O ofício do vazio: do mestre Zen ao banco da praça

Caderno vazio
Foto: reprodução/PxHere

Há uma velha história Zen que já apareceu em livro, palestra, legenda de rede social e conversa de fim de noite. Um discípulo procura um mestre e pergunta como atingir a iluminação. O mestre começa a servir chá. Enche a xícara do discípulo e continua despejando, mesmo depois que o líquido transborda e se espalha pela mesa. O discípulo, confuso, diz: “Mestre, a xícara está cheia. Não cabe mais nada.” E o mestre responde: “Como posso ensinar se sua mente já está cheia? Volte quando estiver vazia.”

É uma boa história. Econômica, visual, difícil de esquecer. O problema começa quando a gente entende rápido demais. Porque aí a história vira enfeite — algo que a gente cita em conversa e guarda na gaveta das coisas que já sabemos. Mas essa história não foi feita para ser entendida. Foi feita para ser sentida na pele, como o chá quente escorrendo pelos dedos.

Só que sentir dá trabalho. Dá uma preguiça existencial de esvaziar a xícara. Encher é mais fácil. Basta ir acumulando: um artigo aqui, uma opinião ali, um argumento decorado, uma indignação que todo mundo compartilha. Em pouco tempo a xícara está cheia de novo, e a gente se sente equipado. Pronto para discutir, para opinar, para ter razão.

Vejo isso o tempo todo em discussões, ainda mais no meu meio profissional. As pessoas não se escutam — esperam a pausa do outro para inserir seu bloco de texto mental. Às vezes o outro até diz algo novo, algo que deveria atrapalhar a resposta. Mas a resposta já estava pronta. A gente não conversa: encaixa o mundo no argumento que trouxe de casa. A xícara já está cheia. Dali em diante, ninguém bebe mais nada — só confirma o que já tinha.

O curioso é que ninguém se acha de xícara cheia. Todos se consideram abertos, flexíveis, capazes de mudar de opinião. Mas mudar de opinião dói. É como jogar fora um móvel que esteve a vida toda na sala. A sala fica vazia, ecoa, os outros estranham. Cadê aquele seu argumento sobre política? E aquela sua teoria sobre o amor? Sumiram. E você fica ali, desfalcado.

Começar do zero assusta porque tira a mobília da sala. De repente sobra espaço demais. E espaço demais, para quem passou a vida acumulando certezas, parece ameaça. A gente evita o vazio a qualquer custo. Preenche com barulho, com lista de tarefas, com a notificação do celular. Preenche com certezas vagabundas, daquelas que a gente nem checou de onde vieram, mas que servem para tampar o buraco.

Uma criança de cinco ou seis anos ainda consegue fazer a mesma pergunta pela décima vez sem sentir que está atrapalhando a ordem do mundo. Ela pergunta “por quê?” e, quando respondem, não agradece a explicação: desmonta a explicação com outro “por quê?”. A xícara dela está sempre virando. A vergonha de não saber vem depois. É uma dessas coisas que a gente aprende sem perceber. A gente passa metade da vida aprendendo e a outra metade fingindo que sabe o que nunca aprendeu.

Outro dia observei uma cena banal. Um senhor numa praça, sentado sozinho, olhando as árvores. Era fim de tarde, e ele estava com as duas mãos apoiadas na bengala, a sacola de feira pendurada no braço do banco. Não mexia no celular. Não conversava com ninguém. Não parecia esperar nada. Só olhava. Fiquei pensando no que ele estava vendo que eu não via. Porque eu também olhei para as mesmas árvores e não vi nada — vi árvores. Catalogadas, nomeadas, despachadas. Árvore: sei o que é. Próximo. Mas ele parecia estar ali havia tempo, como se as árvores fossem um texto e ele estivesse lendo devagar.

Talvez o ofício do vazio comece exatamente aí: em sentar-se e não preencher. Não correr para o veredicto. Não aplicar a metáfora pronta. Só olhar. E continuar olhando mesmo quando não acontece nada. Porque no começo não acontece nada mesmo. O vazio é entediante. Mas depois de um tempo o tédio muda de textura. Você continua ali, sem grande revelação, mas já não está procurando tanto. As coisas começam a chegar sem anúncio.

A fábula do mestre Zen termina com o discípulo levando um susto e, supõe-se, aprendendo a lição. Mas eu desconfio que a parte mais verdadeira da história vem depois, quando o discípulo vai embora e o mestre lava a xícara. Água, sabão, esfrega. Um gesto doméstico, sem plateia. Porque de nada adianta o discípulo entender a metáfora se amanhã a xícara já estiver cheia de novo. O difícil não é esvaziar uma vez. É esvaziar todo dia. É fazer do esvaziamento uma prática que ninguém aplaude, que não dá diploma, que não rende citações.

Esvaziar é uma coisa. Permanecer vazio é outra. A parte difícil é não sair correndo atrás da primeira certeza disponível. Talvez, depois de algum tempo, a gente perceba que o vazio não é falta. É espaço. E espaço não pede explicação; pede presença. Para que alguma coisa entre. Não a coisa que você esperava. Não a confirmação do que você já pensava. Mas uma coisa nova. Inesperada. Errada, talvez. Mas sua.

A gente começa achando que entendeu. Depois percebe que não. Talvez seja esse o primeiro gole.

Jorge Berg é desembargador do Tribunal Regional do Trabalho da 3ª Região, Conselheiro Benemérito do Clube Atlético Mineiro e Adido Consular Cultural de Luxemburgo em Minas Gerais.

Leia também:

O ofício do vazio: do mestre Zen ao banco da praça

A sensibilidade por trás da força

Justiça nega recurso e mantém condenação de ex-prefeito mineiro por mandar matar comerciante e ameaçar Durval Ângelo

Veja os Stories em @OFatorOficial. Acesse