Em recuperação judicial desde 2023, a Cervejaria Três Lobos, dona da marca Backer, recebeu neste mês ordem judicial para o pagamento de R$ 273,7 mil devidos à administradora que conduz o processo de negociação junto aos credores da empresa. O passivo, apurou O Fator, já foi quitado. A assembleia geral de credores, a propósito, está agendada para 6 de julho.
A Três Lobos pediu recuperação judicial na esteira dos impactos financeiros da contaminação por dietilenoglicol de unidades da cerveja Belorizontina, que matou 10 pessoas e deixou outros 16 consumidores com sequelas graves, como paralisia facial, cegueira e comprometimento das funções renais. O caso veio à tona no início de 2020.
Expedido no dia 2 deste mês pelo juiz Murilo Silvio de Abreu, da 2ª Vara Empresarial da Comarca de Belo Horizonte, o edital de convocação da audiência foi publicado nesta segunda-feira (22). O magistrado estabeleceu 13 de julho como data para eventual convocação de segunda chamada da reunião.
Em 9 de junho, Abreu deu cinco dias à Três Lobos para transferir os R$ 273,7 mil à administradora judicial. Segundo a DMA Advogados, designada pela Justiça para conduzir o processo, o valor era referente a parcelas não pagas entre outubro de 2025 e junho deste ano.
O acordo prevê à cervejaria a obrigação de repassar 36 parcelas mensais de R$ 30,4 mil à DMA. Procurado pela reportagem, o escritório informou que o débito foi saldado.
“O inadimplemento integral das parcelas vencidas, sem justificativa idônea previamente apresentada, revela situação grave, pois compromete o regular funcionamento da Administração Judicial e pode evidenciar incapacidade da Recuperanda de suportar obrigações correntes mínimas inerentes ao próprio procedimento recuperacional”, escreveu Murilo Sílvio de Abreu, ao conceder o prazo para a regularização das prestações.
Ainda conforme o magistrado, o parcelamento em três anos foi definido “para evitar comprometimento excessivo do fluxo de caixa da empresa”.
Inicialmente, a assembleia de credores aconteceria ainda em junho. A Três Lobos, contudo, pediu o adiamento da etapa para o mês que vem, alegando indisponibilidade da plataforma digital que abrigará a reunião, prevista para acontecer de modo remoto.
Crise financeira
O deferimento da recuperação judicial da Três Lobos completou três anos na sexta-feira (19). Na petição em que solicitava a entrada no regime, a empresa traçou um histórico do comprometimento financeiro causado pela contaminação de unidades da Belorizontina.
Conforme a Três Lobos, as atividades industriais, interrompidas em janeiro de 2020, só foram retomadas em abril de 2022. Em outubro de 2021, a cervejaria recebeu aval para retomar a produção, mas só pôde voltar a comercializar os itens cerca de um semestre depois.
Ainda de acordo com a companhia, durante o período de portas fechadas, houve parceria com uma fábrica de São Paulo, a Germânia, em prol da comercialização da Capitão Senra, outra marca de seu portfólio. Posteriormente, contudo, uma decisão judicial vedou a venda dos exemplares. Quando do sinal verde para a distribuição, o produto já estava perto do vencimento, o que ampliou o prejuízo.
Ao reivindicar a recuperação judicial, a Três Lobos sustentou que o mercado não rejeitou seus produtos após o caso envolvendo a Belorizontina.
“Se for implementada na direção da empresa uma gestão de qualidade, que saiba aproveitar a sua ainda relativa boa aceitação no mercado, apesar da tragédia causada pela cerveja Belorizontina, bem assim equacionada a dívida acumulada, a experiência ordinária de todos nós sinaliza a possibilidade de êxito desta recuperação judicial”, ressaltou à época o juiz Adilon Cláver de Resende, responsável por aprovar a solicitação.
Réus absolvidos
Em 4 de novembro do ano passado, a Justiça absolveu os 11 réus do caso de contaminação das bebidas. O juiz Alexandre Magno de Resende Oliveira reconheceu o dano gerado às vítimas, mas considerou que não havia provas suficientes para condenação criminal.
Entre os absolvidos, estão Ana Paula Lebbos, Hayan Franco Khalil Lebbos e Munir Franco Khalil Lebbos, sócios da cervejaria. O Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), que recorreu da decisão, os acusou de vender produto adulterado com dolo eventual e de não comunicar os consumidores sobre a nocividade após a interdição dos lotes.
Perícias da Polícia Civil e do Ministério da Agricultura identificaram contaminação em 36 lotes de diversas marcas produzidas pela cervejaria entre janeiro de 2018 e janeiro de 2020. Os laudos apontaram presença de monoetilenoglicol e dietilenoglicol, substâncias tóxicas não recomendadas para a indústria alimentícia.
A investigação revelou que a Backer passou a adquirir monoetilenoglicol em setembro de 2017, com a intenção de utilizar o composto como anticongelante.
Laudos técnicos identificaram múltiplos pontos de contaminação na fábrica, incluindo tanques de fermentação e a fase conhecida como “cozinha” do processo produtivo. O relatório do Ministério da Agricultura descartou a hipótese de que a contaminação ocorreu apenas em um tonel, como inicialmente suspeitado.