Mulheres são como girassóis

Foto mostra girassóis
Um campo de girassóis nunca floresce isolado. Quando o vento sopra, eles balançam juntos. Foto: Nadir Rodrigues/Embrapa

Existe uma espécie de afeto menos celebrado, menos fotografado e, talvez por isso, mais poderoso: aquele que nasce entre mulheres que escolhem caminhar juntas. Há pouco tempo passei a fazer parte de uma comunidade de mulheres e confesso que me surpreendi com a conexão genuína que existe nessa rara egrégora feminina.

Sempre ouvimos muitas histórias de rivalidade entre as mulheres e elas, de fato, existem. Mas o que testemunhei nesse grupo foi exatamente o contrário: mulheres que abrem espaço para que outras respirem, que acolhem sem julgamento, que estendem a mão independentemente da razão, que trocam a inveja pela inspiração e a disputa pela parceria.

Conheci mulheres que não me perguntaram “o que você conquistou?”, mas “como você está se sentindo?”. Mulheres que também carregam suas cicatrizes escondidas sob um batom bonito, uma agenda cheia ou uma gargalhada convincente. Mulheres que aprenderam que não existe vergonha em tropeçar, que estão dispostas a segurar nossa mão até o chão parar de balançar e que caminham ao nosso lado quando esquecemos para onde estávamos indo.

Há dias em que uma chega cheia de luz e ilumina todas as outras. Em outros, ela chega murcha, cansada, convencida de que perdeu o brilho. Então acontece algo extraordinário: as demais se aproximam. Não para julgá-la, nem para dizer como deveria florescer. Apenas permanecem ali, aquecendo sua terra até que se lembre novamente de quem ela é.

Não é por acaso que o nome da comunidade é Girassol. Dizem que ele procura a luz. Mas o mais interessante é que um campo de girassóis nunca floresce isolado. Quando o vento sopra, eles balançam juntos. Quando a tempestade chega, enfrentam-na lado a lado. E, quando o sol reaparece, todos voltam a erguer a cabeça.

Assim também acontece entre mulheres que decidiram abandonar a competição e escolher a comunhão. Uma lembra a outra da coragem esquecida. Uma enxerga a beleza que a outra insiste em esconder. Uma é girassol da outra. E isso muda tudo.

Porque nenhuma mulher permanece inteira o tempo todo. Tem fases em que somos sol. Em outras, somos apenas sementes enterradas, sem qualquer sinal de vida na superfície. É justamente aí que uma comunidade faz toda a diferença. Enquanto você acredita que acabou, alguém continua regando seus sonhos. Enquanto você só consegue enxergar a tempestade, outra aponta discretamente para o horizonte e diz: “toda chuva passa.”

Uma roda de mulheres de verdade tem uma característica curiosa, já que ali ninguém ganha prêmio por esconder a dor. Pelo contrário. Quanto mais uma se despe da armadura, mais espaço as outras encontram para fazer o mesmo. De repente, aquela mulher que você admirava porque parecia inabalável conta que também teve medo. A outra, que sempre sorria, confessa que passou dias sem saber por onde recomeçar.

É impossível competir quando finalmente percebemos que estamos todas aprendendo. E existe uma delicadeza muito bonita quando uma mulher deixa de ser espelho para se tornar abrigo. Espelhos mostram nossa imagem e os abrigos nos permitem descansar.

Acredito que o verdadeiro poder das comunidades de mulheres não está em provar que somos invencíveis, mas em nos lembrar de que não precisamos vencer sozinhas. Porque apesar de o sol continuar sendo um só, sua luz se multiplica quando encontra um campo inteiro de girassóis. E talvez seja essa a beleza de caminharmos juntas, pois quando uma mulher encontra o caminho da luz, ela ilumina também o caminho de todas as outras.

Escritora. Observadora comportamental. Bacharel em Direito.

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