Educação sozinha não é fator de mudança

Simplesmente buscar elevar o nível de instrução de uma população, avançar nas bases de Educação, não garante absolutamente nada.
Sala de aula
Foto: Marco Evangelista/Imprensa MG

Ao longo do tempo e das argumentações, há um lugar comum na fala de grande parte da sociedade: somente a Educação, o grau de instrução pode melhorar o Brasil. Essa linha de pensamento, repetida desde aulas superficiais até em mesas de restaurantes ou bares, assumiu em si uma hipótese de verdade, por si só a desconhecer ou ignorar fatores outros que efetivamente proporcionam o desenvolvimento em sociedade. Entretanto, quando se analisam os dados e implicações da vida real, essa hipótese se mostra falsa. Sim, simplesmente buscar elevar o nível de instrução de uma população, avançar nas bases de Educação, não garante absolutamente nada.

Para que se tenha a real medida da crítica desenvolvida, imagine-se o seguinte contexto. Alguém entra em um carro, liga, e no ponto morto, com o carro desengrenado, acelera. O carro não se moverá. Por mais forte que seja a aceleração, sem o encaixe de engrenagens no motor, sem uma sistemática de giro que permita o movimento, a pura aceleração não resolve nada. O carro não se move, fica estagnado. Imaginar que a sistemática da Educação, do grau de instrução, pode por si levar ao desenvolvimento e ao progresso é um mito, uma quimera que desconhece a realidade social, como se pontua na teoria crítica, sob destaque de autores dos mais diversos campos como Axel Honneth, Nancy Fraser e Joseph Stiglitz.

A Educação por si não muda nada. Simplesmente elevar grau de instrução sem a engrenagem de movimentação leva a desgaste social e frustração, com efeito rebote inverso, no qual a educação se torna subvalorizada. Pense-se aqui naqueles que estudam por anos e não tem espaço no mercado, passando a se dedicar a outras áreas, para as quais seu diploma ou formação se tornou uma desilusão. E a desilusão, o desapontamento, a decepção para com o percurso feito (e sentido como inútil) produz um indivíduo ressentido, que projeta desde indiferença e até mesmo repúdio ao mundo vivido. A sistemática econômica, jurídica e sociocultural colocou a pessoa para acelerar um carro desengrenado. O veículo não se moverá, pela conjuntura, pela ausência de engrenagens sociais para seu movimento, e não em razão de quem acelerava.

Mas qual ou quais são as engrenagens? A perspectiva econômica heterodoxa e as linhas de reflexão ligadas à teoria crítica possuem respostas que convergem. As engrenagens de efetivo progresso e desenvolvimento estão nos mecanismos e bases firmadas para redistribuição de renda, voltadas para garantir ganhos plurais na sociedade. Países desenvolvidos não se tornaram ricos por terem maior nível de Educação, mas sim por terem mecanismos institucionalizados para garantir níveis de redistribuição contínuos, aptos a proporcionar níveis máximos de desigualdade permitidos, fora dos quais o que se tem é a ineficiência. O movimento evolutivo nasceu da combinação em sinergia, em uma espiral de retroalimentação recíproca.

Há um giro compreensivo. Para garantir o progresso e desenvolvimento, deve-se garantir reduções de níveis de desigualdade, com aberturas de redistribuição pelas quais a engrenagem social possa ser movimentada pelo acelerar educacional. Justamente por desconhecer essa matriz, por não descortinar a realidade social e econômica, caminha-se por vezes para a desilusão coletiva para com a educação. 

Um jovem vê um familiar se esforça e estuda formando após longos anos e gastos financeiros, sendo que ao final não encontra uma atividade que lhe retribua financeiramente a contento. Por outro lado, o jogador de futebol, o cantor, o influencer, aparentam a esse jovem um caminho mais fácil, de maior renda, e de menor frustração. Evidentemente, será possível encontrar um jogador de futebol, cantor ou influencer com alto nível de instrução, mas esse não é um requisito. Uma sociedade imagina a Educação por si um fator de mudança cai em uma mística que não se sustenta. Passa a acreditar que o acelerador pode movimentar um carro em ponto morto, ou no “neutro” (nem o carro automático se movimenta sem engrenagens, a não ser ladeira abaixo…).

É imperativo que se pense mais nas engrenagens, mais na redistribuição e em níveis toleráveis (e não toleráveis) de desigualdade do que pura e tão somente na Educação. O indivíduo precisa saber que seu mérito em acelerar precisa contar com engrenagens institucionais que lhe permitam crescer, desenvolver, evoluir. Sem conformações coletivas na linha da espiral de progresso, meritocracia é a quimera de uma sociedade iludida do hoje e frustrada do amanhã. Quando se analisam os dados da Europa ocidental, dos Tigres Asiáticos, da própria China e dos Estados Unidos (no New Deal), Canadá e Austrália, esse ponto é comum. Mecanismos redistributivos levaram ao desenvolvimento e este propulsionou a elevação dos níveis de Educação, em uma espiral recíproca virtuosa. É como se o veículo fosse elevando sua “marcha” na composição das acelerações que se sucedem. Sem redistribuição, sem contenção de níveis de desigualdade, não só a Educação se mostra algo inerte, mas ela se torna um fator conjuntural de desengano, fonte de produção de pessoas desencantadas com o presente e o futuro, levando a um ciclo vicioso no contexto econômico e sociocultural.

Marcelo Kokke é Procurador Federal da Advocacia-Geral da União (AGU) e professor do Mestrado e Doutorado da Faculdade Dom Helder Câmara. É especialista em processo constitucional e pós-graduado em Ecologia e Monitoramento Ambiental. É Coordenador Nacional de Assuntos Estratégicos e Responsabilidade Civil do IBAMA.

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