Entre votos, lucros e o arco-íris

Em um ano eleitoral, permanece a pergunta que junho insiste em revelar: quem continuará presente quando os holofotes se apagarem?
Foto: Jonas Pereira/Agência Senado.
Foto: Jonas Pereira/Agência Senado.

Chegamos a junho. As redes sociais ganham as cores do arco-íris, logotipos são temporariamente modificados, campanhas publicitárias surgem em velocidade impressionante e grandes empresas disputam espaço para demonstrar apoio à população LGBTI+. Durante algumas semanas, a diversidade parece ocupar o centro das estratégias de comunicação de marcas, instituições e até figuras públicas que, durante o restante do ano, permanecem em absoluto silêncio diante das violências que atingem essa mesma população.

A pergunta que precisa ser feita é simples: quantas dessas manifestações representam compromisso real e quantas são apenas operações de marketing cuidadosamente planejadas para alcançar um público consumidor específico?

O chamado capitalismo arco-íris não é novidade. Há anos, movimentos sociais, pesquisadores e ativistas alertam para a apropriação comercial das pautas LGBTI+ por empresas que utilizam símbolos da diversidade sem adotar políticas efetivas de inclusão, empregabilidade, proteção de direitos ou combate à discriminação dentro de suas próprias estruturas.

O problema é que essa prática ganhou um novo elemento: o medo.

Nos últimos anos, especialmente após o fortalecimento de governos fundamentalistas em diversas partes do mundo, empresas passaram a recalcular publicamente o seu posicionamento. Nos Estados Unidos, diversas corporações reduziram ou reformularam programas de Diversidade, Equidade e Inclusão (DEI) após pressões políticas e medidas adotadas pela gestão de Donald Trump. O fenômeno rapidamente ultrapassou as fronteiras norte-americanas e produziu reflexos em diferentes mercados. O que antes era apresentado como valor institucional passou a ser tratado como risco reputacional.

A mensagem transmitida é perigosa: enquanto apoiar a diversidade gera lucro e boa reputação, a pauta é abraçada. Quando surgem riscos políticos, eleitorais ou econômicos, o compromisso desaparece.

A própria Parada do Orgulho LGBTI+ de São Paulo, considerada a maior do mundo, tornou-se neste ano um retrato contundente dessa contradição. O evento registrou uma redução significativa no volume de patrocínios privados, com a saída de empresas que historicamente associavam suas marcas às campanhas de diversidade. O episódio expôs uma realidade que o movimento social denuncia há décadas: parte do apoio corporativo à população LGBTI+ continua condicionado à conveniência econômica e ao ambiente político do momento.

É impossível não perguntar: como ainda estamos discutindo esse tipo de situação em pleno século XXI?

A resposta talvez esteja justamente na superficialidade com que parte da sociedade trata a pauta LGBTI+. Quando a diversidade é reduzida a uma campanha publicitária, um slogan temporário ou uma fotografia colorida nas redes sociais, perde-se a dimensão da luta por dignidade, segurança e cidadania.

O mesmo fenômeno pode ser observado na política.

Como acontece em praticamente todos os anos eleitorais, junho também marca o início de uma intensa aproximação de candidatos, parlamentares e lideranças partidárias junto aos movimentos sociais. Telefones voltam a tocar. Convites para reuniões reaparecem. Fotografias ao lado de ativistas tornam-se desejáveis. Discursos em defesa dos direitos humanos surgem em agendas que permaneceram vazias durante anos.

A população LGBTI+ conhece esse roteiro. Ele se repete a cada eleição.

A cidadania LGBTI+ não pode ser tratada como ativo eleitoral.

É preciso compreender que visibilidade e orgulho são, no fundo, expressões de uma mesma luta.

Não existe orgulho sem visibilidade. Mas também não existe visibilidade verdadeira quando ela não produz transformação concreta.

De pouco adianta lançar campanhas publicitárias emocionantes se travestis e mulheres trans seguem encontrando portas fechadas no mercado de trabalho. De pouco adianta estampar a diversidade em embalagens e redes sociais enquanto projetos de lei tentam restringir direitos, limitar espaços de existência e alimentar o preconceito.

Vidas que não desaparecem quando junho termina.

Vidas que não podem esperar até o próximo mês do orgulho para terem seus direitos reconhecidos.

Se existe algo a celebrar neste mês, não é a capacidade das empresas de colorirem seus logotipos nem a habilidade de políticos em encontrarem discursos convenientes. O que merece ser celebrado é a coragem de uma população que continua existindo, resistindo e reivindicando dignidade em uma sociedade que ainda insiste em negar sua plena cidadania.

E é justamente por isso que orgulho não pode ser um evento. Não pode ser uma campanha. Não pode ser uma estratégia. Orgulho precisa ser compromisso. Todos os dias do ano.

Jornalista, licenciado em História e bacharel em Teologia, com especialização em Planejamento Educacional e Políticas Públicas. Coordenador de Comunicação da Aliança Nacional LGBTI+ e co-presidente do Comitê de Comunicação da InterPride, atua na formulação de estratégias de comunicação e advocacy político em direitos humanos, com incidência em agendas nacionais e participação em espaços de articulação internacional.

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