Sabem aquela piadinha boba e antiga sobre o marido que, ao descobrir que a mulher o traía com o vizinho no sofá da sala, mandou jogar o móvel fora? Pois é. O Brasil, deitado não em berço esplêndido, mas na eterna incapacidade de enfrentar e resolver problemas cotidianos, usualmente apela para a saída mais fácil e contraproducente: elimina aquilo que está à vista, mas preserva a causa e ainda fabrica novas nefastas consequências.
Pois é. As bets são o sofá da vez. Como milhões de brasileiros perdem o dinheiro que já não têm, se endividam e desenvolvem compulsão pelo jogo, a solução de políticos, moralistas profissionais e especialistas em mandar na vida alheia é proibir, restringir ou inviabilizar as empresas de apostas. Se o sujeito não consegue controlar o próprio impulso e o Estado não consegue fiscalizar, portanto, atira-se o sofá pela janela.
A história bananeira mostra que essa receita costuma funcionar magnificamente, desde que seja para não resolver absolutamente nada. Em 1946, o presidente Eurico Gaspar Dutra proibiu a exploração de jogos de azar, alegando que a repressão constituía um “Imperativo da consciência universal” e que o jogo seria incompatível – como é mesmo? – com a moral e os bons costumes. Os cassinos, legalizados desde 1920, fecharam da noite para o dia.
O vício oficial
A canetada moralista não acabou com a jogatina, é claro. Acabou com os cassinos legais, com os impostos, com o controle estatal e com aproximadamente 55 mil empregos diretos e indiretos em um país que possuía, à época, 41 milhões de habitantes. O jogo, então, migrou para a clandestinidade, onde prosperaram o bicho, os caça-níqueis, os bingos escondidos, os banqueiros ilegais, a corrupção policial e o crime organizado.
Algum tempo depois, o mesmo Estado, que havia decretado que apostar atentava contra os bons costumes, descobriu que os maus poderiam ser bastante úteis quando o dinheiro ia para campanhas eleitorais ou para seus próprios cofres. Vieram a Loteria Esportiva, a Loteria Federal, a Quina, a Mega-Sena, a Lotofácil, a Lotomania, a Timemania, a Dupla Sena, o Dia de Sorte e sei lá mais quantas outras formas oficiais.
Hoje, a Caixa aceita apostas pela internet e pelo aplicativo, permitindo ao cidadão jogar de onde estiver. A diferença moral entre perder o salário tentando acertar seis dezenas na Mega-Sena e perdê-lo apostando que o Galo vencerá o Flamengo por dois gols nunca foi devidamente explicada. Talvez porque não exista. Em ambos os casos, alguém entrega seu dinheiro em troca de uma possibilidade estatística de receber mais.
Proibir para quem?
Quando o Estado organiza o jogo, chama-se loteria, esperança, sonho ou contribuição social. Quando uma empresa privada faz o mesmo, vira ameaça à família brasileira. As bets, evidentemente, não são instituições filantrópicas. Ganham porque os apostadores, em conjunto, perdem. A publicidade é agressiva, o patrocínio tornou as marcas onipresentes e a facilidade de apostar, sobretudo online, ampliou enormemente o acesso.
Sim. Há pessoas compulsivas, famílias destruídas e dinheiro essencial sendo torrado em roletas digitais e palpites esportivos. Negar isso seria tão desonesto quanto concluir que a única solução possível é a proibição. Mas o álcool também provoca dependência, acidentes, doenças e violência doméstica. Nem por isso alguém intelectualmente sério imagina acabar com o alcoolismo fechando supermercados, bares e restaurantes.
Cartões de crédito permitem que famílias gastem muito além do que recebem. Bancos oferecem empréstimos a juros pornográficos. O comércio parcela televisores, celulares e motos em dezenas de prestações. Nenhuma dessas atividades é proibida porque alguns consumidores fazem uso desastroso delas. A função do Estado consiste em estabelecer limites, fiscalizar empresas, punir abusos, restringir publicidade etc.
A clandestinidade agradece
O mercado regulado brasileiro já exige autorização federal, identificação dos operadores pelo domínio “.bet.br”, certificação dos jogos e mecanismos de jogo responsável. Desde janeiro de 2025, apenas as empresas autorizadas pela Secretaria de Prêmios e Apostas podem atuar nacionalmente. Em julho de 2026, havia quase 90 empresas autorizadas. Isso significa que a regulamentação atual está resolvida e perfeita? Longe disso.
A propaganda deveria ser muito mais restrita, sobretudo durante as transmissões esportivas. Celebridades e influenciadores não poderiam vender a ilusão de enriquecimento fácil. Limites voluntários de depósitos e perdas deveriam ser oferecidos de modo ostensivo. Operadores precisariam detectar padrões de compulsão e bloquear as contas, em vez de premiar o apostador descontrolado com bônus e estímulos.
O governo federal – mas só ele – também deve ampliar os instrumentos de proteção. A plataforma centralizada de autoexclusão já permite que uma pessoa bloqueie, de uma só vez, o próprio acesso às casas legalizadas, por prazo determinado ou mesmo indeterminado. As regras de publicidade foram reforçadas em julho de 2026, com advertências obrigatórias e proibição de mensagens dirigidas a crianças e adolescentes.
A culpa não é do sofá
São medidas insuficientes, sim, mas mais eficazes do que entregar o mercado a empresas clandestinas, porque é isso que a proibição produziria. O apostador não deixaria de apostar. Procuraria sites estrangeiros, plataformas ilegais e qualquer outro caminho disponível. Sem sede no Brasil, sem imposto, sem fiscalização, sem garantia de pagamento. O sofá sairia da sala, enquanto o vizinho entraria pela porta dos fundos.
As bets devem ser controladas, tributadas e responsabilizadas. Devem pagar pelos danos que ajudam a produzir e financiar programas de prevenção e tratamento da compulsão. O que não faz sentido é fingir que o jogo desaparece por decreto, sobretudo em um país cujo governo vende apostas pela internet enquanto posa de guardião da saúde financeira da população, o que, definitivamente, não é e nem nunca foi.
O Brasil já jogou o sofá fora e a “viúva” continuou adúltera. Quase 80 anos depois, é hora de pensar melhor e expulsar o vizinho. Como? Bem, começando por eliminar a lacração política, ideológica e religiosa da conversa. E eliminar também congressistas financiados pelas casas de apostas. Que se forme uma comissão técnica, de qualidade e isenta. A decisão jamais será perfeita. Mas ajudará bastante. No problema e na solução.