Kalil “privatizou” o Galo, mas critica venda da Copasa

Talvez, seu desconforto não seja propriamente com a venda da empresa, mas com o fato de não ser ele o vendedor
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Alexandre Kalil (Foto: Flickr Alexandre Kalil / Divulgação)

Esses malditos algoritmos de redes sociais nos trazem, a todo momento, matérias e vídeos a respeito de tudo e mais um pouco, gostemos ou não, nos interessemos ou não. 

Há alguns minutos, do nada, surgiu para mim uma entrevista do maior bravateiro político vivo do Brasil depois do atual presidente da República, a sedizente “alma mais honesta desse país”.

No vídeo, Alexandre Kalil ataca a privatização da Copasa, dizendo que a Sabesp, em São Paulo, entrega “água fedorenta” aos consumidores e, por isso, segundo ele, “Privatização não resolve”.

Joio e trigo

Durante o Congresso da Associação Mineira de Municípios (AMM), ocorrido em maio deste ano, o ex-prefeito de Belo Horizonte e pré-candidato ao governo de Minas (ainda é?) criticou a condução do processo, à época, ainda não concluído. 

Kalil cobrava explicações diversas e para onde iria o dinheiro obtido com a venda da companhia – uma pergunta ou muito estúpida ou muito impressionante pelo grau de ignorância, porque qualquer pardal da Praça da Liberdade sabe que o dinheiro servirá para quitar parte da dívida mineira com a União.

Discutir a privatização de uma empresa responsável pelo abastecimento de água e pelo tratamento de esgoto de milhões de mineiros é absolutamente pertinente e legítimo. Criticar o modelo, exigir transparência e questionar tarifas, investimentos, regulação e atendimento aos municípios menores, também. 

Santo de casa

O problema não está na crítica em si. Está no personagem que resolveu fazê-la como se sua passagem pela administração do Atlético fosse um exemplo escandinavo de governança, impessoalidade e separação entre interesses públicos, privados e familiares.

Kalil presidiu o Galo entre 2008 e 2014 e o noticiário relativo ao seu período revela uma administração na qual o clube, segundo auditorias e reportagens, parecia suficientemente permeável para acolher despesas e relações envolvendo o presidente e pessoas de sua família.

A CNN Brasil publicou reportagem baseada em uma auditoria externa realizada nas contas do Atlético. Segundo a emissora, o levantamento identificou aproximadamente R$ 800 mil, em valores atualizados à época, relacionados a viagens particulares de Kalil e familiares durante o período em que ele presidia o clube. 

Mundão de meu Deus

Entre os destinos mencionados estavam Dubai, Líbano, Aruba, Nova York, Paris, Londres, Rio de Janeiro e África do Sul. A auditoria teria concluído que as datas e os roteiros, aparentemente, não guardavam relação com jogos ou atividades oficiais do Atlético.

A acusação, evidentemente, não pode ser lida como se fosse uma condenação. Mas a controvérsia não termina nas viagens. O GE, da Globo, revelou que Felipe Kalil, filho do ex-presidente, trabalhou como médico do Atlético a partir de 2016, e o UOL informou, posteriormente, que ele recebia R$ 75,8 mil por mês. 

O GE também noticiou que Luís Otávio Kalil, sobrinho de Alexandre, trabalhava como preparador físico do Atlético. Ele começou nas categorias de base, foi promovido ao futebol profissional durante a presidência do tio e permaneceu no clube até 2020. 

QI: quem indica

Na mesma reestruturação, foram desligados o filho de Kalil, seu sobrinho e Raimundo Cirilo Martins, marido de uma cunhada do ex-presidente, que exercia uma função ligada à supervisão de clubes e lazer.

Na ocasião, Sérgio Sette Câmara, então presidente do Atlético, afirmou que consultorias haviam identificado excesso de funcionários e salários acima dos valores praticados no mercado.

Posteriormente, a imprensa informou que Luís Otávio Kalil obteve acordo de R$ 1,1 milhão em uma ação trabalhista contra o Atlético. Desse valor, R$ 100 mil corresponderiam a honorários destinados ao escritório Kalil & Salum, que tinha entre seus sócios Lucas Naves Kalil e João Luís Naves Kalil, filhos de Alexandre Kalil. 

Faça o que digo

Trata-se, claro, de um acordo judicial e não de uma irregularidade qualquer. Mas o episódio completa um quadro no qual diferentes integrantes da família Kalil mantiveram relações profissionais ou financeiras com o clube comandado ou sob forte influência do patriarca.

É nesse sentido – exclusivamente político e figurado – que digo que Kalil “privatizou” o Atlético. Não porque tenha vendido o clube à iniciativa privada, evidentemente, mas porque o Galo foi tratado como uma espécie de extensão pessoal e familiar.

Nada disso, isoladamente, prova crime ou ilegalidade. O que prova é que Kalil não reúne exatamente as melhores credenciais para vestir o figurino de guardião imaculado do patrimônio coletivo e distribuir lições sobre o que é público e o que é privado.

Me engana que eu gosto

A privatização da Copasa precisa ser discutida com seriedade, por óbvio. É necessário saber como ficarão as tarifas, os investimentos, os municípios deficitários, a universalização do saneamento, os contratos existentes e a fiscalização da empresa. 

Também é preciso cobrar transparência do governo de Minas e acompanhar cada etapa do processo. Sobretudo, se a referida fiscalização estatal pelo cumprimento integral das condições contratadas será efetivo e eficiente.

Mas ouvir Alexandre Kalil criticar a privatização como se fosse um militante histórico da gestão impessoal não dá. Inclusive, talvez, seu desconforto não seja propriamente com a venda, mas com o fato de não ser ele o vendedor.

Ricardo Kertzman é empresário, e há 8 anos milita no jornalismo profissional. Tem passagens pelo jornal Estado de Minas e Portal UAI, com a coluna Opinião Sem Medo; pela revista e site da IstoÉ; pela Rede 98 e a Rádio Itatiaia, como comentarista do Conversa de Redação. Escreve para a revista Encontro e o portal O Antagonista.

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