manga, e ficava lá horas. Às vezes dormia ali mesmo, de boca aberta. Segundo quem viu e contou, ele foi testando aquela erva prensada pouco a pouco, no cachimbo que trazia sempre no bolso do paletó. O paletó era marrom, meio gasto nas mangas. Dizem que durou uns bons meses. Ninguém sabe ao certo o que ele procurava ali. Talvez nada. Talvez só curiosidade. O fato é que nunca mais tocou no assunto, a erva acabou, e o pé de manga continuou dando manga. As mangas eram doces, mas fibrosas.
Havia uma data que Zé tratava como feriado particular: um dia de novembro. Ninguém sabia qual. Todo ano, nesse dia, sumia. Voltava três, quatro dias ou meses depois com uma alegria que ele escondia mal. Os irmãos especulavam: promessa? Encontro? Ele só sorria e desconversava. Uma vez soltou: “Tem coisa que a geografia não explica.” Depois pediu um café e mudou de assunto.
A Neusa era brava, mas apaixonada por um homem que nunca coube inteiro em lugar nenhum. Quando ele sumia, ficava parada na cozinha, com as mãos na pia, e calculava. Às vezes quebrava um copo de nervoso. A gente chamava de tio — primo de primeiro grau do meu pai, criados juntos em Sapé de Ubá, hoje Guidoval. Meu pai e ele tinham um jeito parecido de caminhar, mas o Pai tinha passos rápidos pelas ruas de Juiz de Fora, como se estivesse sempre atrasado. Zé Mendonça era calmo, quase arrastando os pés. Arrastava tanto que gastava sola de sapato só de um lado. Lembro de meu Pai dizendo: “Cada passo é sagrado.” Zé dizia coisa parecida, mas doía mais nele. Uma vez me contou que queria ir a Roma. “Tem uma escada lá”, disse. “O pessoal sobe de joelhos. Deve doer, mas dizem que alivia. Queria deixar por lá umas coisas que carrego.” Depois acendeu um cigarro e ficou olhando a fumaça. Nunca foi. Faltou dinheiro, faltou tempo. Mas até hoje, quando alguém querido vai viajar, me pego sugerindo esse lugar. A escada Santa. Aquela que Jesus subiu para o martírio.
Ele não anunciava nada, mas a Neusa conhecia os sinais: uma inquietação no olhar, a bolsa aberta sem explicação. E foi ao lado dela que fez a última viagem. Itapemirim, poltrona três, primeira fila, janela. O cerrado deslizando na altura de Cristalina. Apoiou a cabeça no vidro, fechou os olhos. Ela pensou que dormia. Só quando o ônibus encostou na rodoviária de Brasília e o povo começou a levantar, ela tocou a barba dele. “Zé, chegamos.” Ele já tinha partido. O motor parou de zumbir e um silêncio grande ocupou o ônibus. Alguém lá atrás ainda puxava uma mala do bagageiro. Há muito ele encomendara um caixão de jacarandá, madeira escura cheirando a floresta, e a família o colocou dentro. Meu pai e eu estávamos em Juiz de Fora. O telefone tocou. Dezenove horas de estrada nos separavam de Brasília, mas o custo das passagens, naquele tempo, era inalcançável. Ficamos os dois parados no escritório, o telefone mudo no gancho. Meu pai coçou a cabeça, depois foi até a janela. Não chorei na hora. Fui chorar dias depois, vendo um ônibus passar na estrada. Era um ônibus qualquer, nem era da Itapemirim.
A saudade não precisa de morte. Basta distância. Mas não a distância das horas de estrada — hoje se cruza o Atlântico em doze horas, com filme e jantar incluído. A distância que dói é aquela em que a pessoa já não ocupa o mundo do mesmo jeito. Tem gente longe que continua perto. E gente perto que já foi embora. Meu pai tinha um caderno onde anotava de tudo. Uma vez me mostrou uma frase sobre a distância e o vento. Não lembro direito, mas era bonita. Acho que era de um francês. Dentro da bolsa dele, a Neusa encontrou camisas amassadas, um sabonete meio gasto, um cigarro, um pouco da erva de Suez, um isqueiro prateado com as iniciais riscadas: S. C. — São Cristóvão. E um lenço bordado com uma data: um dia de novembro. Só o mês, sem o ano. Nenhum presente. A Neusa guardou o lenço numa gaveta de calcinhas.
O ônibus seguiu para a garagem depois que tiraram o corpo. A poltrona três ficou lá, reclinada, o vidro ainda com a marca da testa dele. Depois alguém deve ter limpado. A Neusa voltou para casa com a bolsa no colo: o bilhete de passagem, um santinho de São Cristóvão dobrado. Depois disso, nunca mais conseguiu entrar num ônibus da Itapemirim sem olhar a poltrona da frente. Uma vez entrou num de outra “Viação” por engano e sentou-se no fundo. Penso nas poltronas vazias que viajam por aí.